| Por Marco Gonzalez | (Atualização em 21/09/2026) |
Óleo sobre tela "Iron and Coal" de 1855-60 de William Bell Scott.
O processo de produção, sem divisão de trabalho, era totalmente controlado pelos artesões em manufaturas (oficinas artesanais) quando em meados do século XVIII, na Inglaterra, aconteceu a Primeira Revolução Industrial, a "Era do carvão e do ferro". A produção manual passou a ser mecanizada com máquinas movidas a vapor que usavam carvão como combustível, substituindo fontes tradicionais de energia mecânica, como a roda de água, a roda de vento e a tração animal. Os vapores do progresso transformaram o artesão em funcionário assalariado.
Porém, com o advento da eletricidade e da transformação do ferro em aço, a linha de montagem, no final do século XIX, colocou em ação a Segunda Revolução Industrial, a "Era do aço e da eletricidade". O carvão foi sendo substituído pelo petróleo como combustível e a indústria incorporou inovações da siderurgia e da química. O dínamo foi aperfeiçoado e foram inventados o motor de combustão interna, o telégrafo e, para acompanhar tudo de perto, os sindicatos [NotasGeo_2RI, 2018].
E isso tudo ainda não era nada, pois com as inovações da eletrônica, da tecnologia da informação e das telecomunicações, na segunda metade do século XX, aconteceu a Terceira Revolução Industrial. Podemos chamá-la de Revolução Tecnológica ou "Era digital", resultado da junção do conhecimento científico com a produção industrial, que propiciou a tão desejada tecnologia de ponta (high-tech). Passamos ao domínio da televisão, das novelas, da Internet e das redes sociais digitais [NotasGeo_3RI, 2018].
Então, com a fusão de diversas tecnologias e a interação de três domínios, o físico, o digital e o biológico, desde a virada do século estamos presenciando os ajustes da Quarta Revolução Industrial, também conhecida como "Indústria 4.0". Sua característica principal é a hiper-conexão, decorrente do surgimento da Internet das coisas. Estão por aí as nanotecnologias, as neurotecnologias, a robótica, a inteligência artificial, a biotecnologia, sistemas de armazenamento de energia, os drones, as impressoras 3D e, talvez, Hal 9000, o computador de "2001 - uma odisseia no espaço", que já está atrasado para ser desligado [NotasGeo_4RI, 2018].
Enquanto procuramos entender se estamos na Quinta Revolução Industrial ou na Primeira Revolução Tecnológica, se o futuro estará condicionado a algoritmos e regulamentações, além da disponibilidade dos minerais críticos [Rivera e Zamanillo, 2025], vamos iniciar pelo início: pela Primeira Revolução Industrial.
1. Do Brasil para a Inglaterra
Para entender algumas fontes de investimentos na Primeira Revolução Industrial, precisamos falar do ouro. A primeira grande corrida do ouro, nos EUA, aconteceu em 1848, mas bem antes, em 1819, o geólogo, geógrafo, arquiteto e metalurgista alemão Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777-1855), também conhecido por Barão de Echewege, já estava abrindo a Mina da Passagem, em Mariana, Minas Gerais. Iniciava-se um período de lavra de ouro mais sofisticada. A Mina da Passagem abriu passagem para outras como a Mina Velha, em 1834, da Saint John Del Rey Mining Co., em Nova Lima, também em Minas Gerais. Essas duas minas, implantadas por mineradores ingleses e alemães, brilhavam como referência mundial em tecnologia de lavra subterrânea [Germany, 2002; generalkinematics, 2019].
Saint John Del Rey Mining Co., em Nova Lima, 1869.
Naquela época (e até o final do século XIX), as rochas brasileiras eram "perfuradas" com ponteiras e marretadas e desmontadas com pólvora caseira. Tal processo não era muito diferente daquele usado na abertura de túneis ferroviários, nas Montanhas Rochosas dos EUA na década de 1860. Lá, cada avanço não ultrapassava 30 cm, apesar de se ter notícia, já em 1813, de uma perfuratriz rotativa a vapor
| Perfuratriz rotativa a vapor: máquina a vapor de alta pressão para perfuração de rochas, que também içava e carregava pedras para transporte. Foi projetada por Richard Trevithick e construída pelo industrial britânico Henry Harvey (1775-1850) em sua fundição em Hayle, na Inglaterra. |
projetada pelo inventor britânico Richard Trevithick (1771-1833). Trinta anos depois, perfuratrizes mecânicas, também inglesas, atacavam as rochas com brocas movendo-se como um pistão em um cilindro [Germany, 2002; Hustrulid, 2026].
Com ponteiras e marretas ou não, no século XVIII, acordos comerciais não muito espertos deixaram a economia portuguesa dependente da Inglaterra. Em consequência, o ouro extraído no Brasil era enviado para que Portugal pagasse a importação dos produtos ingleses. O lado positivo de tudo isto é que se pode dizer que o ouro brasileiro financiou parte da Revolução Industrial em marcha na Inglaterra desde a metade do século XVIII [historiaemcartaz, 2015; Almeida, 2019].
2. Do ouro para o carvão
Avançamos muito no tempo com as perfuratrizes rotativas a vapor. Vamos voltar, então, às minas de carvão que foram causa e consequência da Primeira Revolução Industrial. Elas, ao mesmo tempo, exigiam e viabilizam inovações que caracterizaram aqueles tempos. Tais minas inglesas eram acessadas por elevadores movidos pela força de pôneis e mulas, animais baixos e resistentes. Seus pequenos vagões e as cargas transportadas eram puxados pela mesma "força motriz" fazendo com que cerca de 50 animais convivessem nas galerias com os mineiros [Maia, 2011].
O progresso chegou em 1698 na forma da primeira máquina a vapor
Máquina a vapor: máquina que utiliza a energia do vapor para realizar trabalho mecânico através da troca de calor.
Diagramas esquemáticos de uma típica máquina a vapor de alta pressão, de expansão simples e cilindro único. VA = vapor de alta pressão e alta temperatura.
VB = vapor de baixa pressão e baixa temperatura. (Créditos: Panther1; Panther2).
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de interesse industrial construída pelo engenheiro militar inglês Thomas Savery (1650-1715). Sua principal função era a retirada da água das minas de carvão. Ainda que tenha trazido grandes avanços para a mineração, era um equipamento com gênio explosivo, revelado frequentemente através da elevada pressão do vapor. Então, por volta de 1712, o inventor, mecânico e engenheiro inglês Thomas Newcomen (1664-1729) idealizou uma nova máquina (a máquina atmosférica de Newcomen
Máquina atmosférica de Newcomen: máquina a vapor idealizada por Newcomen e construída pelo engenheiro britânico Francis Thompson de Ashover (1747-1809) em 1791. Era construída como uma casa, tendo cilindros fundidos por fundidores de canhões e caldeiras como chaleiras que geravam vapor a uma pressão pouco superior à atmosférica. O vapor, ao ser condensado criava um vácuo parcial no cilindro, mas era a pressão atmosférica que impulsionava o pistão para baixo elevando pesadas hastes da bomba suspensas no poço da mina. Desta forma, o cilindro ficava sujeito a uma pressão externa e a possibilidade de ruptura era eliminada. Esta máquina possibilitou a drenagem de minas profundas e a plena exploração da riqueza mineral da Europa Ocidental.
Diagramas esquemáticos da máquina atmosférica de Newcomen. O vapor era gerado na caldeira A. O pistão P movia-se dentro de um cilindro B. Quando a válvula V era aberta, o vapor empurrava o pistão para cima. No ponto mais alto do curso, a válvula V era fechada, a válvula V' era aberta e um jato de água fria do reservatório C era injetado no cilindro B, condensando o vapor e reduzindo a pressão sob o pistão. A pressão atmosférica, então, empurrava o pistão para baixo novamente e água era escoada com a abertura da válvula V" (não desenhada na animação), elevando o contrapeso D. |
ou máquina a vácuo) mais segura e prestativa, podendo tanto retirar a água quanto os materiais das minas [Gonçalves_vapor, 2004; thehenryford, 2026].
Réplica da casa de máquinas de 1712, com a máquina a vapor de Thomas Newcomen.
De qualquer forma, a vida mineira não era tranquila. Em 1815, o químico inglês Sir Humphrey Davy (1778-1829) recebeu uma carta de mineiros de Newcastle relatando outro perigo. A combinação do gás metano
(formado pela carbonização
| Carbonização: processo que ocorre nas formações de carvão onde o gás metano é formado simultaneamente com o carvão, quando detritos vegetais (como os encontrados em pântanos) se transformam lentamente em carvão após serem enterrados e cobertos por um longo período. |
principalmente em minas subterrâneas) com as lâmpadas usadas para a iluminação das minas era seguidamente a causa de incêndios e explosões fatais. Compreendendo a situação e para resolvê-la, Sir Humphrey criou a lâmpada "Davy". No mesmo ano o engenheiro ferroviário britânico George Stephenson (1781-1848) também inventou uma lâmpada de segurança [bbc.co_humphrey, 2014; epa_coal, 2026].
Lâmpadas de segurança de Davy e de Stephenson.
3. Do carvão para o ferro
Antes das lâmpadas de segurança, as minas de carvão não estavam associadas à fundição do ferro,
Fundição do ferro: um dos métodos de fundição mais antigos do mundo. O ferro é derretido e vertido em moldes para produzir peças com o tamanho e formato desejados. O ferro fundido pode ser utilizado em uma ampla gama de indústrias. No processo de fabricação do ferro fundido, os elementos de liga determinam o tipo de ferro fundido desejado. Fundição: processo que envolve diversas etapas, como criação de moldes (normalmente de madeira, metal ou plástico e servem como guia para determinar o formato do produto final), fusão (através de altas temperaturas o material atinge seu ponto de fusão para ser vertido no molde) e solidificação (o metal fundido é resfriado para assumir a forma do molde). |
processo em que era utilizado carvão vegetal. Em 1735, o inventor e mestre de fundição britânico Abraham Darby II (1711-1763) utilizou coque
Coque (derivado do carvão e não do petróleo): resíduo carbonáceo sólido derivado de carvão betuminoso com baixo teor de cinzas e enxofre, do qual os componentes voláteis são removidos por meio de cozimento em forno a temperaturas de até 1.093 graus Celsius (2.000 graus Fahrenheit), de modo que o carbono fixo e as cinzas residuais se fundam. O coque é usado como combustível e como agente redutor na fundição de minério de ferro em alto-forno. O coque derivado do carvão é cinza, duro e poroso, e possui um poder calorífico de 24,8 milhões de Btu por tonelada. Btu ("British Thermal Unit", "Unidade Térmica Britânica" em inglês): unidade de medida de energia ou calor. É a quantidade de calor necessária para elevar a temperatura de 454 gramas de água em 1 grau Fahrenheit. |
com sucesso, dando continuidade ao avanço anterior de seu pai, o inventor e mestre fundidor britânico Abraham Darby I (1677-1717). Este processo se difundiu a partir de 1760 na Inglaterra [
Coggiola, 2015;
metinvestholding, 2019].
Desde então, carvão e ferro prosseguiram juntos na Primeira Revolução Industrial que embalou de vez com a máquina do matemático e engenheiro britânico James Watt (1736-1819). Ele fabricava instrumentos para a Universidade de Glasgow e, em 1765, aperfeiçoou a máquina a vapor de Newcomen, tornando-a mais eficiente e menos dispendiosa. A máquina a vapor de Watt
Máquina a vapor de Watt: máquina que solucionou as ineficiências das máquinas de vapor anteriores empregando um "condensador separado", que conservava o vapor e reduzia o consumo de combustível em aproximadamente 75%. Essa inovação permitia que o vapor fosse condensado longe do cilindro, mantendo-o aquecido e melhorando a eficiência operacional. Os aprimoramentos subsequentes de Watt, como uma bomba de ar para exaustão do vapor condensado e um projeto de pistão hermético, impulsionaram ainda mais a tecnologia das máquinas a vapor.
 Esquema da máquina a vapor de James Watt. Situação 1 (pistão desce): válvulas a e c são abertas e b é fechada – o vapor sai do cilindro em direção ao condensador, enquanto mais vapor entra pela parte superior, empurrando o pistão para baixo. Situação 2 (pistão sobe): válvulas a e c são fechadas e b é aberta – o pistão sobe impulsionado pelo contrapeso junto à bomba enquanto o vapor sai da parte superior do cilindro sendo dirigido para a parte inferior (através da válvula b) e . |
finalmente foi construída em 1776. Ela ganhou um condensador para minimizar as perdas de calor e passou a ser usada para finalidades diversas, desde a fundição até a propulsão de moinhos, além de continuar operando nas minas de carvão [Gonçalves_vapor, 2004; lumenlearning_watt, 2017].
Óleo sobre tela "James Watt and the Steam Engine: the Dawn of the Nineteenth Century" ("James Watt e a Máquina a Vapor: o Alvorecer do Século XIX"), de 1855, do artista escocês James Eckford Lauder (1811-1869).
Em 1781, a máquina a vapor de Watt permitiu o aumento do tamanho dos fornos impulsionando a produção de ferro fundido. Em 1783, o inventor e mestre de fundição britânico Henry Cort (1740-1800) desenvolveu técnicas para a retirada das impurezas e permitiu a produção de ferro com maior rapidez e em larga escala [Wilde, 2025].
4. Mais carvão, mais ferro...
Máquinas a vapor mais potentes exigiam mais carvão e produziam mais ferro fundido. Com mais ferro era possível construir mais máquinas que, assim, exigiam ainda mais carvão. Assim, a produção de ferro aumentava e as minas de carvão prosperavam [Wilde, 2025].
Este casamento do carvão com o ferro fez com que as fábricas se localizassem nas proximidades das minas de carvão, o que fez surgir pequenas aldeias que logo se transformaram em grandes cidades industriais [Coggiola, 2015].
Ilustração do livro "Griffiths' Guide to the iron trade of Great Britain" ("Guia de Griffiths para o comércio de ferro da Grã-Bretanha") de 1873, editado pelo empresário britânico no ramo do ferro Samuel Griffiths (1814-1881). Mostra a crescente industrialização e urbanização em Black Country, representando a evolução da Grã-Bretanha durante a Revolução Industrial.
Toda a região de Black Country é frequentemente vista como um conjunto de cerca de 20 cidades localizadas nos quatro distritos metropolitanos de Dudley, Sandwell, Walsall e Wolverhampton, no coração da Inglaterra. Nesta região, acredita-se, talvez com razão, que "o povo de Black Country mudou o mundo", construindo a primeira máquina a vapor bem-sucedida, impulsionando a introdução do primeiro salário mínimo, produzindo a âncora do Titanic e muito mais [bclm, 2024].
Diversas causas fizeram este progresso consistente se expandir. A energia a vapor, adotada como nova força motriz, funcionava em qualquer estação do ano e em qualquer lugar, ao contrário da energia hidráulica. Além disto, através de correias de transmissão,
| Correias de transmissão: correia de transmissão de potência são utilizadas há mais de 200 anos. As primeiras eram planas e funcionavam em polias planas. Posteriormente, cordas de algodão ou cânhamo foram utilizadas com polias em V para reduzir a tensão na correia. Isto levou ao desenvolvimento da correia em V de borracha vulcanizada em 1917. A necessidade de eliminar as variações de velocidade levou ao desenvolvimento das correias sincronizadas ou dentadas por volta de 1950 e, posteriormente, ao desenvolvimento de materiais elastoméricos reforçados com tecido. Atualmente, correias planas, em V e síncronas ainda são utilizadas na transmissão de potência. As transmissões por correia são amplamente utilizadas em sistemas de transmissão de potência mecânica para transferir movimento e torque entre eixos rotativos. São comumente usadas em máquinas industriais, sistemas de transporte, equipamentos automotivos e processos de fabricação. Em comparação com outros métodos de transmissão, como correntes ou engrenagens, as transmissões por correia oferecem diversas vantagens, incluindo operação silenciosa, baixa necessidade de manutenção e capacidade de absorver impactos |
tornou-se viável o funcionamento simultâneo de vários equipamentos, como as máquinas de fiar e os teares [
Coggiola, 2015].
5. ... e mais progresso
Em meio às inovações no setor mineral e na siderurgia,
Siderurgia: ramo da metalurgia que se dedica especificamente à produção de ferro e aço. O foco principal é a transformação do minério de ferro em produtos de aço. Inclui várias etapas, como o refino do minério de ferro, a redução em altos-fornos, a produção de ferro-gusa e o refino para a criação do aço. Diferente da fundição, que se concentra na moldagem de peças, a siderurgia foca na produção em larga escala de materiais estruturais, como chapas, perfis e barras de aço. Metalurgia: campo abrangente que engloba os processos de extração, purificação e tratamento dos metais. Esse termo refere-se ao estudo e aplicação de técnicas para transformar minérios em materiais utilizáveis, como ligas metálicas. Ferro-gusa: forma impura de ferro produzida num alto forno, que é fundida em lingotes (blocos) para serem convertidos mais tarde em ferro fundido, aço, etc. A composição depende dos minérios usados, do processo de fusão e do fim que será dado aos lingotes. |
a indústria têxtil
Indústria têxtil: indústria que engloba setores como pesquisa, design, desenvolvimento, fabricação e distribuição de têxteis, tecidos e vestuário. Têxtil: termo que se refere a tecido (ou malha) feito de fios ou qualquer outro produto, como fibras. O termo também está associado à produção de vestuário. A fibra é a matéria-prima do têxtil, podendo ser natural ou sintética. |
evoluiu caracterizando a Primeira Revolução Industrial. Em 1767, o tecelão, carpinteiro e inventor britânico James Hargreaves (1720-1778) inventou a spinning Jenny
| Spinning Jenny: máquina de fiar manual com múltiplos fusos permitindo que os fabricantes produzissem têxteis a uma velocidade sem precedentes, mais acessíveis e impulsionando a demanda e expandindo o comércio global. Ela permitia que um único tecelão operasse um tear com mais eficiência, impulsionando mecanicamente a lançadeira que transportava o fio da trama para frente e para trás em um tear mais amplo, eliminando a necessidade de um segundo operador para operar com a lançadeira. |
e, em 1779, o pioneiro da indústria de fiação e inventor britânico Samuel Crompton (1753-1827) criou a mule Jenny,
| Mule Jenny: máquina de fiar que operava de forma semiautomática. A fiação era feita usando energia hidráulica ou a energia de uma máquina a vapor. O trabalho manual do fiandeiro ainda era necessário para enrolar o fio fiado. Usava 48 fios por vez, mas logo foi aprimorada para 150 fios. |
máquina de tear que permitiu a manufatura em larga escala na indústria têxtil. Em 1785, o clérigo e inventor britânico Edmond Cartwright (1743-1823) inventou o tear mecânico.
| Tear mecânico: tear vertical, baseado em teares primitivos, que exigia apenas três peças móveis. O problema era o pente que cedia sob o peso de uma enorme pressão e a lançadeira era acionada por molas muito potentes, exigindo a força de dois homens para operá-la. Cartwright fez melhorias, porém sua criação manteve a concepção do que era necessário e se tornou a base dos teares mecânicos. |
Em 1801, o inventor, tecelão, mercador, engenheiro francês Joseph Marie Jacquard (1752-1834) sugeriu automatizar o controle de teares por meio de cartões perfurados, que no futuro foram utilizados para programar computadores [Coggiola, 2015; Andrade, 2025; Gadelha, 2026].
Não só tecidos finos e estampados cobriram o mundo. Em 1779, o mestre de fundição e industrial britânico Abraham Darby III (1750-1789) – filho de Darby II e neto de Darby I – fundiu a estrutura da primeira ponte de ferro fundido construída em Coalbrookdale, na Inglaterra [
english-heritage, 2020].
Primeira ponte de ferro em Coalbrookdale, Inglaterra.
Como uma coisa leva à outra, barcos construídos com chapas de ferro foram lançados nas águas em 1787 (e flutuaram). No outro lado do mundo, para usufruir das ideias inovadores desenvolvidas e guardadas a sete chaves na Grã-Bretanha, os EUA passaram a oferecer recompensas aos ingleses que trouxessem aquele conhecimento para a América. O industrial anglo-americano Samuel Slater (1768-1835) atendeu este chamado e impulsionou a indústria têxtil norte-americana na década de 1790 [
firstindustrialrevolution, 2015;
Chaves, 2018].
Mas nem só de inovações inglesas se sustentou a Primeira Revolução Industrial. Em 1793, o inventor e engenheiro norte-americano Eli Whitney (1765-1825) inventou o descaroçador de algodão
| Descaroçador de algodão: máquina para limpar o algodão de suas sementes. É um exemplo de invenção diretamente motivada por uma necessidade imediata: a mecanização da fiação na Inglaterra havia criado um mercado muito maior para o algodão americano, cuja produção era limitada pela lentidão da remoção manual das sementes da fibra bruta. O dispositivo puxava o algodão através de um conjunto de dentes de arame montados em um cilindro giratório, com a fibra passando por fendas estreitas em uma estrutura de ferro pequena demais para permitir a passagem da semente. Consistia em uma caixa de madeira onde o algodão girava em torno de um tambor e os resíduos eram separados com ganchos de arame. A colheita manual das sementes exigia várias horas de trabalho para produzir meio quilo de fibra. Uma única máquina de descaroçar algodão podia produzir até 23 quilos de algodão limpo por dia. |
e, com ele, o trabalho de uma pessoa rendia 50 vezes mais. Também a espionagem industrial tinha seus frutos. Em 1810, o empresário norte-americano Francis Cabot Lowell (1775-1817) visitou as fábricas de têxteis na Inglaterra, tomou notas e formou a Boston Manufacturing Coompany em 1812 [firstindustrialrevolution, 2015; Chaves, 2018].
Réplica da primeira locomotiva, que foi projetada em 1802 por Richard Trevithick.
De qualquer forma, a Inglaterra continuava forte e inventou a fumaça ferroviária. Para colocar a rodar nos trilhos (que em ferro fundido já estavam à disposição das "marias fumaças" desde 1767), foi inaugurada, em 1804, a Pennydarren,
| Pennydarren: locomotiva a vapor criada para transportar cargas na mina de Pennydarren, no País de Gales. Durante a inauguração, ela puxou com sucesso cinco vagões carregados de minério de ferro e 70 passageiros, percorrendo uma distância de cerca de 16 quilômetros. A Pennydarren é considerada um símbolo da Revolução Industrial e do progresso científico e tecnológico. Sua invenção impulsionou a criação de novos empregos e o desenvolvimento da metalurgia e da engenharia mecânica, além de contribuir para o crescimento econômico de muitos países. |
a primeira locomotiva a vapor. Ela foi projetada por Richard Trevithick (o mesmo que projetou a perfuratriz rotativa a vapor)
. Os EUA deram o troco e, em 1807, o inventor e engenheiro norte-americano Robert Fulton (1765-1815) colocou na água o North River,
| North River: barco a vapor com rodas laterais e velas auxiliares, com 44,5 metros de comprimento e apenas 3,6 metros de largura, fundo plano, calado de apenas 60 centímetros e movido por um motor a vapor a carvão. Posteriormente foi batizado com o nome de Clermont. |
seu barco equipado com rodas de pás e com o motor a vapor de James Watt [Cavendish, 2007; aorigemdascoisas, 2009; warwickshireias, 2021].
Na água e nos trilhos foram tempos de revolução, não só nos transportes, mas também em outras áreas onde diversas inovações aconteceram. No final do século XIX surgiram o aço e a eletricidade e, na década de 1860, foi inventada a dinamite, logo adotada pela mineração. Explodia, assim, a Segunda Revolução Industrial...
Mas este é o próximo assunto.
Um comentário:
Aguardo a continuação da história
Lisboa
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