"O presente é a chave para o passado"
James Hutton

7 de janeiro de 2018

A mineração e a Primeira Revolução Industrial

Por Marco Gonzalez(Atualização em 21/09/2026)

Óleo sobre tela "Iron and Coal" de 1855-60 de William Bell Scott.
(Crédito: Alcinoe).

O processo de produção, sem divisão de trabalho, era totalmente controlado pelos artesões em manufaturas (oficinas artesanais) quando em meados do século XVIII, na Inglaterra, aconteceu a Primeira Revolução Industrial, a "Era do carvão e do ferro". A produção manual passou a ser mecanizada com máquinas movidas a vapor que usavam carvão como combustível, substituindo fontes tradicionais de energia mecânica, como a roda de água, a roda de vento e a tração animal. Os vapores do progresso transformaram o artesão em funcionário assalariado.

Porém, com o advento da eletricidade e da transformação do ferro em aço, a linha de montagem, no final do século XIX, colocou em ação a Segunda Revolução Industrial, a "Era do aço e da eletricidade". O carvão foi sendo substituído pelo petróleo como combustível e a indústria incorporou inovações da siderurgia e da química. O dínamo foi aperfeiçoado e foram inventados o motor de combustão interna, o telégrafo e, para acompanhar tudo de perto, os sindicatos [NotasGeo_2RI, 2018]. 

E isso tudo ainda não era nada, pois com as inovações da eletrônica, da tecnologia da informação e das telecomunicações, na segunda metade do século XX, aconteceu a Terceira Revolução Industrial. Podemos chamá-la de Revolução Tecnológica ou "Era digital", resultado da junção do conhecimento científico com a produção industrial, que propiciou a tão desejada tecnologia de ponta (high-tech). Passamos ao domínio da televisão, das novelas, da Internet e das redes sociais digitais [NotasGeo_3RI, 2018].

Então, com a fusão de diversas tecnologias e a interação de três domínios, o físico, o digital e o biológico, desde a virada do século estamos presenciando os ajustes da Quarta Revolução Industrial, também conhecida como "Indústria 4.0". Sua característica principal é a hiper-conexão, decorrente do surgimento da Internet das coisas. Estão por aí as nanotecnologias, as neurotecnologias, a robótica, a inteligência artificial, a biotecnologia, sistemas de armazenamento de energia, os drones, as impressoras 3D e, talvez, Hal 9000, o computador de "2001 - uma odisseia no espaço", que já está atrasado para ser desligado [NotasGeo_4RI, 2018].

Enquanto procuramos entender se estamos na Quinta Revolução Industrial ou na Primeira Revolução Tecnológica, se o futuro estará condicionado a algoritmos e regulamentações, além da disponibilidade dos minerais críticos [Rivera e Zamanillo, 2025], vamos iniciar pelo início: pela Primeira Revolução Industrial.

1. Do Brasil para a Inglaterra

Para entender algumas fontes de investimentos na Primeira Revolução Industrial, precisamos falar do ouro. A primeira grande corrida do ouro, nos EUA, aconteceu em 1848, mas bem antes, em 1819, o geólogo, geógrafo, arquiteto e metalurgista alemão Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777-1855), também conhecido por Barão de Echewege, já estava abrindo a Mina da Passagem, em Mariana, Minas Gerais. Iniciava-se um período de lavra de ouro mais sofisticada. A Mina da Passagem abriu passagem para outras como a Mina Velha, em 1834, da Saint John Del Rey Mining Co., em Nova Lima, também em Minas Gerais. Essas duas minas, implantadas por mineradores ingleses e alemães, brilhavam como referência mundial em tecnologia de lavra subterrânea [Germany, 2002; generalkinematics, 2019].  


Saint John Del Rey Mining Co., em Nova Lima, 1869.
(Crédito: Augusto Riedel).

Naquela época (e até o final do século XIX), as rochas brasileiras eram "perfuradas" com ponteiras e marretadas e desmontadas com pólvora caseira. Tal processo não era muito diferente daquele usado na abertura de túneis ferroviários, nas Montanhas Rochosas dos EUA na década de 1860. Lá, cada avanço não ultrapassava 30 cm, apesar de se ter notícia, já em 1813, de uma perfuratriz rotativa a vapor projetada pelo inventor britânico Richard Trevithick (1771-1833). Trinta anos depois, perfuratrizes mecânicas, também inglesas, atacavam as rochas com brocas movendo-se como um pistão em um cilindro [Germany, 2002; Hustrulid, 2026]. 

Com ponteiras e marretas ou não, no século XVIII, acordos comerciais não muito espertos deixaram a economia portuguesa dependente da Inglaterra. Em consequência, o ouro extraído no Brasil era enviado para que Portugal pagasse a importação dos produtos ingleses. O lado positivo de tudo isto é que se pode dizer que o ouro brasileiro financiou parte da Revolução Industrial em marcha na Inglaterra desde a metade do século XVIII [historiaemcartaz, 2015; Almeida, 2019].

2. Do ouro para o carvão

Avançamos muito no tempo com as perfuratrizes rotativas a vapor. Vamos voltar, então, às minas de carvão que foram causa e consequência da Primeira Revolução Industrial. Elas, ao mesmo tempo, exigiam e viabilizam inovações que caracterizaram aqueles tempos. Tais minas inglesas eram acessadas por elevadores movidos pela força de pôneis e mulas, animais baixos e resistentes. Seus pequenos vagões e as cargas transportadas eram puxados pela mesma "força motriz" fazendo com que cerca de 50 animais convivessem nas galerias com os mineiros [Maia, 2011].

O progresso chegou em 1698 na forma da primeira máquina a vapor de interesse industrial construída pelo engenheiro militar inglês Thomas Savery (1650-1715). Sua principal função era a retirada da água das minas de carvão. Ainda que tenha trazido grandes avanços para a mineração, era um equipamento com gênio explosivo, revelado frequentemente através da elevada pressão do vapor. Então, por volta de 1712, o inventor, mecânico e engenheiro inglês Thomas Newcomen (1664-1729) idealizou uma nova máquina (a máquina atmosférica de Newcomen ou máquina a vácuo) mais segura e prestativa, podendo tanto retirar a água quanto os materiais das minas [Gonçalves_vapor, 2004; thehenryford, 2026]. 

Réplica da casa de máquinas de 1712, com a máquina a vapor de Thomas Newcomen.
(Crédito: Tony Hisgett).

De qualquer forma, a vida mineira não era tranquila. Em 1815, o químico inglês Sir Humphrey Davy (1778-1829) recebeu uma carta de mineiros de Newcastle relatando outro perigo. A combinação do gás metano (formado pela carbonização principalmente em minas subterrâneas) com as lâmpadas usadas para a iluminação das minas era seguidamente a causa de incêndios e explosões fatais. Compreendendo a situação e para resolvê-la, Sir Humphrey criou a lâmpada "Davy". No mesmo ano o engenheiro ferroviário britânico George Stephenson (1781-1848) também inventou uma lâmpada de segurança [bbc.co_humphrey, 2014; epa_coal, 2026].


Lâmpadas de segurança de Davy e de Stephenson.
(Crédito: Samuel Smiles).

3. Do carvão para o ferro

Antes das lâmpadas de segurança, as minas de carvão não estavam associadas à fundição do ferro, processo em que era utilizado carvão vegetal. Em 1735, o inventor e mestre de fundição britânico Abraham Darby II (1711-1763) utilizou coque com sucesso, dando continuidade ao avanço anterior de seu pai, o inventor e mestre fundidor britânico Abraham Darby I (1677-1717). Este processo se difundiu a partir de 1760 na Inglaterra [Coggiola, 2015; metinvestholding, 2019].

Desde então, carvão e ferro prosseguiram juntos na Primeira Revolução Industrial que embalou de vez com a máquina do matemático e engenheiro britânico James Watt (1736-1819). Ele fabricava instrumentos para a Universidade de Glasgow e, em 1765, aperfeiçoou a máquina a vapor de Newcomen, tornando-a mais eficiente e menos dispendiosa. A máquina a vapor de Watt finalmente foi construída em 1776. Ela ganhou um condensador para minimizar as perdas de calor e passou a ser usada para finalidades diversas, desde a fundição até a propulsão de moinhos, além de continuar operando nas minas de carvão [Gonçalves_vapor, 2004; lumenlearning_watt, 2017].  

Óleo sobre tela "James Watt and the Steam Engine: the Dawn of the Nineteenth Century" ("James Watt e a Máquina a Vapor: o Alvorecer do Século XIX"), de 1855, do artista escocês James Eckford Lauder (1811-1869).

Em 1781, a máquina a vapor de Watt permitiu o aumento do tamanho dos fornos impulsionando a produção de ferro fundido. Em 1783, o inventor e mestre de fundição britânico Henry Cort (1740-1800) desenvolveu técnicas para a retirada das impurezas e permitiu a produção de ferro com maior rapidez e em larga escala [Wilde, 2025]. 

4. Mais carvão, mais ferro...

Máquinas a vapor mais potentes exigiam mais carvão e produziam mais ferro fundido. Com mais ferro era possível construir mais máquinas que, assim, exigiam ainda mais carvão. Assim, a produção de ferro aumentava e as minas de carvão prosperavam [Wilde, 2025].

Este casamento do carvão com o ferro fez com que as fábricas se localizassem nas proximidades das minas de carvão, o que fez surgir pequenas aldeias que logo se transformaram em grandes cidades industriais [Coggiola, 2015]. 

Ilustração do livro "Griffiths' Guide to the iron trade of Great Britain" ("Guia de Griffiths para o comércio de ferro da Grã-Bretanha") de 1873, editado pelo empresário britânico no ramo do ferro Samuel Griffiths (1814-1881). Mostra a crescente industrialização e urbanização em Black Country, representando a evolução da Grã-Bretanha durante a Revolução Industrial.
Toda a região de Black Country é frequentemente vista como um conjunto de cerca de 20 cidades localizadas nos quatro distritos metropolitanos de Dudley, Sandwell, Walsall e Wolverhampton, no coração da Inglaterra. Nesta região, acredita-se, talvez com razão, que "o povo de Black Country mudou o mundo", construindo a primeira máquina a vapor bem-sucedida, impulsionando a introdução do primeiro salário mínimo, produzindo a âncora do Titanic e muito mais [bclm, 2024].
(Crédito da imagem: Griffiths).

Diversas causas fizeram este progresso consistente se expandir. A energia a vapor, adotada como nova força motriz, funcionava em qualquer estação do ano e em qualquer lugar, ao contrário da energia hidráulica. Além disto, através de correias de transmissão, tornou-se viável o funcionamento simultâneo de vários equipamentos, como as máquinas de fiar e os teares [Coggiola, 2015]. 

5. ... e mais progresso

Em meio às inovações no setor mineral e na siderurgia, a indústria têxtil evoluiu caracterizando a Primeira Revolução Industrial. Em 1767, o tecelão, carpinteiro e inventor britânico James Hargreaves (1720-1778) inventou a spinning Jenny e, em 1779, o pioneiro da indústria de fiação e inventor britânico Samuel Crompton (1753-1827) criou a mule Jenny, máquina de tear que permitiu a manufatura em larga escala na indústria têxtil. Em 1785, o clérigo e inventor britânico Edmond Cartwright (1743-1823) inventou o tear mecânico. Em 1801, o inventor, tecelão, mercador, engenheiro francês Joseph Marie Jacquard (1752-1834) sugeriu automatizar o controle de teares por meio de cartões perfurados, que no futuro foram utilizados para programar computadores [Coggiola, 2015; Andrade, 2025; Gadelha, 2026].  

Não só tecidos finos e estampados cobriram o mundo. Em 1779, o mestre de fundição e industrial britânico Abraham Darby III (1750-1789) – filho de Darby II e neto de Darby I – fundiu a estrutura da primeira ponte de ferro fundido construída em Coalbrookdale, na Inglaterra [english-heritage, 2020].

Primeira ponte de ferro em Coalbrookdale, Inglaterra.
(Crédito: The Singing Badger).

Como uma coisa leva à outra, barcos construídos com chapas de ferro foram lançados nas águas em 1787 (e flutuaram). No outro lado do mundo, para usufruir das ideias inovadores desenvolvidas e guardadas a sete chaves na Grã-Bretanha, os EUA passaram a oferecer recompensas aos ingleses que trouxessem aquele conhecimento para a América. O industrial anglo-americano Samuel Slater (1768-1835) atendeu este chamado e impulsionou a indústria têxtil norte-americana na década de 1790 [firstindustrialrevolution, 2015; Chaves, 2018].

Mas nem só de inovações inglesas se sustentou a Primeira Revolução Industrial. Em 1793, o inventor e engenheiro norte-americano Eli Whitney (1765-1825) inventou o descaroçador de algodão e, com ele, o trabalho de uma pessoa rendia 50 vezes mais. Também a espionagem industrial tinha seus frutos. Em 1810, o empresário norte-americano Francis Cabot Lowell (1775-1817) visitou as fábricas de têxteis na Inglaterra, tomou notas e formou a Boston Manufacturing Coompany em 1812 [firstindustrialrevolution, 2015; Chaves, 2018]. 

Réplica da primeira locomotiva, que foi projetada em 1802 por Richard Trevithick.
(Crédito: M. J. Richardson).

De qualquer forma, a Inglaterra continuava forte e inventou a fumaça ferroviária. Para colocar a rodar nos trilhos (que em ferro fundido já estavam à disposição das "marias fumaças" desde 1767), foi inaugurada, em 1804, a Pennydarren, a primeira locomotiva a vapor. Ela foi projetada por Richard Trevithick (o mesmo que projetou a perfuratriz rotativa a vapor). Os EUA deram o troco e, em 1807, o inventor e engenheiro norte-americano Robert Fulton (1765-1815) colocou na água o North River, seu barco equipado com rodas de pás e com o motor a vapor de James Watt [Cavendish, 2007; aorigemdascoisas, 2009; warwickshireias, 2021]. 

Na água e nos trilhos foram tempos de revolução, não só nos transportes, mas também em outras áreas onde diversas inovações aconteceram. No final do século XIX surgiram o aço e a eletricidade e, na década de 1860, foi inventada a dinamite, logo adotada pela mineração. Explodia, assim, a Segunda Revolução Industrial...

Mas este é o próximo assunto.

Um comentário:

Unknown disse...

Aguardo a continuação da história
Lisboa

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