"O presente é a chave para o passado"
James Hutton

18 de janeiro de 2018

A mineração e a Segunda Revolução Industrial (parte I)

Por Marco Gonzalez(Atualização em 25/09/2026)

Aquarela com o título "Bethlehem Steel Works" ("Siderúrgica Bethlehem Steel"), de 1881, de autoria do desenhista, gravador, litógrafo e ilustrador norte-americano Joseph Pennell (1857-1926).
A siderúrgica Bethlehem Steel Corporation, fundada em 1857 com o nome de Saucona Iron Company, dedicou-se à construção naval, além da fabricação de armas e munições, e absorveu uma série de mineradoras de ferro e carvão e propriedades produtoras de aço de costa a costa dos EUA (lehigh_steel, 2011).
(Crédito da imagem: Durova).

A liderança que a Grã-Bretanha teve na Primeira Revolução Industrial pode ser explicada por algumas das características britânicas da época [Mokyr, 2006; Messer, 2011; Wilde, 2025; Beck, 2026]:
  • economia comercial bem desenvolvida com capital para investimento;
  • sistema monetário uniforme e estável;
  • sistema bancário favorável ao comércio;
  • ausência de tarifas internas inibidoras desse comércio;
  • extenso sistema fluvial propício ao transporte de mercadorias e, claro;
  • os ricos depósitos de carvão e ferro.
O cenário não se manteve assim durante a Segunda Revolução Industrial, a "Era do aço e da eletricidade", que aconteceu na segunda metade do século XIX e na primeira do século XX. A Revolução Industrial teria então novos protagonistas?

1. As potências mundiais e os novos protagonistas

Invasão da Normandia, com navios de desembarque descarregando cargas em uma das praias da invasão durante a maré baixa nos primeiros dias da operação, em junho de 1944. Observam-se balões de barragem sobrevoando e o comboio de veículos blindados do Exército se formando na praia.
Esta invasão só foi possível pelos avanços da Primeira e da Segunda Revolução Industrial [Abadi e Tooze, 2024].
(Crédito da imagem: US Coast Guard).

Naqueles tempos que precederam a Segunda Revolução Industrial, o governo britânico, para proteger suas vantagens econômicas, chegou a aprovar leis que proibiam a emigração de trabalhadores qualificados e a exportação de tecnologia industrial. A situação europeia se alterou aos poucos após a Revolução Francesa (1789 a 1799) e as Guerras Napoleônicas (1803 a 1815) [Daron et al, 2011; lumenlearning, 2017; cfr_industrialization, 2022]. 

A Revolução Francesa removeu barreiras legais e econômicas, preparando o caminho para as novas oportunidades industriais da segunda metade do século XIX. Houve envolvimento com a formalização do código jurídico da mineração que remontava às primeiras décadas do século XVIII. A regulamentação dos recursos mineiros que se seguiu favoreceu a industrialização mineira [Daron et al, 2011; lumenlearning, 2017; Le Roux, 2020; cfr_industrialization, 2022]. 

Durante as Guerras Napoleônicas, como a França não possuía poderio naval suficiente contra a Grã-Bretanha, o estadista e líder militar francês Napoleão Bonaparte (1769-1821) recorreu a embargos comerciais para enfraquecer a economia britânica. Esta estratégia ficou conhecida como Bloqueio Continental. Foi beneficiada, por exemplo, a mineração de cobalto da Inglaterra, que havia decaído com as importações continentais e reviveu com o bloqueio destas importações promovido por Napoleão. Logo, veios importantes eram encontrados em minas na Cornualha, em Cúmbria, em Cheshire, e em Alderley Edge [lumenlearning, 2017; the-past_napoleonic, 2022].

No início do século XIX, a Europa continental experimentou crescimento econômico com a proliferação de ferrovias, a diminuição das tarifas de transporte, o aumento da produção do carvão e do ferro na Bélgica e a contratação de trabalhadores britânicos qualificados pela França. Favorecida pela Unificação da Alemanha, promovida pelo estadista e diplomata prussiano/alemão Otto von Bismarck (1815-1898), a industrialização daquele país decolou na segunda metade do século XIX. Passos concretos rumo à unificação foram dados principalmente por comerciantes e engenheiros. A expansão das ferrovias tornou o carvão e o ferro disponíveis para fábricas distantes de suas origens [Federico, 2010; Bensimon, 2011; Belin, 2018; internationalschoolhistory, 2020; Martí-Henneberg, 2023; fiveable_germany, 2026].

É o momento de abrir um parêntese para analisar rapidamente as contribuições e consequências das duas grandes guerras mundiais que aconteceram durante a Segunda Revolução Industrial.

A Primeira Guerra Mundial foi influenciada pela dinamite de Nobel (veja na parte II deste texto), inicialmente destinada à mineração, e também pelo desenvolvimento de materiais utilizáveis na artilharia, especialmente na Prússia/Alemanha, na Grã-Bretanha e na França. Entraram em cena as metralhadoras inventadas nos EUA e, além de navios a vapor, que consolidaram o predomínio naval da Grã-Bretanha e da Alemanha, surgiram os submarinos e os torpedos [Parkinson, 2016].

Durante a Primeira Guerra Mundial, logo surgiram nos céus aeronaves militares que, entretanto, tiveram participação marginal na época. Além dos navios a vapor nos mares, os trens em suas estradas de ferro permitiram que grandes exércitos com seus suprimentos e munições fossem deslocados a longas distâncias em dias, em vez de semanas. A nova e mais decisiva tecnologia derrubou barreiras na forma de tanques de guerra, utilizados primeiramente pela Grã-Bretanha e posteriormente pela França [Badsey, 2011; Baskaran e Dady, 2026; Parkinson, 2016].

Tropas americanas em combate na Floresta de Argonne, França, em 1918.
Os tanques de guerra utilizados pelos americanos na Primeira Guerra Mundial eram franceses, pois os tanques americanos só chegaram à Europa depois da assinatura do armistício em 11 de novembro de 1918 [Biter, 2023].
(Crédito da imagem: USNARA).

Na Segunda Guerra Mundial, tiveram importância a eletricidade assim como o motor a diesel, que tornou o submarino oceânico uma arma prática de guerra. Ao longo desta guerra, o presidente dos EUA Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) designou mais de 100 minerais e metais diferentes como essenciais. O armazenamento de recursos fazia parte da estratégia de guerra para garantir suprimentos e negar o acesso aos adversários. No início do século XX, o acesso a minerais críticos era crucial para o poder militar e industrial. As principais potências europeias garantiam as matérias-primas necessárias principalmente por meio de impérios coloniais e possessões ultramarina [Badsey, 2011; Baskaran e Dady, 2026].

Agora é o momento de fechar o parêntese aberto e voltar à paz, ou quase.

Como foi visto, na década de 1790, na Primeira Revolução Industrial, a boa memória do empresário britânico Samuel Slater "importou" os planos de uma fábrica têxtil da Grã-Bretanha para os EUA. Foi o impulso inicial para que, neste país da américa, a tendência, que havia começado no início do século XIX na indústria têxtil, acabasse se espalhando, ao longo das décadas de 1850, 1860 e 1870, para uma série de outras indústrias. Nesta série se incluíram: fabricação de botas e sapatos, relógios, instrumentos musicais, roupas, implementos agrícolas, produtos metálicos em geral, armas de fogo, carruagens e carroças, produtos de madeira, produtos de borracha e até mesmo abate de porcos [firstindustrialrevolution, 2015; encyclopedia_factory, 2026].

Na Inglaterra, a indústria do carvão, no embalo da indústria têxtil, desenvolveu uma aplicação para o principal resíduo da queima do carvão betuminoso para produzir coque, o alcatrão de hulha. Na década de 1850, o químico britânico William Perkin (1838-1907) percebeu que aquela substância funcionava como corante têxtil, produzindo um tom rosa-arroxeado claro que ele chamou de malva. A Rainha do Reino Unido Alexandrina Victoria (1819-1901), a Rainha Vitória, usou malva no casamento de uma de suas cinco filhas e o futuro dos corantes derivados do alcatrão de hulha ficou garantido [Fifer, 2022].

Nos anos 1870, nos EUA, abundantes reservas de ferro e carvão alimentaram a produção de ferro e aço na Pensilvânia e no Alabama. A ideia de peças intercambiáveis foi aplicada na construção de armas de fogo, relógios e máquinas de costura e de escrever. Esta ideia surgiu bem antes, em 1794, quando Eli Whitney a utilizou em sua invenção, o descaroçador de algodão [Lienhard, 2006; al200park, 2019; explorepahistory, 2025; Conover, 2026].

Em 1908, o industrialista e magnata de negócios norte-americano Henry Ford (1863-1947) produziu o Modelo T, um automóvel que tinha o objetivo de ser fácil de dirigir. Em 1913, Ford apresentou ao mundo a linha de montagem móvel: o que antes levava 12,5 horas para ser montado passou a levar apenas 93 minutos. Assim, no início da década de 1920, mais da metade dos automóveis registrados no mundo tinham a marca Ford. Mais de 15 milhões de Modelo T foram fabricados e vendidos [fromtheroad, 2025; guides_Ford, 2026].

Henry Ford em 1921 com o seu Modelo T em frente ao Hotel Iroquois, em Buffalo, Nova Iorque, EUA.

2. A eletricidade e a comunicação

A eletricidade teve, como primeira importante aplicação comercial, a comunicação à distância, inicialmente através de fios e cabos e posteriormente por ondas de rádio. Para iniciar a conversa, o telégrafo foi patenteado em 1837 por dois inventores britânicos, Sir William Cooke (1806-1879) e Sir Charles Wheatstone (1802-1875). Quase simultaneamente, o inventor e pintor norte-americano Samuel Morse (1791-1872) criou o código Morse, utilizado pelo telégrafo. Em 1844, Morse concluiu uma linha telegráfica comercial ligando Baltimore a Washington, nos EUA. Inicialmente destinado ao sistema ferroviário britânico, o telégrafo ligou os continentes através de cabos transoceânicos propiciando comunicação instantânea aos principais centros políticos e comerciais [Ortega, 2016; Buchanan_a, 2026; Buchanan_b, 2026].

Chave Morse usada nos telégrafos da Estação Ferroviária Gotthard, EUA, em torno de 1900
(Crédito: HP.Bumeler)

O telégrafo não existiria sem a mineração de cobre, que era usado para produzir componentes (como eletroímãs e bobinas) daqueles dispositivos de comunicação. Além disto, os fios de cobre eram necessários ​​para a transmissão dos sinais, pois o cobre permite transmitir eficientemente os impulsos elétricos por fios, o que constituiu a base do sistema telegráfico da época [electrispower, 2025].

No Brasil, em 1852, foi construída a primeira linha subterrânea de telégrafo, com 4 km, ligando o Palácio da Quinta da Boa Vista ao Quartel do Exercito de Santana no Rio de Janeiro. Em 1874, foi concluída a ligação telegráfica entre o Brasil e a Europa, tendo D. Pedro II transmitido mensagens aos reis de Portugal, Inglaterra e Áustria [Ortega, 2016].

Nos EUA, não se pode desprezar o importante papel do telégrafo na abertura do Oeste americano, fornecendo informação rápida para a manutenção da lei e da ordem [Buchanan_b, 2026].

Após o telégrafo, veio o telégrafo falante, ou seja, o telefone, patenteado em 1876 pelo cientista, inventor e fonoaudiólogo britânico Alexander Graham Bell (1847-1922), embora existam controvérsias sobre esta patente. O que importa aqui é que, em 1877, foi instalada a primeira rede telefônica subterrânea na mina de carvão Caledônia, em Nova Escócia, no Canadá. Vendo os resultados práticos desta instalação, duas outras empresas de carvão da Nova Escócia encomendaram telefones que foram instalados em 1878. Uma delas, foi a General Mining Association, que instalou cinco telefones em sua operação nas minas de Sydney, em Nova Escócia, ligando-as ao seu cais de embarque, escritórios, depósitos e ferrovia [notyourgrandfathersmining, 2025; loc_business, 2026].

Em 1901, o físico e inventor italiano Guglielmo Marconi (1874-1937) enviou os primeiros sinais de rádio através do oceano Atlântico, para espanto de alguns cientistas. Eles não acreditavam na façanha do telégrafo sem fio pois, como se sabe, nosso planeta não é plano. No entanto, as ondas longas de rádio do telégrafo sem fio de Marconi acompanharam a curvatura da Terra e conseguiram chegar ao destino [music.amazon_marconi, 2025].

No final da década de 1920, surgiu o Teletipo e, em 1932, foi introduzido o Telex, que permitia que quem tivesse um teletipo discasse para outro teletipo através da rede telefônica e transmitisse uma mensagem que chegaria ao destino impressa em papel. Em 1938, havia cerca de 380 instalações de teletipo no Reino Unido. Em postos remotos de mineração, as ligações por ondas de rádio persistiram até o início do século XXI, até os sinais de satélite ou de celular estarem disponíveis [Pinder, 2024; beckerwmsusa, 2021; Uys, 2025; britishtelephones, 2026].

Enquanto a comunicação se estabelecia, em 1882, o físico croata-esloveno Nikola Tesla (1856-1943) entrou em ação para viabilizar a distribuição da energia elétrica [confinity_tesla, 2026].


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