"O presente é a chave para o passado"
James Hutton

26 de novembro de 2018

A geologia e o vinho: legados

Por Marco Gonzalez(Atualização em 04/09/2026)

Vinhedos em uma aldeia da região vinícola de Champagne, na França.
(Crédito: Phillip Capper).

Normalmente as cartas de vinhos, em bons restaurantes, são organizadas por tipo de uva, estilo de vinho ou país de origem, mas já é possível encontrá-las classificadas pela geologia dos vinhedos. Parece compreensível, pois não há vinha sem solo, nem solo sem rocha, e é a partir daí que os vinhos constroem aromas e sabores [Maltman, 2018; usgs_solo, 2015; xaviervignon_taste, 2025; ecoterreno_soil, 2026].

1. Introdução

Seria possível detectar nos vinhos a influência da mineralogia, da geotectônica, enfim, da geologia? Há exemplos que apontam neste sentido [Pracontal, 2011]:
  • sem a mineralogia dos xistos do Siluriano roxos e verdes, com quartzo, provavelmente não existiria o solo requerido para o Chenin Blanc de Savennières, na França; e
  • sem processos geotectônicos, talvez faltasse champanhe para brindar. A região onde este espumante é cultivado poderia ainda ser uma planície monótona onde possivelmente cresceriam beterrabas francesas. Porém, as cordilheiras dos Alpes e dos Vosges, há alguns milhões de anos, inclinaram caprichosamente a borda leste daquela planície do champanhe. Com os declives ideais, os raios de sol passaram a bater com a angulação adequada, compensando a desvantagem da latitude norte elevada e... voilà, nasceu o champanhe.
Então, incentivados por estes exemplos, poderíamos deduzir uma associação direta entre geologia e vinho?

Observação: em muitas das descrições de uvas, vinhos e vinícolas, neste texto, foi mantido o "aroma" poético original. Afinal, "in vino veritas".

2. O legado dos monges

Os vinhos são classificados através de diversas siglas (ou selos) que lhes conferem reconhecimento de qualidade e podem delimitar regiões de produção. Elas protegem o que há de mais autêntico em cada região e garantem ao consumidor a qualidade do vinho por meio de selos. Em geral, há a Indicação Geográfica (IG) e uma subdivisão mais restrita desta que é a Denominação de Origem (DO), mas cada país tem siglas próprias. Eis alguns exemplos [reserva85_indicacao, 2018; reserva85_siglas, 2018; Aquino, 2026]:
  • No Brasil:
    • Indicação de Procedência (IP) – indica região reconhecida pela produção de vinho; e
    • Denominação de Origem (DO) – indica região onde o vinho apresenta características especificas oriundas daquela área de cultivo;
  • Na França:
    • AOC – Appellation d´Origine Contrôllè (Denominação de Origem Controlada) para vinhos com denominação de origem protegida;
    • VdP – Vin de Pays (Vinho da Terra), para os vinhos com indicação geográfica protegida; e
    • Vin de France – (Vinho da França) para vinhos que não tem indicação geográfica;
  • Na Itália:
    • DOCG – Denominazione di Origine Controllata e Garantita (Denominação de Origem Controlada e Garantida);
    • DOC – Denominazione di Origine Controllata (Denominação de Origem Controlada); e
    • IGT – Indicazione Geografica Tipica (Indicação Geográfica Típica);
  • Na Espanha:
    • DOCa – Denominación de Origen Calificada (Designação de Origem Qualificada);
    • DOP – Denominación de Origen Protegida (Denominação de Origem Protegida);
    • VdlT – Vino de la Tierra (Vinho da Terra);
  • Em Portugal:
    • IG – Indicação Geográfica;
    • DOC – Denominação de Origem Controlada; e
    • Vinho de Mesa (não confundir com os vinhos de mesa brasileiros);
  • Nos EUA:
    • AVA – American Viticultural Area (Área Vitícola Americana);
  • Na União Europeia:
    • IGP ou, em inglês, PGI (Protected Geographical Indication) – Indicação Geográfica Protegida; e
    • DOP ou, em inglês, PDO (Protected Designation of Origin) – Denominação de Origem Protegida, equivale ao DOP português e espanhol e ao AOC francês.

No século XVIII, a primeira região demarcada do mundo foi o Vale do Douro, cuja DOC foi criada pelo nobre, diplomata e estadista português Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), Marquês de Pombal e Conde de Oeiras, em 1756 [Aquino, 2026].

Na antiguidade, gregos e romanos já haviam desenvolvido um sistema de denominação para proteger e garantir a origem dos vinhos de prestígio. Na Idade Média, monges cistercienses unificavam o vinho a partir de uma região definida, na Borgonha, por reconhecerem a importância do terreno para o vinhedo. Dizem que eles provavam o solo na busca do terreno que desse melhor sabor ao vinho, pois acreditam que as videiras retiravam do solo a água e tudo mais que precisavam para crescer. Ou seja, para eles o vinho era feito do solo! [Maltman, 2018; next-generation, 2019].

E parecia ser uma boa ideia. Conferir sentido de localidade ao vinho lhe viabilizava (e continua a viabilizar) um marketing poderoso. Realmente, não se pode com facilidade replicar, simultaneamente, a geologia, a topografia e o clima das vinhas em outras regiões. Muitos vinhos clássicos, como o Grand Cru da Borgonha que vêm de locais com uma geologia particular, beneficiam-se desta estratégia [Maltman, 2013].

Antigo rótulo de "Grand Vin de Bourgogne" ("Ótimo Vinho de Borgonha"), indicando "appellation controlée" ("denominação de origem controlada").
(Crédito: Unknown 1930s).

Foram os monges borgonheses, ainda na Idade Média, que estabeleceram as fronteiras para muitos dos vinhedos Grand Crus que ainda existem atualmente. Seu trabalho fundamentou a denominação de origem destes vinhos e, seguramente, aqueles antigos monges ficariam orgulhosos do seu legado [Grizzo, 2022].

3. O legado da ciência

O entusiasmo devido à contribuição da geologia à enologia, entretanto, é algo bem mais novo e ainda não se sabe exatamente como tal contribuição se processa. Ao descobrir a fotossíntese, a ciência mostrou que as videiras são feitas, de alguma forma, de sol, ar e água. Elas usam a luz do sol para extrair dióxido de carbono do ar e, ao combiná-lo com a água do solo, produzem os carboidratos necessários à planta, além de oxigênio. Durante o amadurecimento das uvas, os precursores do sabor se desenvolvem e, na fermentação, são convertidos em centenas de compostos aromáticos que, finalmente, determinarão o sabor e o aroma do vinho [Maltman, 2018].

Representação esquemática da fotossíntese que, na presença de luz solar, extrai dióxido de carbono do ar e água do solo para produzir carboidratos, além de oxigênio.
(Imagem baseada em: At09kg/Wattcle/NefronusW.carterDunford).

O solo, por sua vez, influencia o modo como as raízes coletam a água para que as uvas se encorpem e amadureçam. Quase todos os 16 elementos essenciais ao cultivo da videira vêm do solo e alguns chegam ao vinho, embora em quantidades muito pequenas, provavelmente com algum poder para participar da composição dos sabores perceptíveis [Maltman, 2018].

No caso das videiras, os nutrientes minerais principais são [Maltman, 2013]:
  • Nitrogênio: pequenas variações em sua absorção afetam o crescimento vegetativo da videira e a maneira pela qual a levedura, constituída por tipos de fungos, metaboliza o mosto das uvas. A maior parte do nitrogênio vem do húmus, a porção orgânica do solo.
  • Fósforo e enxofre: a maior parte deles também vem do húmus.
  • Cálcio, magnésio e potássio: são derivados inteiramente do solo. O cálcio influencia o pH do solo e, consequentemente, a disponibilidade de outros nutrientes.
  • Ferro, manganês, zinco e cobre: também são derivados dos minerais que compõem o solo. São micronutrientes que, em excesso, podem causar toxidade.
Todos (animais e plantas) precisamos de nutrientes minerais. Em relação às videiras, os nutrientes são [Maltman, 2013]:
  • derivados: nutrientes que não chegam às videiras exatamente como são encontrados nas rochas;
  • necessários: nutrientes que precisam estar disponíveis embora em quantidades muito pequenas (partes por milhão ou menos);
  • suficientes: nutrientes que atendem os requisitos extraordinariamente modestos das videiras e que são encontrados em reservas suficientes na maioria dos solos;
  • corrigíveis: nutrientes que os vinicultores podem e devem corrigir conforme quaisquer inadequações detectadas; e
  • regulados: nutrientes dissolvidos pela água do solo e absorvidos de forma regulada pelas raízes das videira.

Videiras da Vinícola Miolo, no Vale dos Vinhedos, no Brasil.
Elas absorvem nutrientes do solo basáltico, em Bento Gonçalves, no Brasil [Wenzel, 2026].
(Crédito da imagem: letárgico).

As raízes das videiras absorvem os nutrientes minerais na forma solúvel, sendo necessárias várias transformações, por exemplo, para obter magnésio solúvel a partir de piroxênio. Como a maioria dos minerais é complexa, também são complexos os processos de absorção, envolvendo água, ar e impurezas [Maltman, 2013].

O distrito de Lodi, na Califórnia, é um caso onde as videiras adquirem potássio dos granitos da região. A desintegração física da rocha expõe os constituintes através do intemperismo e o granito, ao se intemperizar, converte-se em grãos soltos e minúsculos, ficando mais facilmente sujeito a novas reações. Ao final, ≈2% do potássio original é liberado às videiras em forma dissolvida [Maltman, 2013].

A complexidade da produção de uvas e vinhos se deve ainda a fatores climáticos, incluindo as variações de temperatura e de chuva [next-generation, 2019].

Vinícola Concha y Toro tendo os Andes ao fundo, na região de Puente Alto, no Chile.
Esta região apresenta temperaturas geralmente entre 2 e 29ºC e considerável variação de chuvas [kupi_weather, 2026].
(Crédito da imagem: Fsanchezs).

4. O legado da geologia

As relações entre os minerais e o conteúdo inorgânico do vinho acabado são complexas e indiretas tornando difícil a análise das possíveis "impressões digitais", em nível químico, a respeito da proveniência do vinho. Além da mineralogia e de outros fatores, há ainda mais a considerar, como a microbiologia e a própria atividade humana no tratamento das vinhas, que são rotineiramente podadas, fertilizadas e irrigadas. Com tantas influências em jogo, estudos aprofundados para avaliar a real contribuição da geologia ao vinho continuam sendo necessários [Maltman, 2013; Maltman, 2018].

De qualquer forma, em climas quentes, propensos a secas nos verões, o solo ganha importância para a qualidade do vinho, embora ainda predomine, nestes casos, o cultivo propriamente dito das videiras. Por outro lado, nos climas mais frios, uma combinação de fatores geomorfológicos e geológicos podem ter influência fundamental. Mesmo assim, apenas raramente a rocha-mãe tem sido reconhecida como relevante influência direta constatada na qualidade do vinho [Huggett, 2006].

Vinhedos na região vinícola portuguesa do Douro.
Localiza-se em solo de xisto que retém o calor durante o dia e libera gradualmente à noite, evitando grandes variações de temperatura [ivdp_douro, 2020; premiumport_douro, 2024].
(Crédito da imagem: olhodemat).

Alguns pontos, quanto à contribuição do leito rochoso, podem ser destacados [Huggett, 2006]:
  • Em períodos de seca, a alta porosidade e a baixa permeabilidade (tanto no solo como na rocha subjacente) trazem vantagens. Além do calcário, que proporciona porosidade e permeabilidade ideais para a viticultura de forma consistente, também trazem benefícios os xistos e os granitos profundamente intemperizados e fraturados. Exemplos:
    • No Douro, em Portugal, as regiões com xisto, que é mais fraturado, são preferidas em relação às de granito, embora ambas sejam ricas em potássio.
    • A qualidade dos melhores vinhos de Coonawarra, do sul da Austrália, tem sido amplamente atribuída à existência de uma estreita faixa de solo de laterita chamado Terra Rossa. Este solo cobre a Formação Padthaway do Pleistoceno Superior. O calcário Padthaway sob o Terra Rossa é altamente poroso, com permeabilidade variável, permitindo condições ideias de drenagem e de manutenção de umidade para as videiras mesmo durante meses sem chuva.
    • O calcário domina em Clos de la Roche, na Borgonha, onde o solo tem apenas 30 cm de profundidade, com poucos cascalhos, mas com grandes blocos de rocha. Este solo é sobrejacente a um leito rochoso duro e fraturado constituído por calcário do Bathoniano (Jurássico médio) com intercalações de marga que proporcionam retenção hídrica essencial. Seu vinho é considerado amplo e rico, com tons terrosos [Grizzo, 2022; grapeminds_clos, 2024; winewithseth_clos, 2026].
    • Não são adequadas as condições onde o leito de rocha é inclinado e impermeável, como no caso dos xistos não fraturados. Nestes casos, a drenagem através da rocha é muito lenta e a maior parte da água, por escoamento superficial, leva consigo o solo.
  • A abundância de K+ (cátion potássico) nos solos, que está presente principalmente em feldspatos potássicos e micas, é vantajosa para as videiras, sendo essencial para o desenvolvimento das uvas. O potássio influencia o crescimento da videira, a composição das bagas, bem como a qualidade do mosto e do vinho. A deficiência de potássio reduz a transpiração da videira [Villette et al, 2020; Sperling et al, 2024]
  • A mineralogia tanbém dá sua contribuição, por exemplo, no caráter particular e na robustez dos vinhos de Moulin-a-Vent, em Beaujolais, na França, que podem ser atribuídos à presença de granito rico em manganês, óxido de ferro e sílica. Esta rocha reflete a luz solar e retém o calor, contribuindo para um amadurecimento mais uniforme das uvas [dutchwineapprentice_moulin, 2025].

Vinhedos na região vinícola sul-africana de Stellenbosch.
Nesta região do Cabo, os vinhedos têm a proximidade de montanhas do granito (ao fundo na imagem) da Suíte Cape Granite. Os solos da região são derivados deste granito e também de arenito do Grupo Table Mountain [stellenboschcabernet, 2023].
(Crédito da imagem: Deon Maritz).

Em geral, vinhos de solos rochosos tendem a ser mais frescos, mais claros e mais finos do que os vinhos de solos argilosos. Estes podem produzir vinhos com textura mais rica e com menos acidez. Dentre os diversos tipos de rochas estudados, merecem nota os seguintes [Maltman, 2013; Behr, 2024]:
  • Anfibolito: presente em importantes partes da região vinícola de Muscadet, na França.
  • Ardósia: por ser escura, tem uma excelente capacidade para armazenar calor, sendo ideal em climas mais frios. Seu solo é rico em minerais e ocorre em muitos lugares na Europa, porém tem reconhecimento mundial pelos vinhos na França e pelo Riesling, de Mosel, na Alemanha.
  • Basalto: dá origem a solo fértil estando associado a numerosos vinhedos ao redor do mundo, como de Somlo Hill, na Hungria, de Madeira, na ilha da Madeira, e de Islas Canarias, nas Ilhas Canárias. Em geral, o solo de basalto produz vinhos com uma acidez bastante apreciada.
    • O basalto, ao se decompor, transforma-se em partículas finas de silte e argila pulverulentos e, como resultado, seus solos podem ter ótima retenção de umidade, além de maior fertilidade. Isto pode resultar em maior vigor e produtividade aos vinhedos [sommselect, 2022].
  • Calcário: seu solo armazena bem a água sem permitir que se acumule, garante baixas temperaturas que retardam a maturação das uvas e proporcionam uma boa acidez.
    • Comparado com outros tipos de rochas, o calcário produz solo geralmente com menor teor de ferro. Por isto, é mais propício ao cultivo de uvas brancas, que requerem menos ferro do que as uvas tintas [Huggett, 2006].
    • No norte da Europa, os mares eram excepcionalmente ricos em algas microscópicas com esqueletos de calcita cujos restos se acumularam em calcário e beneficiaram alguns vinhedos em Champagne, na França, e outros no sudeste da Inglaterra [winewithseth_chalk, 2026].
    • Em solo argilo-calcário, a vinícola francesa Château Beauséjour está localizada em platô calcário, na região vinícola de Bordeaux [vin-vigne_beausejour, 2015; chateau-beausejour, 2023; vins-saint-emilion, 2023].

Pinot Noir de Côte d'Or, em solo de calcário, na França.
(Crédito: PRA).
  • Granito: seu solo armazena bem o calor e garante a redução da acidez natural das uvas, sendo ideal para as mais ácidas. É um importante tipo de solo francês na Alsácia, em Beaujolais, em grande parte do norte do Rhône e em Cornas. Está presente também em vinhas em áreas ao redor de Stellenbosch, na África do Sul.
  • Marga: seu solo faz com que as videiras geralmente amadurecem mais tarde. É importante na região italiana do Piemonte.

Vinhedos de Langhe, em Piemonte, Itália.
É uma região com solo principalmente originado de marga [vinigiribaldi_langhe, 2028].
(Crédito da imagem: Phalaenopsis).
  • Pórfiro: produz vinho de baixa acidez. Pode ser encontrado, por exemplo, em Tirol do Sul, na Áustria, e em Nahe, na Alemanha.
  • Quartzito: o pH elevado do seu solo pode reduzir a acidez dos vinhos e sua propriedade de retenção de calor acelera o amadurecimento das uvas, proporcionando um maior teor de álcool. É encontrado em locais como Chateauneuf-du Pape.
  • Xisto: rocha estratificada que geralmente absorve o calor durante o dia e o libera à noite. Possui boa drenagem e é resistente às intempéries e à erosão. Muitas vezes produz vinhos marcantes e de boa intensidade, como tintos e brancos concentrados, marcados por aromas florais e uma forte mineralidade. Em solos íngremes, o xisto é excelente para reter tanto calor quanto água, como no Priorat. O xisto fraturado e laminado permite que as raízes da videira penetrem nas fendas em profundidade. Além de Priorat, o xisto está associado a regiões vinícolas como Languedoc e Vale do Loire, na França, e Vale do Douro, em Portugal [wineenthusiast, 2022; xaviervignon, 2023].

A combinação certa de casta, solo e clima pode produzir um vinho com uma personalidade forte e única. Porém, em geral, diferentes castas de uva prosperam em diferentes tipos de solo e grandes vinhos são produzidos em uma ampla diversidade de solos e, em decorrência, de rochas [Leeuwen et al, 2018; climadiff_soil_grape, 2024]. Destacam-se os seguintes exemplos de uvas:
  • Beaujolais: encontrada, na França, em regiões com rochas sedimentares, metamórficas e graníticas [monocepage_beaujolais, 2020; geopark-beaujolais, 2021; beaujolais_pierres_dorees, 2025].
  • Gamay: na França, associa-se intimamente ao granito de Beaujolais, mas é apreciada também nos solos vulcânicos de Châteaugay em Côtes d'Auvergne [beaujolais_gamay, 2020; châteaugay, 2026]
  • Muscadet: encontrada, na França, em regiões com diversos tipos de rochas metamórficas e plutônicas [labivin_muscadet, 2011muscadet_geologie, 2024].
  • Pinot Noir: obviamente tem sucesso nos solos finos de calcários de Côte d'Or, na França, mas prospera também no espesso aluvião do Vale do Bio Bio, no Chile, nos xistos de Otago, na Nova Zelândia, e ainda nos solos basálticos e sedimentares do Vale do Willamette, no Oregon, EUA [willamettewines_pinot_noir, 2020newzealandwineauthority_otago, 2026rimontgowineries_bio-bio, 2026winewithseth_cote-dor, 2026].
  • Riesling: está associada a muitos dos solos escorregadios do Vale do Reno e do Mosel, na Alemanha. Há quem diga que os vinhos Riesling estão associados a ardósia, porém, na Alsácia, há Rieslings de classe mundial produzidos em arenitos, calcários, conglomerados, granitos, rochas vulcânicas e ainda outras.

A comunidade de Graach e as vinhas de Riesling no vale do Mosel, na Alemanha.
São vinhedos plantados em solos de ardósia [loosenbrosusa, 2026].
(Crédito da imagem: laping).

5. O legado do terroir

A palavra francesa terroir não tem equivalente em nenhum outro idioma. É um dos termos mais usados no mundo dos vinhos e provavelmente um dos menos compreendidos principalmente pelos leigos. Deriva do latim popular "terratorium", uma alteração do latim clássico "territorium" ("território"
 em português), que por sua vez deriva do latim clássico "terra" ("terra" também em português). Já o radical francês "terr" (que tem origem no latim "terra") está presente tanto em "terre" ("terra" ou "solo" em francês) quando em "terrain" ("terreno" também em francês), o que faz sentido na expressão "le gout de terroir", que pode ser traduzida livremente como "o gosto do lugar" [Doppenberg, 2017; wine_terroir, 2021; dictionnaire_terroir, 2024].

Em 1999, o geólogo inglês Jake Michael Hancock (1928-2004) definiu terroir como
[Huggett, 2006]:

"uma área privilegiada com sua própria geologia e seus próprios clima e métodos de viticultura".

Terroir sempre foi um termo polêmico. Em 2003, o cientista de solo australiano Robert Edwin White (nascido em 1937) afirmou
[Huggett, 2006]:

"Muitos cientistas admitem que não podem expressar quantitativamente a relação entre o terroir e as características dos vinhos produzidos a partir desse terroir".

O termo terroir carrega implicitamente a tendência de associar os sabores do vinho a aspectos do solo ou do leito rochoso, mas nem tudo é místico. Há casos em que a associação pode ser deduzida. A uva Cabernet Sauvignon, cultivada nas Areias do Golfo de Lion, na França, produz um vinho que é descrito como tendo sabores de algas marinhas que encontram justificativa na alta concentração de cloreto de sódio das planícies de areia onde se localiza o vinhedo. Há outras associações, entretanto, que carecem de comprovação, como um suposto 
caráter "pedregoso" do Riesling que seria derivado de solos com sílex, xisto e ardósia [Huggett, 2006].

As substâncias precisam estar dissolvidas em água para que uma planta as absorva. Ou seja, o que chega às raízes das videiras não é, por exemplo, a ardósia ou a mica, mas os íons elementares, como os de potássio ou cálcio, reduzidos delas. Tais substâncias, utilizadas como nutrientes pelas plantas, não carregam as características das rochas ou dos minerais que, além do mais, são geralmente insípidos e inodoros. Provavelmente, quem identifica "mineralidade" no sabor ou na textura de um vinho, revelando características descritivas de minerais ou rochas, está falando em sentido poético [Adams, 2019].

O conceito de terroir, entretanto, ganhou em 2014 uma contribuição significativa em nível científico para ampliar o reconhecimento de sua efetividade. Na Califórnia, pesquisadores conseguiram provar que uvas de uma mesma região, ou de uma mesma variedade, costumam estar associadas aos mesmos micro-organismos, como bactérias e fungos. Eles demonstraram que a biogeografia microbiana tem uma associação não aleatória com a uva, em zonas vitícolas, quanto a fatores regionais, varietais e climáticos [Bokulich et al, 2013; tintosetantos_terroir, 2021].

Vinho "la nit de les garnatxes" ("a noite das grenaches", traduzido do catalão).
Este vinho da Vinícola Celler de Capçanes, de Barcelona, Espanha, tem em seu rótulo (em catalão) a marcação de sua procedência de solo sobre rochas cujas opções são: (i) argila, (ii) alcaçuz ("LLicorella"), (iii) calcário ("calissa", que é o caso do vinho da foto) e (iv) arenito, que é identificado pela textura favo de mel ("Panal") [vivino_capcanes, 2026].
(Crédito da imagem: Magnus Reuterdahl).

Embalado pelo sabor das polêmicas, o conceito de terroir cola-se charmosamente aos rótulos dos vinhos e às propagandas das vinícolas
[Maltman, 2013]. Exemplos:
  • rótulos com a indicação de proveniência:
    • de "Terre Calcaire" ("solo calcário") no vinho Octoglaive, da Domaine Cornulus [moevenpick_octoglaive, 2022]; ou
    • explicitamente no nome:
      • no vinho Bouchon Granito Sémillon do Valle del Maule, do Chile [worldwine_granito, 2022] ou
      • no vinho Lagrein Riserva Porphyr da vinícola Terlan, da Itália [vivino_porphyr, 2026].
  • propagandas de vinícolas ou de vinhos em que é apresentada a possibilidade de se sentir "le gout de terroir":
    • pelo "sabor da lava, dos lapili e das cinzas que sepultaram Herculano e Pompeia", como na vinícola Terredora Di Paolo, da Itália, em vinho da denominação de origem Lacryma Cristi del Vesúvio [terredora_lacryma, 2021];
    • com "um mosaico de solos – anfibolito, ortognaisse, arenito e quartzo – que dão aos vinhos da propriedade seu caráter distintivo" na vinícola Jo Landron, na França [leditvin_landron, 2026].
    • pelo "cheiro de pedra triturada" nos vinhos do Priorat que crescem sobre a ardósia (com camadas de xisto preto e avermelhado e partículas de mica incrustadas) da região de Tarragona, na Espanha [kavasoft_priorat, 2026]; e
    • nos vinhos de Brouilly, na França, que "extraem seu aroma de um solo particularmente rico, composto de granito rosa, marga e calcário azul" [beaujolais_brouilly, 2026].

Não é por acaso que a famosa frase do escritor britânico Robert Louis Stevenson (1850-1894), "The wine is bottled poetry" ("O vinho é poesia engarrafada"), adorna a entrada de Napa Valley, na Califórnia, EUA [Carl, 2016].

Entrada de Napa Valley (destacando a frase ...and the wine is bottled poetry...) no condado de Napa, uma região vinícola da Califórnia, EUA.
(Crédito: Aaron Logan).

Falar em terroir significa juntar, somar e engarrafar um conjunto de fatores como topografia, geologia, pedologia, drenagem, clima, microclima, castas, intervenção humana, cultura, história e tradição. Le gout de terroir só pode ser entendido quando solo, clima e videira são considerados simultaneamente [wine_terroir, 2021].



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A participação da geologia na história e no sabor da cerveja



2 comentários:

Unknown disse...

Posso dar um bom exemplo de terroir. A Galileia e alta Galileia, outrora região de plantio de árvores frutíferas, é uma regiao de vários vinhedos e seu solo ajuda a produzir, por exemplo, um cabernet sauvigon com taninos mais adocicados do que se costuma sentir num cabernet sauvigon.

Anônimo disse...

Ótimo artigo! Sempre pensei nessas relações da geologia com os vinhos mas não havia lido nada ainda a respeito.

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