19 de novembro de 2018

Geomitologia: Pelé e o vulcanismo do Havaí

Por Marco Gonzalez


A formação das ilhas havaianas através da fúria do fogo de Pelé em luta contra o poder da água de Namakaokahai, demonstrada em erupção do Kilauea em 2017 (por Jay Huang)

A lenda

Diz a lenda que Pelé, a deusa do fogo e dos vulcões, nasceu em Honua-Mea, no Taiti. Tinha cinco irmãs e sete irmãos, filhos de Haumea, a deusa da Terra, e Kane Milohai, o criador da Terra e dos céus. Em sua versão mais conhecida, a lenda (que aqui terá sua complexidade bastante resumida) explica que, por causa do seu temperamento esquentado e também por ter seduzido o marido de Namakaokahai, sua irmã e deusa da água, Pelé foi expulsa de sua terra natal por seu pai.

A rota de fuga

Por ter sido expulsa e para escapar da ira de Namakaokahai, Pelé fugiu para o Havaí e levou com ela uma espécie de ovo contendo sua irmã Hiiaka, ainda não nascida. Como a deusa do fogo tem no fogo sua essência, ela precisa estar sempre em presença dele para viver. Assim, para construir sua casa no Havaí, ela cavou o chão com seu bastão (conhecido como o'o ou pãoa) em busca de sua essência. Acontece que sua irmã a perseguiu e cada escavação de Pelé era inundada pela vingativa Namakaokahai, apagando o fogo que era encontrado.

Pelé, no Havaí, iniciou sua fuga pela ilha Niihau, sempre cavando a procura de fogo, que sempre era apagado pela irmã. As duas lutaram assim ao longo de toda cadeia de ilhas havaianas, principalmente Niihau, Kauai, Oahu, Molokai, Maui e, finalmente, Big Island, ou simplesmente Havaí, a ilha do vulcão Kilauea.

A casa de Pelé

Na ilha do Kilauea, Pelé conseguiu cavar suficientemente fundo para escapar da ira da irmã. Alguns dizem que Pelé permanece ali até hoje, outros acreditam que ela esteja morta e o local seja habitado por seu espírito. De uma forma ou de outra, sua casa é a cratera Halemaumau, na cúpula do vulcão Kilauea.


A cratera Halemaumau do Kīlauea, a casa de Pelé (por Brocken Inaglory)

Uma das histórias contadas pelos nativos descreve como o semideus Kamapuaa se transformou em samambaias e cercou a casa de Pelé para ficar perto dela. 

Acredita-se que as erupções vulcânicas no Havaí expressam o desejo de Pelé estar com seu amado, ou um dos seus amados, conforme a história que está sendo contada. A deusa do fogo, conhecida por seu temperamento explosivo, representa tanto o poder de criação quanto de destruição. No decorrer da contínua luta com a irmã, espalhando o caos e a devastação, Pelé forjou as magníficas crateras vulcânicas do arquipélago, dando forma à cadeia de ilhas do Havaí

Pelé na cultura havaiana

Os havaianos acreditam em milhares de deuses, porém Pelé está no topo da adoração por razões óbvias: ela criou o Havaí. A deusa é reverenciada através de diversos nomes, como Pelehonuamea ("aquela que molda a terra sagrada"), Tutu Pelé (similar a "avó Pelé" - o que implicitamente demonstra a crença de que eles, os nativos, são descendentes da deusa) e ka wahine ai honua ("a mulher que devora a terra"). reverência à deusa Pelé persiste mesmo entre aqueles nativos que veem suas casas destruídas, com impressionante demonstração de resiliência e adaptação à cultura havaiana.

No Centro de Visitantes do Parque Nacional de Vulcões do Havaí (Hawaii Volcanoes National Park) há um quadro de Pelé em exposição, pintado por Arthur Johnsen. Ele venceu a competição estabelecida em 2003 para que fosse criada uma representação mais fiel da beleza nativa da deusa Pelé. Antes deste quadro, havia outro que não era bem visto pelos havaianos pois mostrava a imagem de uma mulher caucasiana com cabelos loiros. Era o quadro pintado por David Howard Hitchcock que foi, em 2003, substituído pelo atual. No novo quadro, Pelé tem o bastão pãoa para escavar o chão, na mão esquerda, e uma forma embrionária de Hiiaka, sua irmã mais nova, na mão direita.

quadro de David Howard Hitchcock, de 1929, à esquerda, e o quadro de Arthur Johnsen, de 2003, à direita, que substituiu o anterior.

Pelé continua a devorar Big Island com lava derretida e, para compensar a destruição, vai criando novas terras. A deusa do fogo é tão natural para os havaianos quanto o vento que sopra, o oceano que banha as ilhas e, claro, a lava expelida pelos vulcões. Quando Pelé avança, os nativos apenas se afastam porque ela tem o direito e a preferência de passagem. Todos que tentaram impedir os avanços da lava falharam porque, segundo os havaianos, kinolau, a lava, é a personificação física da deusa. 

Pelé, Hiiaka e Lohiau

São conhecidas diversas histórias protagonizadas pela deusa do fogo com seus amantes. Em uma dessas histórias, ela enviou sua irmã mais nova, Hiiaka, para procurar seu amante Lohiau. Como recompensa, Pelé não destruiria com fogo e lava a floresta de Hiiaka nas encostas do Kilauea. 

Como Hiiaka demorou a encontrar Lohiau, Pelé perdeu a paciência e queimou a floresta que havia prometido poupar. Quando Hiiaka finalmente chegou com Lohiau e viu o que a irmã havia feito, tomou o amante para si. Afinal, Hiiaka tinha a quem sair. Pelé ficou com tanta raiva que matou Lohiau com uma furiosa erupção.

O cabelo e as lágrimas de Pelé

Em outra das desventuras de Pelé, sua fúria aqueceu o solo, produziu terremotos e fez a costa sofrer com ondas que quebraram com violência na praia. O cabelo da deusa flutuou como massas emaranhadas e seus braços luziram como se estivessem envoltos em fogo. Seus olhos brilharam como raios e sua respiração se derramou em volumes de fumaça tóxica. Quando persegue suas vítimas, em fúria, Pelé grita e arranca seus cabelos em cachos. A deusa do fogo é fogo.

Os cabelos de Pelé são encontrados na região do vulcão Kilauea comprovando a presença da deusa no Havaí. Junto a eles é possível encontrar lágrimas que testemunhariam seus dramas com afetos e desafetos. Entretanto, as histórias contadas sobre ela, dando ênfase ao temperamento explosivo, não reservam espaço para as lágrimas da deusa. Talvez Pelé chore nos momentos de fúria.

Os pertences de Pelé

Não é demais lembrar que a deusa do fogo tem personalidade vingativa. Há uma regra que todo havaiano aprende: nunca pegue um pedaço de rocha, de lava ou um punhado de areia preta do Kilauea. Quem decidir ter este direito, quebrando esta regra, será amaldiçoado por Pelé até que devolva o que é dela. Maldições e má sorte atingem os que se apoderam dos pertences sagrados da deusa, removendo-os da casa de Pelé. Da mesma forma é considerado um ato ofensivo comer as bagas de ohelo sem antes oferecê-las à deusa ou, pelo menos, solicitar sua permissão.


O ohelo cresce no Parque Nacional de Vulcões do Havaí, na ilha do Kilauea (por Scot Nelson)

O contexto geológico

A rota de fuga

rota seguida por Pelé, durante a luta que travou com sua irmã, não poderia ser diferente. Ela coincide com a progressão da atividade vulcânica que construiu a cordilheira do Havaí, no tempo geológico, desde Niihau até a ilha do Kilauea.

Vista das ilhas havaianas, em perspectiva tridimensional computadorizada, desde Niihau, última porção verde, pequena e estreita, bem à esquerda, até a ilha do Kilauea, em primeiro plano. Profundidades oceânicas estão coloridas em violeta, índigo e cinza claro. Porções acima da água são verdes ou coloridas em vermelho (fluxos de lavas), marrom e amarelo (por USGS)

A cadeia de ilhas do Havaí foi formada pela movimentação da placa tectônica do Pacífico sobre um hotspot. Este movimento deixou um rastro que inclui tanto a Cadeia do Imperador quanto a Cadeia Havaiana. O trecho final da Cadeia Havaiana ficou sob a responsabilidade de Pelé, desde Niihau até a ilha do Kilauea.

Há uma imprecisão quanto ao estabelecimento da ordem de formação das duas primeiras ilhas, imprecisão esta que se reflete também nas lendas. Algumas narrativas contam que a primeira ilha visitada por Pelé foi Niihau e outras apontam Kauai como primeiro destino da deusa.


Esquema (fora de escala) da formação da cadeia de ilhas havaianas (fonte - adaptada)
Ma = milhões de anos

A casa de Pelé

A cultura havaiana tradicional explica o vulcão Kilauea, que tem demonstrado seu poder através de sua cratera Halemaumau, como a expressão da fúria de Pelé. E a crença dos havaianos de que Pelé continua presente é atestada pelas erupções submarinas observadas a sudeste da ilha do Kilauea. Esta presença também foi confirmada recentemente, em 2018, quando a cratera Halemaumau do Kīlauea foi dramaticamente remodelada pela força vulcânica.

A Cratera Halemaumau na posição identificada "Kilauea", o Parque Nacional de Vulcões do Havaí e o Centro de Visitantes (por Google Maps)

Pelé, Hiiaka e Lohiau

A ciência e as diversas histórias sobre a deusa do fogo entram em acordo em diversos pontos. Por exemplo, a desavença de Pelé com sua irmã Hiiaka e o amante Lohiau coincide com a história de um grande fluxo de lava que cobriu a encosta norte do Kilauea, aproximadamente em 1470, e queimou a vegetação ao redor da cratera. Algum tempo depois houve uma erupção explosiva com coluna de cinzas e explosões de vapor que coincide também com a fúria de Pelé causando a morte de Lohiau ao se vingar da irmã que lhe tomou o amante.

O cabelo e as lágrimas de Pelé

Os objetos vulcânicos também encontram lugar na narrativa das lendas havaianas. É o caso do iconológico cabelo de Pelé. Ele consiste em finas fibras de vidro formadas quando bolhas de gás explodem na superfície da lava e a "pele" dessas bolhas é esticada. O vento forma longos fios que podem chegar até meio metro de comprimento ou mais, com espessura de cerca de um ou dois milésimos de milímetro, raramente mais. Quanto maior a velocidade do vento, mais longo, fino e leve será o cabelo de Pelé, sendo disperso cada vez mais longe.


Emaranhado do cabelo de Pelé com algumas lágrimas - campo de visão com largura de cerca de 3 cm (por James St. John)

Parecido com palha, à sombra, o cabelo de Pelé brilha como ouro, à luz do sol. Por serem cortantes, são perigosos se coletados. Também causam problemas ao se misturarem com a água da chuva quando esta é utilizada para consumo humano. Se inalado, quando em filamentos muito pequenos, pode causar tosse e hemorragia nasal.


Cabelo de Pelé enredado em antena (por Wikimedia)

O cabelo, como produto vulcânico, não é exclusividade de Pelé. Ele é encontrado em vulcões como Masaya, na Nicarágua, Etna, na Itália, e Erta 'Ale, na Etiópia. Na Islândia é conhecido com o nome de nornahár ("cabelo de bruxa").

Esses filamentos de vidro, os fios de cabelo, formam-se como caudas de pequenos corpos em forma de gota, as lágrimas, que geralmente se separam dos filamentos. As chamadas lágrimas de Pelé são pequenas gotículas de vidro vulcânico frequentemente encontradas emaranhadas aos fios de cabelo. 


Quatro lágrimas de Pelé, respetivamente, com 9 mm, 10,5 mm, 9,5 mm e 18 mm na maior dimensão (por James St. John)

Essas lágrimas são lapili que contém basicamente sílica geralmente encapsulando gás vulcânico. Elas podem dizer muito aos vulcanologistas sobre os eventos vulcânicos, incluindo informações sobre a composição da câmara magmática e sobre a velocidade da erupção.

Os pertences de Pelé

Muitas pessoas, incluindo alguns kamaaina (moradores locais do Havaí), acreditam que a história de Pelé é apenas uma lenda. Porém, por via das dúvidas, milhares de pedaços de rocha retirados dos vulcões do Havaí são enviados de volta para a ilha, remetidos de todo o mundo para tentar cancelar a maldição de má sorte e infortúnios sofridos pelos remetentes arrependidos. Há quem diga, entretanto, que não há nenhuma tradição havaiana voltada à preocupação de Pelé com a coleta de material. Esta maldição seria, na verdade, uma história inventada por um guarda florestal do Parque Nacional de Vulcões do Havaí para reforçar uma lei federal que proíbe a retirada de qualquer coisa de lá. 

De qualquer forma, para a grande maioria dos havaianos, o Havaí é o lugar de Pelé e quem ali vive deve estar em harmonia com os elementos, pois os seres humanos não são as coisas mais importantes da Terra. Os elementos são.


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