"O presente é a chave para o passado"
James Hutton

12 de dezembro de 2018

A participação da geologia na história e no sabor da cerveja

Por Marco Gonzalez(Atualização em 16/09/2026)

Quadro em papelão "Paysans fribourgeois au bistrot" ("Camponeses de Friburgo no Bistrô"), de 1923, do pintor suíço François Louis Jaques (1877-1937).
(Crédito: Beurret & Bailly).

Há uma história longa e rica, repleta de descobertas científicas e de conexões culturais entre a cerveja e a geologia. O compartilhamento entre ambas pode ter sido fortalecido por um elemento essencial, a água, que nos leva a associar a cerveja com a hidrogeoquímica, uma associação tal que pode ter superado até mesmo aquela encontrada entre a geologia e o vinho [web.archive_geotimes, 2025].

1. Introdução

Assim como não falta cerveja em bares e restaurantes de todo o mundo, dizem que não faltou cerveja também nas provisões da Arca de Noé. É compreensível, pois o prestígio da cerveja, na antiguidade, era medido pelo seu valor nutricional e também por ser uma alternativa segura à água dificilmente potável. A cerveja era tão valorizada que, às vezes, era usada para pagar os trabalhadores sendo recebida como parte dos salários diários [archive_raley_timetable, 1998; Pringle, 2010; Kuropatnicki, 2024].

O vínculo com a geologia teria deixado marcas na história da cerveja desde o Crescente Fértil, região conhecida como Berço da Civilização? Seria possível encontrar raízes desta ligação tão profundas quanto, por exemplo, na hidrogeoquímica? E, desde então, teria a geologia continuado a influenciar a doçura do malte e o amargor do lúpulo?

2. A geologia do Crescente Fértil

O Crescente Fértil é uma área semicircular de solo fértil que se estende desde o Egito, incluindo o rio Nilo, até a Mesopotâmia onde correm os rios Eufrates e Tigre. É limitado à noroeste pelo Mar Mediterrâneo, ao norte pela cordilheira de Tauro, ao sul pelos desertos da Síria e da Arábia, na Mesopotâmia, e da Núbia, na África, e à nordeste pela cordilheira de Zagros [futurelearn_19021, 2022; Gill, 2024].

Tanto a cordilheira de Tauro quanto a de Zagros pertencem ao cinturão Alpino-Himalaia, resultante da orogenia Alpina [geolsoc_zagros, 2021; Oğuz, 2025].

A região do Crescente Fértil.
Os números com setas indicam vetores de movimento (em mm/ano) da placa Arábica.
(Imagem adaptada de Nafsadh; futurelearn; Alataristarion).

A Península Arábica faz parte de um antigo craton ao qual está associada a placa tectônica Arábica. Esta, há 30 milhões de anos, iniciou sua colisão com as placas Eurasiática e da Anatólia, formando a cordilheira de Zargos, enquanto a cordilheira de Tauro resultou da convergência entre as placas Arábica e da Anatólia. Nestes tempos, a bacia do Mar Mediterrâneo já existia a noroeste da Placa Arábica [Brown et al, 1989; Alavi, 2004; Duman et al, 2016; volcanocafe_tectonics, 2028; volcanocafe_fertile, 2028; Shukla, 2026].

A bacia da Mesopotâmia foi construída também pela movimentação da Placa Arábica. Durante a orogenia de Zagros e de Tauro se estabeleceu definitivamente a bacia foreland ali formada [Ali et al, 2010; Kendall et al, 2010; futurelearn_19021, 2022].

Antes, no lado africano do Crescente Fértil, a bacia do Nilo havia sido moldada pelas ações da orogenia Pan-africana [Fielding et al, 2018].

3. Os rios e a fertilidade

A geologia parece, então, ter viabilizado os assentamentos populacionais no Crescente Fértil, propiciando materiais para construção, além de portos fluviais e redes de canais. Rios, como o Tigre e o Eufrates, favoreciam a fertilidade do solo, a navegação e o abastecimento de água. A região, mais úmida do que agora, com ricas áreas inundáveis ao redor dos rios, propiciava grandes colheitas de trigo e cevada [Howard, 2017; Eig, 2018; ebsco_fertile, 2022; Sabir, 2024].

O rio Nilo e o deserto.

No oeste do Crescente Fértil, o rio Nilo, no Egito, fazia o mesmo fluindo das terras altas da África Oriental até o Mar Mediterrâneo. Uma estreita faixa de terra negra e fértil, em contraste com o deserto ao redor, resultava dos transbordamentos anuais do Nilo, causados pela chuva e pela neve derretida das montanhas do leste da África [Castellano, 2025; Manning, 2025].

4. O berço da cerveja

Por volta de 10000 aC, teve início a Revolução Neolítica (ou Revolução Agrícola), onde nômades caçadores-coletores, no Crescente Fértil, passaram a criar assentamentos agrícolas primitivos, motivados pela tendência de aquecimento global que aconteceu entre 13000 aC e 8000 aC, após o Último Máximo Glacial [Clark et al, 2009; Williams, 2017; Merino, 2021; Blakemore, 2025].

A área dos atuais territórios do Iraque, Irã, Síria, Curdistão, Turquia, Líbano e Israel, no Oriente Médio, é considerada o sítio de agricultura mais antigo conhecido. Entre 8500 aC e 8000 aC, passaram a ser cultivados trigo e cevada, além de aveia e certas gramíneas, que forneciam mais alimento para mais pessoas. Também houve crescimento da quantidade de espécies domésticas de cabras e ovelhas após a moderação do clima. O trigo e a cevada desempenharam papéis cruciais na transformação de tribos de caçadores-coletores nômades em comunidades sedentárias que viviam em aldeias [ebsco_neolithic, 2021; ub_neolithic, 2023; Blakemore, 2025; Beyer, 2026].

Os grãos crús, não comestíveis, eram embebidos em água e incrementados com diversos ingredientes. Um dia, uma destas misturas açucaradas entrou em processo de fermentação espontânea. E, ao ser coada, nasceu a cerveja nutritiva e cheia de calorias, com um efeito colateral: a alteração do humor [Costa, 2012; Oliver, 2012].

Considerando que a agricultura tenha sido o ponto de partida da nossa civilização, ela teria começado pelo pão ou pela cerveja? A dúvida é pertinente pois ambos, durante séculos, constituíram parte essencial da dieta das pessoa comuns. A importância da cerveja se evidencia em textos egípcios, de 1600 aC, que continham prescrições médicas indicando o seu consumo. Nos tempos medievais, ela era usada como dízimo e pagamentos e em sistemas de trocas e tributação [Raley, 1998; Hines e Kuroski, 2025].


Representação do fabrico de cerveja em arte da XII Dinastia egípcia, entre 2050 aC e 1800 aC.
(Crédito: Andreas Praefcke).

Provavelmente a receita mais antiga conhecida no mundo seja de um processo de fermentação em produção de cerveja, documentado em papiro egipcio de ≈5000 aC. Outra receita foi encontrada em uma ode com 3.800 anos de idade, gravada em argila na antiga Suméria. Os babilônios, que bebiam cerveja com um canudo para filtrar o líquido impuro, conheciam cerca de 20 receitas diferentes para a cerveja [Petrovski, 2017; vinepair_beer, 2021].

Em um jarro de 3400 aC, desenterrado em Godin Tepe, no Irã, foram encontrados resíduos de cerveja, mas restos de cevada maltada de cerca de 10000 aC provam que os primeiros cervejeiros foram mesmo os povos primitivos da Mesopotâmia. De qualquer forma, na foz mais oriental do Nilo, no Egito, a antiga cidade de Pelusium (que existiu por ≈2000 anos desde o século VIII aC) foi tão importante para a história da cerveja quanto Burton-upon-Trent na Inglaterra do século XIX. Pelusium, importante porto comercial que exportava linho e cerveja, tem seu nome derivado do grego "pelos" (que significa "lama" ou "silte") devido ao sedimento fino, comum na cidade, que se originava dos braços remanescentes do Rio Nilo [archaeology_pelusium, 1997; Tringham, 2003; allaboutbeer_burton, 2009; scribd_beer, 2019; vinepair_beer, 2021; cesualus_beer, 2023; egypt-museum_beer, 2023; solmar_beer, 2023; thehistoryblog, 2026].

5. A cerveja sai do berço

Os gregos, quando chegaram ao Egito em 332 aC, não apreciaram a cerveja, pois viam o malte germinado como grãos apodrecidos. Na Roma antiga, devido à vinicultura desenvolvida, a cerveja também não ganhou admiradores. No entanto, em suas lutas, muitas vezes os romanos ficavam intrigados com inimigos ferozes e fortificados pela cerveja, como os celtas no sul da atual Alemanha. Os relatos de Plínio, em sua História Natural, obra publicada no ano 77, mencionam "um líquido com o qual eles se embriagam, feito de grãos e água" [Oliver, 2012; acervoantigo_plinio, 2026].

Quando o Império Romano desmoronou, a cerveja ganhou adeptos. Romanos, alemães e eslavos passaram a assimilar suas culturas entre si. Foi quando os mosteiros estabeleceram cervejarias para se sustentarem e oferecer hospitalidade aos viajantes [Oliver, 2012].

A Abadia de Andechs.
É considerado o local de peregrinação mais antigo da Baviera, na Alemanha [muenchen_andechs, 2022].
Os monges de Andech, em 1455, já possuíam amplo conhecimento sobre a fabricação de cerveja [andechs_geschichte, 2026]
(Crédito da imagem: Boschfoto).

Com o tempo, os europeus passaram a construir cervejarias em escalas maiores. Durante os anos 1700, as cidades coloniais cresceram e, juntamente com elas, as cervejarias. Em 1873, a cerveja podia ser produzida em qualquer lugar onde existisse um bom abastecimento de água e em qualquer época do ano. As cervejarias cresceram tanto que, em 1935, passou-se a beber cerveja até em lata nos EUA [Oliver, 2012; Hossfeld, 2020].

De qualquer modo, em lata ou não, a quantidade bebida de cerveja tem aumentado. Seguem alguns dados após meados do século XX, já que antes os registros não são confiáveis. Em 1960, foram consumidos estimados 35 bilhões de litros no mundo todo. Entre 1993 e 1997, o consumo global aumentou ≈7%, passando de quase 116 bilhões de litros para pouco mais de 124 bilhões de litros [Olfir, 2007; Colen e Swinnen, 2016].

Em 2016, foram consumidos 186,89 bilhões de litros de cerveja no mundo, o que corresponde a ≈512 milhões de litros por dia. Neste mesmo ano, os tchecos, os maiores bebedores mundiais de cerveja, beberam 143,3 litros por pessoa, o que dá uma caneca (de 0,5 litro) a cada 30 horas. Uma bebedeira só [kirinholdings, 2017; Pardo, 2020].

Em 2025, foram consumidos 189,6 bilhões de litros de cerveja (≈519 milhões de litros diários). Houve uma queda de 0,7% em nível global em relação a 2024. Até os os tchecos moderaram passando a consumir 121 litros por pessoa em 2025, mas ocorreram aumentos na África (2,6%) e na América do Sul (1,7%) [dw_cerveja, 2026; Palata, 2026].

6. A doçura do malte e o amargor do lúpulo

Há especialistas que defendem que as variedades de lúpulo, a cevada maltada e diferentes linhagens de levedura podem ter mais influência no sabor da cerveja que a química da água [web.archive_geotimes, 2025].

O malte, a alma da cerveja, confere a ela sabor, aroma, cor e corpo. Consiste em grãos de cereal maltados (ou seja, germinados e secos). Na cervejaria, esses grãos são imersos em água quente, onde enzimas convertem o amido em açúcares. Ao mosto formado é adicionado o lúpulo e, na fermentação, as leveduras consomem os açúcares e expelem o álcool, o dióxido de carbono e vários compostos aromáticos. Maltes especiais podem trazer notas de caramelo, chocolate e café, entre outras [Lancenaeken et al, 2020; Liguori et al, 2020; masterclass_malt, 2022; Guido e Ferreira, 2023; thecatalystsgroup_enzymes, 2024; vedantu_enzyme, 2024; brewersassociation_beer, 2026; Jevcsák et al, 2026]

Por volta do século XII, o lúpulo passou a ser usado como agente que conferiu amargor e aroma. A flor da planta de lúpulo comum, a Humulus lupulus, uma planta trepadeira nativa de regiões temperadas do hemisfério Norte, é usada na fermentação. Requer solo friável e bem drenado e com acesso a muita água [Brown, 2017; sevendegrees_beer, 2023].

O lúpulo cresce em diversos tipos de solo, mas apresenta bom desenvolvimento até mesmo em solos sobre granito-gnaiss, cambissolos ou podzóis, especialmente em solos intemperizados devido à elevada pluviosidade, que oferecem alta porosidade e vales com significativo acúmulo de sedimento. Porém, ele se desenvolve melhor em solos arenosos, profundos e bem drenados, com pH em torno de 6,5. Os produtores devem evitar plantar lúpulo em solos pesados ​​e com drenagem deficiente [Sirrine, 2015; Amario, 2025].

Nos EUA, as regiões preferidas para o cultivo de cevada e lúpulo são solos vulcânicos férteis e bem drenados. Mais de 70% do lúpulo americano é cultivado atualmente nos solos aluviais profundos dos vales de Yakima e Willamette, em Washington e Oregon, que derivam das terras altas vulcânicas da Cordilheira das Cascatas, encontradas nas proximidades [Fink, 2025].

A cevada, que também prefere solo com pH em torno de 6,5, não gosta de solos orgânicos e muito férteis. Ela prefere solos rasos de greda e calcário. O leito de semeadura precisa ser fino e denso, com uma estrutura de solo que permita boa drenagem. [crispmalt_barley, 2024].

Flores de lúpulo em plantação da fazenda Crossroads, no Oregon, EUA.
Esta fazenda está localizada no Vale Willamette que apresenta solos férteis de origem vulcânica a partir de fluxos de basalto [thedundee_willamette, 2022; locallygrown_crossroads, 2023]
(Crédito da imagem: Visitor7).

Há diversas variedades de lúpulo e cada uma proporciona uma leve variação no sabor da cerveja (assim como do vinho), dependendo da região onde é cultivada. Embora existam requisitos gerais, cada variedade requer específicas condições de solo. A geoquímica do solo e seus nutrientes desempenham papel importante no sabor proporcionado pelas diversas variedades de lúpulo [Alpern, 2014].

7. A química da água e a hidrogeoquímica

Mais de 90% do conteúdo da maioria das cervejas é constituído por água, cuja composição pode acentuar o amargor do lúpulo e beneficiar as propriedades do malte. Geralmente ela é extraída de poços subterrâneos ou de nascentes, sendo sua qualidade fundamental principalmente na fermentação. Naturalmente, a composição química da água depende da geologia da região [Punčochářová et al, 2019; Gokavi_beer, 2924; Bressan, 2024; bere-zaganu, 2025; grainfather_water, 2025; qclscientific_beer, 2025].

O ajuste da água, se necessário e feito corretamente, pode fazer toda a diferença entre uma boa cerveja e uma cerveja excelente [Palmer, 2016].

A água utilizada na fabricação de uma cerveja pode afetá-la [Palmer, 2016]]:
  • pelo pH, influenciando a forma como os sabores são percebidos pelo paladar;
  • pela proporção entre sulfato e cloreto, definindo um "tempero" para a cerveja;
  • pelo cloro ou outros contaminantes, produzindo sabores indesejáveis.

A água utilizada na fabricação de uma cerveja, basicamente, pode ser [Palmer, 2016]:
  • água superficial, de lagos, rios e córregos, que é pobre em minerais dissolvidos, mas rica em matéria orgânica (que precisa ser descartada); e
  • água subterrânea, que vem de aquíferos no subsolo, que é pobre em matéria orgânica, mas rica em minerais dissolvidos.

Os Íons dos minerais dissolvidos na água utilizada na fabricação de uma cerveja podem ser [Palmer, 2016]:
  • Cátions, como
    • cálcio (Ca²⁺), que determina a dureza da água e promove limpidez, sabor e estabilidade;
    • magnésio (Mg²⁺), que contribui para a dureza e afeta o pH da mostura, mas em menor grau que o cálcio; e
    • sódio (Na⁺), que em pequenas quantidades (<100 ppm) é inofensivo, mas em concentrações muito elevadas pode conferir à cerveja um sabor mineral; ou
  • Ânions, como
    • bicarbonato (HCO₃⁻) e carbonato (CO₃²⁻), que determinam a alcalinidade total da água e elevam o pH da mostura e da cerveja;
    • sulfato (SO₄²⁻), que acentua o amargor do lúpulo, conferindo à cerveja uma sensação mais seca e refrescante; e
    • cloreto (Cl⁻), que contribui para que a cerveja pareça mais encorpada e adocicada tendo efeito oposto ao do sulfato.

A cerveja preta irlandesa Guinness é uma das mais antigas do mundo.
(Você demorou a ler, alguém bebeu. Não será possível apreciar a dureza e a alcalinidade desta amostra).
(Crédito: Pixabay).

Portanto, a água dura contém muito cálcio e magnésio e a água mole, não. Uma água pode ser amaciada ao serem substituídos quimicamente o cálcio e o magnésio por sódio ou potássio. A alcalinidade elevada é problemática em estilos de cervejas mais claras. O uso de maltes torrados escuros na mostura pode neutralizar a água alcalina e atingir o pH adequado. Um pH alto na cerveja a torna sem graça e um pH baixo atenua os sabores, mas a cerveja perde complexidade [Palmer, 2016].

Em geral, águas duras, ricas em minerais, são ideais para cervejas escuras enquanto a águas moles são mais adequadas para cervejas claras, com um perfil suave e delicado. Na cerveja Pale Ale, a água dura realça o amargor do lúpulo. Nas cervejas Lager, as água moles proporcionam um sabor mais suave e equilibrado. Em outras palavras, águas ricas em sulfatos podem dar à cerveja um sabor mais seco e acentuar o amargor do lúpulo. Por outro lado, águas ricas em cloretos tendem a criar uma sensação na boca mais suave e aveludada, realçando a doçura do malte [Punčochářová et al, 2019; bere-zaganu, 2025; Iversen, 2025].

Então, a composição da água é considerada a principal razão para que diferentes tipos de cerveja se desenvolveram em regiões específicas [Eßlinger e Narziß, 2012]. Eis alguns exemplos [Dolan, 2015]:
  • Burton-upon-Trent, na Inglaterra – Águas com alto teor de sulfato de cálcio (gesso), o que torna a cerveja estável e realça seu amargor, conferindo-lhe seu sabor característico como no caso da India Pale Ale. Em Burton-upon-Trent, a produção de cerveja começou no século VI utilizando água de poço captada nos arenitos ricos em evaporitos com pH ideal para extrair os açúcares da cevada maltada embebida em água morna. Na região ocorrem arenitos permo-triássicos [Fink, 2025].
Cervejaria Coors, em Burton-upon-Trent, na Inglaterra.
Aqui é produzida a cereveja Carling [molsoncoors, 2020].
(Crédito da imagem: Stephen McKay).
  • Dublin, na Irlanda – Águas com altas taxas de cloreto e baixas concentrações de sulfato dão sabor mais suave à cerveja. Elas percorrem calcários do Carbonífero.
    • São águas ideais para cervejas cervejas Porter e Stout, incluindo a Guinness
    • Também são águas muito alcalinas que exigem uma torrefação intensa da cevada, resultando no que se chama de malte preto, encontrado na Guinness e em outras Stouts irlandesas [Fink, 2025]
  • Londres, na Inglaterra – Suas águas são levemente diferentes das de Dublin. Peregrinam por gredas do Cretáceo. São produzidas cervejas como Porter e Stout.
    • A Porter foi desenvolvida inicialmente em Londres, no século XVIII, utilizando água com alto teor de cálcio e carbonato e baixo teor de sulfato e cloreto. Na Irlanda, um cervejeiro de Dublin importou a Porter e passou a produzí-la mais encorpada ("stout") com água de Dublin e surgiu a cerveja Stout.
    • A Guinness produzida em Dublin tem um sabor diferente da Guinness produzida em Londres. As rochas calcárias que alimentam a cerveja irlandesa passam por calcários do Carbonífero Inferior, enquanto as da cerveja londrina fluem por gredas do Cretáceo. Diferentes níveis de magnésio, cloro, sódio e potássio explicam o sabor mais adocicado da variedade londrina. [Fink, 2025].
  • Plzeň, na atual República Tcheca – São águas moles resultando em um estilo mais leve e seco, como o das cervejas Lager ou Pilsen. Em 1842, o aperfeiçoamento da cerveja de Plzeň foi obtido pela maturação da cerveja a frio em cavernas no arenito que ocorre na cidade [puninwine_czech, 2026]
Uma galeria no percurso de visitação do subsolo histórico de Plzeň.
(Crédito: Eva Haunerová).
  • Munique, na Alemanha – São águas semelhantes às de Dublin, encontradas em região de sedimentos recentes. São produzidas cervejas como a Dunkel.
    • Estas águas muito alcalinas provém de aquíferos em depósitos de areia e cascalho ricos em carbonato de cálcio. Este material é trazido pelas águas desde os Alpes. É preciso torrar levemente o malte para liberar os fosfatos da cevada e aumentar a acidez o suficiente para atingir o pH ideal, resultando uma cerveja mais escura [Fink, 2025].
    • A cervejaria Paulaner utiliza água naturalmente mole extraída de poços subterrâneos de mais de 200 metros de profundidade que atingem camadas do Terciário das encostas dos Alpes. É uma água subterrânea que permaneceu intocada por até 12.000 anos, dispensando filtros para remover carbonados [Fink, 2025].
Copo alto com a cerveja Weißbier da Paulaner e a paisagem alpina ao fundo.
(Crédito: peuler).
  • Dortmund, na Alemanha – Suas águas, derivadas dos arenitos das camadas de carvão Coal Measures, são similares à de Burton, porém menos mineralizadas. Produzem cervejas Pils.
  • Bohemia, na atual República Tcheca – Suas águas subterrâneas apresentam pequenas quantidades de íons dissolvidos especialmente de cálcio e sulfato. São derivadas de arenitos ou rochas metamórficas impermeáveis do Paleozoico inferior e do Pré-cambriano. Produzem uma cerveja leve e seca, como a Pilsner.
  • Península de Jutland, no norte da Europa – Suas águas são encontradas em região de rochas do Cretáceo recobertas por depósitos do Terciário. São ricas em carbonato de cálcio semelhantes às de Munique. Produzem cervejas como a Limfjordsporter [sunheron_beverages, 2025].
  • Escandinávia, no norte da Europa – São águas normalmente pouco mineralizadas que derivam principalmente de rochas fraturadas do Pré-Cambriano. São ideais para as cervejas Pale Lager.
  • Regiões da Bélgica – Suas águas mineralizadas alimentam algumas cervejas distintas [rockesci_beer, 2013]:
    • Na Flandres Oriental, particularmente ao redor de Oudenaard, há águas ricas em carbonatos e as cervejas marrons características são de alta fermentação, densas e suaves. A cerveja Flanders Brown Ale utiliza estas águas [bjcp_beer, 2021].
    • Na Flandres Ocidental, as águas menos mineralizadas levam à produção de cervejas leves e pouco amargas e tipicamente vermelhas. A Rodenbach é uma linha típica de cerveja marrom-avermelhada flamenga [bierwein_rodenbach, 2026].
    • Em Ardenas, há cervejarias trapistas monásticas onde as águas são altamente enriquecidas em carbonato de cálcio e, como resultado, as cervejas típicas são de alta fermentação, marrom-escuras e doces. A água para a fabricação da linha de cervejas trapistas Chimay provém de dois poços, ambos localizados dentro dos muros do mosteiro [Gargett, 2024].
    • Ao norte da Antuérpia, há uma cervejaria trapista em Westmalle onde a água é dura com muitos minerais dissolvidos e é captada de poço profundo na propriedade da cervejaria. É produzida uma cerveja muito próxima de uma Bitter Ale [Villa, 2012].
Abadia de Westmalle, um famoso mosteiro trapista localizado em Malle, na província da Antuérpia, na Bélgica.
O primeiro lote de cerveja desta abadia remonta a ano de 1836 [marnixring, 2025].
(Crédito da imagem: trappistwestmalle).

Alguns elementos, em quantidade elevada, podem prejudicar a cerveja. Por exemplo, o zinco pode turvar a cerveja e ser tóxico para o fermento. O ferro pode desenvolver um sabor metálico e reduzir o poder de fermentação [Rossbacher, 2013; Dolan, 2015].

Na fermentação, são significativos quatro cátions encontrados na água natural, cuja concentração depende das rochas da região [Bressan, 2024]:
  • Cálcio – Estabiliza as enzimas na levedura para decompor o amido em açúcares e estes em álcool. Também precipita fosfato, corrigindo o pH e favorecendo a atividade microbiana.
  • Magnésio – Com efeito similar, controla a concentração do fosfato. Em excesso pode produzir sabor amargo.
  • Sódio e potássio – Podem prejudicar o sabor e ter efeito laxativo indesejável em quem bebe.
Alguns ânions são também significativos [Dolan, 2015]:
  • Sulfato – Realça o amargor do lúpulo, deixando-o mais seco e nítido
  • Cloreto – Realça a percepção de doçura, mas, em excesso, deixa a cerveja salgada
  • Carbonato – Evita a queda do pH (que é necessária na produção), porém mantê-lo alto demais pode ser prejudicial às enzimas e reduzir o rendimento.
  • Bicarbonato – Em excesso, reduz a eficiência das enzimas. Cervejas mais escuras toleram níveis mais altos e cervejas claras exigem níveis mais baixos [craftprotestkits_bicarbonate, 2025].

8. A contribuição litológica na receita e no nome

Na filtragem para a remoção da levedura e outros materiais indesejáveis, processo fundamental para uma cerveja saudável, podem ser utilizados as seguintes rochas [Dolan, 2015; Brown, 2017; imerys_filtration, 2026; King, 2026]:
  • Diatomito – É triturado em um pó fino conhecido como terra diatomácea. Esta rocha sedimentar deve ser depositada em ambiente de água doce, pois o diatomito marinho é prejudicial à cerveja. É ideal para aplicações que exigem captura de partículas mais finas e minimizem a perda de produto.
  • Perlita – É moída e expandida para criar uma rede de canais microscópicos, ideais para a filtração de líquidos. Sua leveza e inércia química proporcionam desempenho de filtração estável e alta vazão. É ideal para aplicações que exigem alta remoção de sólidos e para a filtração de sólidos gelatinosos.
Amostras de diatomito (à esquerda) do Mioceno médio, do Oregon, EUA, e de perlita do Pleistoceno, da Califórnia, EUA.

Além destas, outras rochas contribuem para a receita da fabricação das cervejas. Sabe-se que a qualidade e o tipo das cervejas são afetados pelas águas de nascentes ou subterrâneas encontradas em algumas rochas. Estas são listadas a seguir juntamente com as águas associadas a elas [Bressan, 2024]:
  • Rochas carbonáticas – Águas que podem ter altas concentrações de cálcio e magnésio. Frequentemente, as concentrações são tão altas que podem dificultar o controle do pH do mosto. O calcário de Dublin confere uma composição muito particular às águas subterrâneas da região [Rossbacher, 2013; Fink, 2025].
  • Rochas evaporíticas – Águas com sulfato que podem favorecer um desejável sabor amargo na cerveja.
  • Rochas com alta concentração de cloretos e de sódio – Águas que levam as cervejas para um sabor salgado. No entanto, em proporções corretas, o dulçor realçado pelos cloretos pode prevalecer, resultando em um sabor apreciado.
  • Arenitos e rochas metamórficas – Águas de nascentes ou subterrâneas com baixa concentração de minerais e íons dissolvidos, produzindo cervejas com sabores menos distintos. Nestes casos, a fermentação deve ser prolongada (aumentando também o teor alcoólico) preferencialmente em ambiente escuro e fresco. As denominações Pilsen e Lager derivam desta técnica.
  • Rochas com gesso – Em Burton-upon-Trent, a água sofre influência de arenito com gesso, por isto, a adição de gesso à água, para obtenção de sabores específicos, é conhecida como "burtonização". Na região de Burton-upon-Trent, diversas cervejarias, no século XIX, davam preferência a áreas com calcário e gesso. Águas nascentes nestas rochas podem também tornar a cerveja estável, preservando os sulfatos e permitindo um transporte mais longo [Rossbacher, 2013; Bressan, 2017].
  • Rochas metamórficas – Em Plzeñ estas rochas permitem que a água subterrânea percole por fraturas, sem que sejam dissolvidos muitos minerais [Rossbacher, 2013].
Panorama do Newberry Volcanic National Monument.
O Big Obsidian Flow, à direita da imagem, deu nome à cerveja Obsidian Stout [beermenus_obsidian, 2026; sourcecatalog_s_or, 2026]
(Crédito da imagem: L. Moclock).

O relacionamento da geologia (e da mineração) com a cerveja fica também evidenciado através dos nomes nos rótulos, especialmente nestes exemplos dos EUA [geotimes_resources, 2025]:
  • Obsidian Stout (da Cervejaria Deschutes de Bend, Oregon) – Seu nome se inspira no Big Obsidian Flow (de 1.300 anos) do vulcão Newberry, ao sul de Bend. [beermenus_obsidian, 2026].
  • Agate Amber e Hematite Stout (da Cervejaria Lake Superior de Grand Marais, Michigan, EUA) – Foram batizadas em virtude de paixões petrológicas de uma co-fundadora da cervejaria.
  • Mesabi Red (da Cervejaria Lake Superior de Duluth, Minesota, EUA) – Seu nome homenageia os vastos depósitos de minério de ferro da região, conhecidos como Mesabi Iron Range.
  • Pick Axe Pale Ale (da Cervejaria Tommyknocker de Idaho Springs, Colorado) – Parte de seu nome ("pick axe", que significa "picareta") faz referência à região de Idaho que é famosa pelas riquezas extraídas em minas que, obviamente, usam picaretas.
  • Cervejas históricas que não estão sendo produzidas atualmente:
    • Balcones Fault Red Granite e Balcones Fault Pale Malt (da Cervejaria Great Grains do Texas) – Seus nomes se referem a uma falha normal do Mioceno que atravessa a região que liga as cidades de Austin e San Antonio, no Texas.
    • Aftershock Bock, Seismic Ale, Earthquake Pale Ale, Earthquake Porter e Oktoberquake (da Cervejaria San Andreas de Hollister, Califórnia) – Seus nomes fazem homenagem aos eventos sísmicos da região da zona de convergência das falhas de San Andreas, Hayward e Calaveras, onde a cervejaria San Andreas se localizava. A Oktoberquake faz referência também ao terremoto de 17 de outubro de 1989.
Algumas outras cervejas (fora dos EUA), cujos nomes referenciam fenômenos ou eventos geológicos, são:
  • Eyjafjallajökull (da Cervejaria Puffin, de Riemst, Bélgica) – referência ao vulcão da Islândia que em 2010 paralisou o tráfego aéreo em grande parte da Europa durante dias [puffinbrewery, 2023].
  • Tectônica (da Cerveja Artesanal Pangea, de Uberlândia, MG, Brasil) – referência óbvia à geologia que também está presente nos nomes de muitas outras cervejas da Pangea e no nome da própria cervejaria [untappd_pangea, 2018].
  • Lava (da Cervejaria Ölvisholt de Hafnarfjörður, no sul da Islândia) – referência ao material vulcânico eventualmente extravasado pelo vulcão ativo Hekla que é visível da porta da cervejaria e, ocasionalmente, realiza erupções nas proximidades da fazenda Ölvisholt [beeradvocate, 2018].
  • Volcanes del Sur (da Cervejaria Volcanes del Sur da região de Maule, no Chile) – referência muito justa aos eventos vulcânicos do sul do Chile, já que esta cerveja é produzida artesanalmente com água termal mineral filtrada pelas camadas da rocha vulcânica da região [beertasting, 2026].

9. A evolução da receita

No século XVI, um conjunto de leis alemãs com o nome de Reinheitsgebot surgiu em prol da pureza da cerveja. Por segurança alimentar, estas leis removeram essencialmente tudo das receitas, exceto a água, o lúpulo, a cevada e, alguns séculos depois, a levedura. Hoje, frequentemente, o único ingrediente, com muita razão, que de certo modo distingue a cerveja de uma região é a água local e, em decorrência, a geologia. Se não distingue, pelo menos é o ponto de partida para os ajustes necessários. Constata-se isto porque a cevada maltada, o lúpulo e o levedo se tornaram relativamente universais em termos de disponibilidade [vinepair_beer, 2021; Rossbacher, 2013]

Historicamente, muitos estilos famosos de cerveja foram desenvolvidos em cumplicidade com a água da região, ainda que se leve em conta que os cervejeiros vêm ajustando a água há centenas de anos [Palmer, 2016].

Na medida que os recursos permitem, os cervejeiros atuais replicam os perfis hídricos regionais famosos para reproduzir propriedades das cervejas de localidades específicas. Após a Segunda Guerra Mundial, com a evolução do processo químico cervejeiro e a desionização, além de outros tratamentos para alcançar a composição mineral desejada, a cerveja ganhou certa independência em relação à geologia dos aquíferos locais. Porém, não se pode esquecer que o tratamento da água (incluindo produtos químicos, filtração e análises laboratoriais) tem um custo a ser computado [Dolan, 2015; Punčochářová et al, 2019; beercpa_beer, 2025].

Inseridos no curso desta história, os recursos geológicos continuam naturalmente disponíveis aos cervejeiros. Desde o surgimento do Crescente Fértil, a geologia tem contribuído para colocar as melhores rochas sob as cervejarias, na medida do possível e, claro, da criatividade e da visão dos cervejeiros. Por outro lado, como se pretendesse reconhecer e confirmar este vínculo, a cerveja tem contribuído para colocar, principalmente nos acampamentos, as melhores ideias em mapas e relatórios, resguardando-se naturalmente a moderação de tais ideias.

4 comentários:

Unknown disse...

Parabéns Marco,
Fantástica matéria/pesquisa sobre duas paixões que tenho na vida.
Ontem estava justamente falando disso na confra da geologia da UFRN. Forte abraço.

Unknown disse...

NAda como uma gelada ao final de um campo!!!!!

Unknown disse...

Muito boa matéria,sempre tive muita curiosidade sobre o tema!

Unknown disse...

Que matéria sensacional! Parabéns por toda a pesquisa.

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