| Por Marco Gonzalez | (Atualização em 04/09/2026) |
Vinhedos em uma aldeia da região vinícola de Champagne,
Champagne: região vinícola no nordeste da França, a ≈145 quilômetros a leste de Paris. É o único lugar no mundo onde é produzido um espumante com regras rígidas em relação à origem das uvas, às castas permitidas, ao método de produção obrigatório (Méthode Champenoise) e ao tempo mínimo de envelhecimento. Champagne: espumante que recebe este nome se produzido na região de Champagne conforme os critérios estabelecidos. Méthode Champenoise: técnica tradicional que consiste em induzir uma segunda fermentação diretamente na garrafa, para criar naturalmente as bolhas. Após uma primeira fermentação clássica, obtém-se um vinho chamado "vinho límpido". Este vinho é então misturado, engarrafado com levedura e açúcar e depois selado novamente. O fermento transforma o açúcar em álcool e dióxido de carbono. Como a garrafa está selada, o gás fica retido no vinho criando a efervescência. |
na França.
Normalmente as cartas de vinhos, em bons restaurantes, são organizadas por tipo de uva, estilo de vinho ou país de origem, mas já é possível encontrá-las classificadas pela geologia dos vinhedos. Parece compreensível, pois não há vinha sem solo,
| Solo: material inconsolidado superficial que ocorre como capa sobre as rochas e é desenvolvido por intemperismo, seja in situ, das rochas imediatamente abaixo (solo autóctone), seja de rochas próximas, tendo sofrido pequeno transporte (solo alóctone). |
nem solo sem rocha,
| Rocha: substância natural sólida sendo constituída (i) por um só mineral (rocha monominerálica) ou por vários minerais; (ii) somente por vidro vulcânico ou por mistura de vidro vulcânico e minerais; ou (iii) por carvão mineral ou outros restos biológicos junto com minerais diversos. Sempre seus constituintes são naturais. |
e é a partir daí que os vinhos constroem aromas e sabores [Maltman, 2018; usgs_solo, 2015; xaviervignon_taste, 2025; ecoterreno_soil, 2026].
1. Introdução
Seria possível detectar nos vinhos a influência da mineralogia, da geotectônica, enfim, da geologia? Há exemplos que apontam neste sentido [Pracontal, 2011]:- sem a mineralogia dos xistos
Xisto: rocha metamórfica caracterizada pela xistosidade. Xistosidade: estrutura penetrativa de minerais recristalizados segundo orientação preferencial em planos e/ou linhas. Penetrativa: diz-se da estrutura que ocorre em todas as partes da rocha. Recristalização: processo de rearranjo cristalino de um mineral ou de uma rocha, utilizando redes cristalinas pré-existentes. Cristalino: diz-se do sólido que possui arranjo interno ordenado e repetitivo de átomos. |
do Siluriano roxos e verdes, com quartzo,
| Quartzo: um dos minerais mais abundantes que ocorre sobre a face da Terra. Muito resistente ao intemperismo, ele sobrevive à erosão em grãos que formam a maior parte das areias de praia e de desertos, por exemplo. Sua fórmula química é SiO₂. |
provavelmente não existiria o solo requerido para o Chenin Blanc
Chenin Blanc: casta de uva branca conhecida pela sua acidez vibrante, sabores cítricos e de frutas de pomar, além de frescura que a torna ideal para acompanhar diversos pratos. Pode ser transformada em vinhos secos ou doces. Chenin blanc: vinho da uva de mesmo nome que, em geral, costuma apresentar aromas distintos de marmelo, maçã ou casca de maçã. Oferece altos níveis de acidez vibrante, independentemente do estilo. |
de Savennières,
| Savennières: comuna localizada no departamento de Maine-et-Loire, no oeste da França. |
na França; e - sem processos geotectônicos,
| Geotectônica: ramo da geologia referente a grandes estruturas terrestres tais como cadeias de montanhas, bacias geológicas e outras, além dos processos geológicos envolvidos na mega organização estrutural da Terra. |
talvez faltasse champanhe para brindar. A região onde este espumante é cultivado poderia ainda ser uma planície monótona onde possivelmente cresceriam beterrabas francesas. Porém, as cordilheiras dos Alpes
Alpes: cordilheira constituída por um cinturão colisional gerado pela convergência, do Cretáceo ao presente, mediante subducção de um oceano do Mesozoico e colisão entre as margens continentais Adriática e Europeia. Estende-se do Golfo de Gênova a Viena, passando pelo arco alpino ocidental franco-italiano e pelos Alpes centrais e orientais. Este conjunto apresenta natureza continental e, em menor proporção, oceânica, principalmente com rochas que sofreram metamorfismo. Cinturão colisional: cadeia de montanhas gerada pelo encontro de litosfera continental a uma zona de subducção. Subducção: descida da placa tectônica mais pesada sob a mais leve no plano de contato e confronto entre elas. Metamorfismo: processos de transformações mineralógicas, texturais e estruturais de uma rocha pré-existente sob temperatura e/ou pressão sem mudança química significativa e no estado sólido. |
e dos Vosges,
| Vosges: cadeia de montanhas formada há ≈350 milhões de anos. Foi erodida progressivamente expondo núcleos de rochas mais profundas. Atualmente, a espinha dorsal deste maciço rochoso é formada por rochas graníticas e metamórficas resistentes à erosão garantindo uma memória de antiga tectônica. Estende-se a oeste do vale do rio Reno, nos departamentos de Alto Reno, Baixo Reno e Vosges, no leste da França |
há alguns milhões de anos, inclinaram caprichosamente a borda leste daquela planície do champanhe. Com os declives ideais, os raios de sol passaram a bater com a angulação adequada, compensando a desvantagem da latitude norte elevada e... voilà, nasceu o champanhe.
Então, incentivados por estes exemplos, poderíamos deduzir uma associação direta entre geologia e vinho?
Observação: em muitas das descrições de uvas, vinhos e regiões, neste texto, foi mantido o "aroma" poético original de tais descrições. Afinal, "
in vino veritas".
2. O legado dos monges
Os vinhos são classificados através de diversas siglas (ou selos) que lhes conferem reconhecimento de qualidade e podem delimitar regiões de produção. Elas protegem o que há de mais autêntico em cada região e garantem ao consumidor a qualidade do vinho por meio de selos. Em geral, há a Indicação Geográfica
| Indicação Geográfica: selo que reconhece uma área de vinha determinada dentro de um país pela sua qualidade diferenciada. Esse selo garante que os produtos daquela região apresentam características específicas devido a sua origem. |
(IG) e uma subdivisão mais restrita desta que é a Denominação de Origem
| Denominação de Origem: selo conferido por órgãos reguladores da propriedade industrial em países de todo o mundo. É o nome geográfico de país, cidade, região ou localidade de seu território, que designe produto ou serviço cujas qualidades ou características se devam exclusiva ou essencialmente ao meio geográfico, incluídos fatores naturais e humanos. |
(DO), mas cada país tem siglas próprias. Eis alguns exemplos [reserva85_indicacao, 2018; reserva85_siglas, 2018; Aquino, 2026]:- No Brasil:
- Indicação de Procedência (IP) – indica região reconhecida pela produção de vinho; e
- Denominação de Origem (DO) – indica região onde o vinho apresenta características especificas oriundas daquela área de cultivo;
- Na França:
- AOC – Appellation d´Origine Contrôllè (Denominação de Origem Controlada) para vinhos com denominação de origem protegida;
- VdP – Vin de Pays (Vinho da Terra), para os vinhos com indicação geográfica protegida; e
- Vin de France – (Vinho da França) para vinhos que não tem indicação geográfica;
- Na Itália:
- DOCG – Denominazione di Origine Controllata e Garantita (Denominação de Origem Controlada e Garantida);
- DOC – Denominazione di Origine Controllata (Denominação de Origem Controlada); e
- IGT – Indicazione Geografica Tipica (Indicação Geográfica Típica);
- Na Espanha:
- DOCa – Denominación de Origen Calificada (Designação de Origem Qualificada);
- DOP – Denominación de Origen Protegida (Denominação de Origem Protegida);
- VdlT – Vino de la Tierra (Vinho da Terra);
- Em Portugal:
- IG – Indicação Geográfica;
- DOC – Denominação de Origem Controlada; e
- Vinho de Mesa (não confundir com os vinhos de mesa brasileiros);
- Nos EUA:
- AVA – American Viticultural Area (Área Vitícola Americana);
- Na União Europeia:
- IGP ou, em inglês, PGI (Protected Geographical Indication) – Indicação Geográfica Protegida; e
- DOP ou, em inglês, PDO (Protected Designation of Origin) – Denominação de Origem Protegida, equivale ao DOP português e espanhol e ao AOC francês.
No século XVIII, a primeira região demarcada do mundo foi o
Vale do Douro,
Vale do Douro: região localizada no nordeste de Portugal, na bacia hidrográfica do Douro, rodeada de montanhas que lhe dão características mesológicas e climáticas particulares. Estende-se por uma área total de ≈250.000 há. Ao longo do Vale do Douro e seus afluentes, esta região pertence ao complexo xisto-grauváquico ante-orodovícico, com algumas inclusões graníticas. Complexo xisto-grauváquico ante-ordovícico: complexo anterior ao Ordovicano composto por alternância de metapelitos e metagrauvacas, afetados por metamorfismo regional. Localiza-se no município de Arouca no norte de Portugal. Metapelito: pelito que sofreu metamorfismo. Pelito: rocha cujos componentes principais são da fração argilosa e do silte e que se originam pela litificação de lamas. Metagrauvaca: grauvaca que sofreu metamorfismo. Grauvaca: rocha arenosa, imatura, de cores cinza a esverdeada relacionada com ambientes de erosão Mesologia: ciência do vínculo relacional entre a Terra e os seres vivos. Termo substituído por "ecologia". |
cuja DOC foi criada pelo nobre, diplomata e estadista português Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), Marquês de Pombal e Conde de Oeiras, em 1756 [
Aquino, 2026].
Na antiguidade, gregos e romanos já haviam desenvolvido um sistema de denominação para proteger e garantir a origem dos vinhos de prestígio. Na Idade Média,
monges
| Monge: pessoa que fez os votos de pobreza, castidade e obediência e pertence a um grupo religioso. |
cistercienses
Cistercienses: ordem de monges surgida no século XI a partir de um desejo de viver com maior fidelidade à Regra de São Bento. Passaria a ser uma das mais influentes tradições monásticas do cristianismo. Regra de São Bento: documento fundador da vida monástica no Ocidente cristão. É composto por um Prólogo e 73 capítulos. Organiza a vida da comunidade em torno da oração (opus Dei), do trabalho (labora), da leitura divina (lectio divina) e da obediência ao superior religioso. |
unificavam o vinho a partir de uma região definida, na
Borgonha,
| Borgonha: região localizada no nordeste da França. Em seu extremo Norte, quase em Champagne, localizam-se Chablis e Chatelain. Em uma linha quase reta em direção ao Sul, é dividida em Côte de Nuits, ao Norte, e Côte de Beaune. Essas duas encostas vão formar a chamada Côte d´Or, o local mais prestigioso da Borgonha e onde está localizada a maior parte dos vinhedos Grand Crus. Ao Sul, estão localizados Côte Chalonnaise e Mâconnais que faz fronteira com o Beaujolais. Mâconnais não tem encostas, mas colinas suaves, onde é produzida uma boa parte do vinho branco da Borgonha. |
por reconhecerem a importância do terreno para o vinhedo. Dizem que eles provavam o solo na busca do terreno que desse melhor sabor ao vinho, pois acreditam que as videiras retiravam do solo a água e tudo mais que precisavam para crescer. Ou seja, para eles o vinho era feito do solo! [
Maltman, 2018;
next-generation, 2019].
E parecia ser uma boa ideia. Conferir sentido de localidade ao vinho lhe viabilizava (e continua a viabilizar) um marketing poderoso. Realmente, não se pode com facilidade replicar, simultaneamente, a geologia, a topografia e o clima das vinhas em outras regiões. Muitos vinhos clássicos, como o Grand Cru
| Grand Cru: conjunto de vinhedos mais importantes da Borgonha. Suas delimitações começaram a ser apontadas ainda na Idade Média com os monges cistercienses. Após anos e anos de observações e análises, eles foram separando o que consideravam as melhores terras, de onde surgiam os melhores vinhos. As denominações, como as conhecemos hoje, foram quase todas oficializadas ainda no século XIX. Dos 33 Grand Crus borgonheses, 24 estão localizados em Côte de Nuits, oito na Côte de Beaune e um em Chablis, na Borgonha. |
da Borgonha que vêm de locais com uma geologia particular, beneficiam-se desta estratégia [Maltman, 2013].

Antigo rótulo de "Grand Vin de Bourgogne" ("Ótimo Vinho de Borgonha"), indicando "appellation controlée" ("denominação de origem controlada").
Foram os monges borgonheses, ainda na Idade Média, que estabeleceram as fronteiras para muitos dos vinhedos Grand Crus que ainda existem atualmente. Seu trabalho fundamentou a denominação de origem destes vinhos e, seguramente, aqueles antigos monges ficariam orgulhosos do seu legado [
Grizzo, 2022].
3. O legado da ciência
O entusiasmo devido à contribuição da geologia à enologia, entretanto, é algo bem mais novo e ainda não se sabe exatamente como tal contribuição se processa. Ao descobrir a fotossíntese,
Fotossíntese: processo que usa a radiação solar para produzir energia e consumir carbono.
|
a ciência mostrou que as videiras são feitas, de alguma forma, de sol, ar e água. Elas usam a luz do sol para extrair dióxido de carbono
| Dióxido de carbono (CO₂): gás incolor e inodoro composto por um átomo de carbono e dois átomos de oxigênio. É liberado naturalmente pela respiração dos organismos e pela decomposição da matéria orgânica, bem como por atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis. O CO₂ é essencial para a fotossíntese. |
do ar e, ao combiná-lo com a água do solo, produzem os carboidratos
Carboidratos: compostos naturais e derivados formados a partir deles. São provavelmente as substâncias orgânicas mais abundantes e disseminadas na natureza, sendo constituintes essenciais de todos os seres vivos. O termo carboidrato significa "carbono hidratado" e tem fórmula geral Cx(H2O)y. De modo geral, o desenvolvimento da uva é caracterizado pelo acúmulo contínuo de açúcares, processo envolvido com a produção de carboidratos e que determina o rendimento e a qualidade do fruto. Açúcar: carboidrato simples produzido naturalmente nas plantas verdes e presentes nelas. Sem açúcar, não há fermentação, e sem fermentação, não há vinho. Quando a fermentação começa, o fermento consome os açúcares e os converte em álcool e dióxido de carbono. |
necessários à planta, além de oxigênio. Durante o amadurecimento das uvas, os precursores do sabor se desenvolvem e, na fermentação,
Fermentação: um dos métodos mais antigos da humanidade para conservar e transformar alimentos em formas mais digeríveis (e mais saborosas). Na produção de vinho, é um processo que une leveduras e bactérias: são fornecidos açúcares, nutrientes e um ambiente agradável para elas viverem, e em troca elas nos ajudam a produzir álcool. Levedura: qualquer uma das ≈1.500 espécies de fungos unicelulares. Atua sobre os açúcares presentes no suco de uva, convertendo-os em etanol (álcool) e dióxido de carbono. Fungo: organismo cujas células contêm organelas delimitadas por membrana e núcleos bem definidos. Organela: estrutura subcelular que desempenha uma ou mais funções específicas na célula, como armazenar informações genéticas ou produzir energia química. Bactéria: organismo vivo microscópico unicelular. É essencial para estabilizar o vinho, promover uma fermentação eficiente e rápida e proteger a cor. |
são convertidos em centenas de compostos aromáticos que, finalmente, determinarão o sabor e o aroma do vinho [Maltman, 2018].
Representação esquemática da fotossíntese que, na presença de luz solar, extrai dióxido de carbono do ar e água do solo para produzir carboidratos, além de oxigênio.
O solo, por sua vez, influencia o modo como as raízes coletam a água para que as uvas se encorpem e amadureçam. Quase todos os 16 elementos essenciais
16 elementos essenciais para as videiras: Obtidos do ar e da água – carbono, hidrogênio e oxigênio; Macronutrientes obtidos do solo – nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e enxofre; e Micronutrientes obtidos do solo – ferro, manganês, cobre, zinco, boro, molibdênio e cloro. |
ao cultivo da videira vêm do solo e alguns chegam ao vinho, embora em quantidades muito pequenas, provavelmente com algum poder para participar da composição dos sabores perceptíveis [Maltman, 2018].
No caso das videiras, os nutrientes minerais principais são [Maltman, 2013]:
- Nitrogênio: pequenas variações em sua absorção afetam o crescimento vegetativo da videira e a maneira pela qual a levedura, constituída por tipos de fungos, metaboliza o mosto
| Mosto: sumo de uvas frescas resultante da sua prensagem. |
das uvas. A maior parte do nitrogênio vem do húmus, a porção orgânica do solo.
- Fósforo e enxofre: a maior parte deles também vem do húmus.
- Cálcio, magnésio e potássio: são derivados inteiramente do solo. O cálcio influencia o pH do solo e, consequentemente, a disponibilidade de outros nutrientes.
- Ferro, manganês, zinco e cobre: também são derivados dos minerais que compõem o solo. São micronutrientes que, em excesso, podem causar toxidade.
Todos (animais e plantas) precisamos de nutrientes minerais. Em relação às videiras, os nutrientes são [Maltman, 2013]:
- derivados: nutrientes que não chegam às videiras exatamente como são encontrados nas rochas;
- necessários: nutrientes que precisam estar disponíveis embora em quantidades muito pequenas (partes por milhão ou menos);
- suficientes: nutrientes que atendem os requisitos extraordinariamente modestos das videiras e que são encontrados em reservas suficientes na maioria dos solos;
- corrigíveis: nutrientes que os vinicultores podem e devem corrigir conforme quaisquer inadequações detectadas; e
- regulados: nutrientes dissolvidos pela água do solo e absorvidos de forma regulada pelas raízes das videira.

Videiras da Vinícola Miolo,
| Miolo: vinícola vinculada à imigração italiana localizada na região do Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, no RS, Brasil. Esta é a primeira região vitivinícola do Brasil que teve a certificação de indicação geográfica (em 2001). Suas uvas são cultivadas em ≈450 hectares. Deste total, 120 hectares são da própria vinícola e os outros 330 hectares são integrados e cultivados por 80 produtores. São cultivadas Gamay, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Merlot, Sauvignon Blanc e Pinot Noir. O Vale dos Vinhedos situa‑se no contato entre as sequências superior (fácies Caxias) e inferior (fácies Gramado) da Formação Serra Geral, embora a maior parte da área situe‑se sobre a sequência superior. Destaca-se a uva Merlot, que apresentou excelente adaptação ao solo basáltico, ao clima temperado, topografia acidentada e as noites amenas da Serra Gaúcha, resultando em vinhos com personalidade única. O Miolo Merlot Terroir 2005 foi eleito em 2010, em Londres, o melhor Merlot do mundo. |
no Vale dos Vinhedos,
| Vale dos Vinhedos: grande área vinícola que ocupa terras de três municípios (Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul) na margem da RS470, no Rio Grande do Sul, Brasil. É a primeira região brasileira com Denominação de Origem, obtida em 2012. O solo basáltico, com boa retenção de umidade, contribui para a estrutura e o perfil mineral percebido nos seus vinhos. |
no Brasil. Elas absorvem nutrientes do solo basáltico,
Solo basáltico: solo derivado de basalto que confere aos vinhos uma característica mineralidade salina e defumada, além de proporcionar excelente drenagem e penetração profunda das raízes. Basalto: rocha ígnea máfica de granulação fina, rica em ferro, magnésio e cálcio, formada a partir de fluxos de lava de resfriamento rápido. Cria solos escuros e com alta capacidade de retenção de calor. Rocha ígnea (ou magmática): rocha originada de um magma que, ao resfriar, solidifica em cristais, em vidro ou em uma mistura dos dois, de acordo com o ambiente geológico de alojamento ou de extravasamento do corpo magmático. Magma: material rochoso em fusão originado em profundidades que sobe e, ao resfriar, solidifica-se como rocha ígnea. Rocha máfica: rocha densa e geralmente escura, constituída por minerais com teores expressivos de ferro e magnésio.
|
em Bento Gonçalves, no Brasil [Wenzel, 2026].
As raízes das videiras absorvem os nutrientes minerais na forma solúvel, sendo necessárias várias transformações, por exemplo, para obter magnésio solúvel a partir de
piroxênio.
| Piroxênio: grupo de minerais anidros com cadeias de tetraedros (SiO4) e com a fórmula geral: XYZ₂O₆ onde X=Mg, Fe, Ca ou Na, Y=Mg, Fe, Fe₃ ou Al e Z=Si com alguma substituição por Al. Apresentam as cores: incolor, branco, cinza, amarelo pálido e às vezes com tons esverdeados. São comuns em rochas ígneas e metamórficas. |
Como a maioria dos minerais é complexa, também são complexos os processos de absorção, envolvendo água, ar e impurezas [
Maltman, 2013].
O distrito de Lodi,
| Lodi: distrito do estado da Califórnia, EUA, lar de mais de 85 vinícolas e mais de 135 variedades de uva. |
na Califórnia, é um caso onde as videiras adquirem potássio dos granitos
Granito: rocha plutônica supersaturada (com excesso de SiO₂) composta essencialmente por quartzo e feldspatos, aos quais, frequentemente, associam-se, em quantidades bem menores, minerais máficos ou félsicos. Rocha plutônica: rocha magmática solidificada em profundidade, geralmente com cristalização lenta que se reflete na textura mais grossa dos cristais formando intrusões plutônicas ou corpos intrusivos. Rocha magmática (ou ígnea): rocha originada de um magma que, ao resfriar, solidifica. Mineral máfico: mineral com teores expressivos de Fe e de Mg. Mineral félsico: mineral de cor clara com teores expressivos de elementos leves, como Si e Al. |
da região. A desintegração física da rocha expõe os constituintes através do intemperismo
| Intemperismo: processo ou conjunto de processos combinados químicos, físicos e/ou biológicos de desintegração e/ou degradação e decomposição de rochas causados por agentes geológicos diversos junto à superfície da crosta terrestre. |
e o granito, ao se intemperizar, converte-se em grãos soltos e minúsculos,
Vermiculita: mineral filossilicato hidratado de ferro e magnésio ((Mg,Ca)₀,₇(Mg,Fe,Al)₆,₀[(Al,Si)₈O₂₀)](OH)₄·8H₂O) do grupo das micas. Mica: mineral que possui estrutura lamelar, o que permite sua separação em lâminas finas e flexíveis. |
ficando mais facilmente sujeito a novas reações. Ao final, ≈2% do potássio original é liberado às videiras em forma dissolvida [
Maltman, 2013].
A complexidade da produção de uvas e vinhos se deve ainda a fatores climáticos, incluindo as variações de temperatura e de chuva [next-generation, 2019].

Vinícola Concha y Toro
| Concha y Toro: vinícola do Vale do Maipo, hoje uma das maiores referências do vinho mundial, tem presença em mais de 135 países e mais de 12 mil hectares de vinhedos no Chile, na Argentina e nos EUA. Dona de marcas icônicas como Casillero del Diablo, Don Melchor e Marqués de Casa Concha, figura entre as dez maiores vinícolas do planeta e já recebeu prêmios como “Marca de Vinho Mais Admirada do Mundo” pela revista Drinks Internacional. Situada no sopé, na base da Cordilheira dos Andes, a uma altitude de 800 metros acima do nível do mar, os vinhedos do Chile vão até a Isla de Maipo e Talagante a sudoeste de Santiago. A região tem um clima temperado quente, verão seco de dezembro a março, com temperatura média máxima de 25 °C. É influenciada pelo anticiclone do Pacífico, que determina uma concentração de chuvas entre os meses de abril e setembro. Tem solos de origem vulcânica que, por serem fracos em nutrientes, proporcionam uma carga homogênea de frutos na planta |
tendo os Andes ao fundo, na região de Puente Alto,
| Puente Alto: município chileno, localizado nos arredores de Santiago no Chile, 650 metros acima do nível do mar, no sopé da Cordilheira dos Andes, em uma das áreas com mais oscilação térmica e mais frias do Vale do Maipo. Está associado a vinhos chilenos como Don Melchor, Almaviva, Viñedo Chadwick e o Marqués de Casa Concha Heritage. |
no Chile. Esta região apresenta temperaturas geralmente entre 2 e 29ºC e considerável variação de chuvas [kupi_weather, 2026].
(Crédito da imagem: Fsanchezs).
4. O legado da geologia
As relações entre os minerais e o conteúdo inorgânico do vinho acabado são complexas e indiretas tornando difícil a análise das possíveis "impressões digitais", em nível químico, a respeito da proveniência do vinho. Além da mineralogia e de outros fatores, há ainda mais a considerar, como a microbiologia
| Microbiologia: estudo de organismos microscópicos, abrangendo a pesquisa fundamental sobre a bioquímica, fisiologia, biologia celular, ecologia, evolução e aspectos clínicos dos microrganismos. |
e a própria atividade humana no tratamento das vinhas, que são rotineiramente podadas, fertilizadas e irrigadas. Com tantas influências em jogo, estudos aprofundados para avaliar a real contribuição da geologia ao vinho continuam sendo necessários [Maltman, 2013; Maltman, 2018].
De qualquer forma, em climas quentes, propensos a secas nos verões, o solo ganha importância para a qualidade do vinho, embora ainda predomine, nestes casos, o cultivo propriamente dito das videiras. Por outro lado, nos climas mais frios, uma combinação de fatores geomorfológicos
| Geomorfologia: estudo interdisciplinar e sistemático das formas de relevo, suas paisagens e os processos da superfície terrestre que as criam e modificam. |
e geológicos podem ter influência fundamental. Mesmo assim, apenas raramente a rocha-mãe
Rocha-mãe: rocha fresca ou sã que dá origem aos solos locais e que ocorre exposta em afloramentos ou subjacente ao capeamento do solo (regolito), de capas lateríticas e de outras coberturas residuais ou de pequeno transporte. Regolito: capeamento natural das rochas (manto de intemperismo), inconsolidado, composto por fragmentos de rocha e solo, incluindo solo transportado, solo autóctone, depósitos residuais. Laterita: solo fortemente lixiviado por intemperismo químico que se desenvolve em climas tropicais a temperados úmidos. É pobre em nutrientes e com alta concentração residual de hidróxidos de Fe e Al. |
tem sido reconhecida como relevante influência direta constatada na qualidade do vinho [Huggett, 2006].

Vinhedos na região vinícola portuguesa do Douro.
Alguns pontos, quanto à contribuição do leito rochoso, podem ser destacados [Huggett, 2006]:
- Em períodos de seca, a alta porosidade e a baixa permeabilidade (tanto no solo como na rocha subjacente) trazem vantagens. Além do calcário,
Calcário: rocha sedimentar carbonatada composta essencialmente por carbonato de cálcio. Rocha carbonatada: qualquer rocha em que o componente carbonático (geralmente calcita e/ou dolomita ) constitua mais de 50% da rocha. Calcita: mineral carbonato de cálcio (CaCO₃). Dolomita: mineral carbonato de cálcio e magnésio (CaMg(C0₃)₂). |
que proporciona porosidade e permeabilidade ideais para a viticultura de forma consistente, também trazem benefícios os xistos e os granitos profundamente intemperizados e fraturados. Exemplos:
- No Douro, em Portugal, as regiões com xisto, que é mais fraturado, são preferidas em relação às de granito, embora ambas sejam ricas em potássio.
- A qualidade dos melhores vinhos de Coonawarra,
| Coonawarra: região localizada no canto sudeste da Austrália Meridional, também conhecida como Costa Calcária. É reconhecida como Indicação Geográfica (IG). Sofre influência marítima devido à ressurgência de correntes oceânicas frias em determinadas épocas do ano. É considerada a principal produtora de Cabernet Sauvignon na Austrália, sendo famosa por seus solos Terra Rossa. |
do sul da Austrália, tem sido amplamente atribuída à existência de uma estreita faixa de solo de laterita
| Laterita: solo fortemente lixiviado por intemperismo químico que se desenvolve em climas tropicais a temperados úmidos. É pobre em nutrientes e com alta concentração residual de hidróxidos de Fe e Al. |
chamado Terra Rossa.
| Terra Rossa: estreita faixa de solo laterítico na região de Coonawarra, que recobre a Formação Padthaway, do Pleistoceno Superior. Apresenta alta permeabilidade, permitindo que o excesso de chuva penetre no calcário subjacente, que também é altamente permeável. Mesmo após chuvas intensas, o excesso de água é drenado e o calcário da Formação Padthaway retém umidade para as videiras, mesmo durante meses sem precipitação. |
Este solo cobre a Formação Padthaway
Formação Padthaway: calcário constituído por dolomitos lacustres e lagunares, calcário, argilito e arenito. Situado sob o Terra Rossa, sofreu intensa dissolução. O que resta atualmente apresenta porosidade global é elevada, talvez superior a 30%, muito maior do que a esperada no calcário inalterado. Infere-se que a permeabilidade da matriz seja altamente variável. As condições de drenagem nesta região são ideais para as videiras. Dolomito: rocha carbonatada cujo constituinte principal é a dolomita (CaMg(C0₃)₂). Argilito: rocha sedimentar de granulação fina, constituída por argilas e minerais na fração de silte, maciça, pouco ou não estratificada. Argila: material constituído de partículas com menos de 1/256 mm de diâmetro. Silte: material constituído de partículas menores do que os de areia fina e maiores do que os de argila, correspondendo a um diâmetro entre 1/256 a 1/16 mm. |
do Pleistoceno Superior. O calcário Padthaway sob o Terra Rossa é altamente poroso, com permeabilidade variável, permitindo condições ideias de drenagem e de manutenção de umidade para as videiras mesmo durante meses sem chuva. - O calcário domina em Clos de la Roche,
| Clos de la Roche: vinhedo Grand Cru situado na comuna de Morey-Saint-Denis, na Côte de Nuits, Borgonha, na França. É caracterizado por seus solos finos e rochosos, que obrigam as videiras a se esforçarem e a produzirem frutos correspondentemente concentrados. Os vinhos de Clos de la Roche são celebrados por sua complexidade estrutural, unindo harmoniosamente intensidade robusta, elegância refinada e profundidade aromática. Normalmente, requerem um envelhecimento significativo em garrafa para revelar todo o seu potencial. |
na Borgonha, onde o solo tem apenas 30 cm de profundidade, com poucos cascalhos, mas com grandes blocos de rocha. Este solo é sobrejacente a um leito rochoso duro e fraturado constituído por calcário do Bathoniano (Jurássico médio) com intercalações de marga
| Marga: rocha sedimentar de composição mista, constituída em parte por sedimentos carbonáticos e em parte por sedimentos clásticos formados principalmente por silicatos de granulação fina. |
que proporcionam retenção hídrica essencial. Seu vinho é considerado amplo e rico, com tons terrosos [Grizzo, 2022; grapeminds_clos, 2024; winewithseth_clos, 2026].
- Não são adequadas as condições onde o leito de rocha é inclinado e impermeável, como no caso dos xistos não fraturados. Nestes casos, a drenagem através da rocha é muito lenta e a maior parte da água, por escoamento superficial, leva consigo o solo.
- A abundância de K+ (cátion
Cátion: íon com carga positiva. Íon: átomo ou molécula que possui carga elétrica devido à perda ou ganho de elétrons. |
potássico) nos solos, que está presente principalmente em feldspatos potássicos
Feldspato potássico: feldspato que contém potássio, podendo ser: (i) Ortoclásio, um importante mineral tectossilicato que forma rochas ígneas; (ii) Microclina, quimicamente idêntica à ortoclásio, diferindo na estrutura cristalina; (iii) Sanidina, feldspato potássico de alta temperatura; (iv) Adularia, variedade de ortoclásio de baixa temperatura mais ordenada ou variedade de microclina parcialmente desordenada; ou (v) Amazonita, variedade verde de microclina. Tectossilicato: classe de minerais que se caracterizam por uma estrutura cristalográfica de tetraedros de SiO4 resultando em uma estrutura cristalina fortemente unida. |
e micas,
| Mica: mineral que possui estrutura lamelar, o que permite sua separação em lâminas finas e flexíveis. É constituída como silicato de alumínio hidratado com cátions como Mg, Fe, K, Li e outros, caracterizando várias espécies minerais. Apesar de ocorrer, geralmente, em teores menores, é um constituinte muito comum das rochas da crosta terrestre. |
é vantajosa para as videiras, sendo essencial para o desenvolvimento das uvas. O potássio influencia o crescimento da videira, a composição das bagas,
| Baga: fruto que (i) tem três camadas carnudas e distintas; (ii) tem duas ou mais sementes; e (iii) desenvolve-se a partir de uma única flor que contém um único ovário. |
bem como a qualidade do mosto e do vinho. A deficiência de potássio reduz a transpiração da videira [Villette et al, 2020; Sperling et al, 2024]
- A mineralogia tanbém dá sua contribuição, por exemplo, no caráter particular e na robustez dos vinhos de Moulin-a-Vent,
| Moulin-a-Vent: uma das comunas mais tradicionais de Beaujolais. Situada no alto de uma colina, ao redor de um antigo moinho de 300 anos, o vinhedo repousa sobre solos de granito rosa com manganês, ideais para a expressão da uva Gamay. É um Grand Cru que produz os vinhos mais potentes e encorpados de Beajoulais.. |
em Beaujolais,
| Beaujolais: região conhecida pelos vinhos tintos leves e aromáticos da uva Gamay, como o famoso Beaujolais Nouveau. Localiza-se entre o sul da Borgonha e o Norte da região do Rhône, sendo conhecida por seus vinhos tintos frutados e acessíveis, mas também por seus Crus mais complexos e estruturados. A variedade de casta emblemática da região é a Gamay Noir à jus Blanc, que responde pela maior parte da produção. O granito rosa (cor dada pelo alto teor de feldspato) sob Beaujolais não é apenas um pano de fundo para a viticultura, é o autor de cada nota aromática pela qual a região é conhecida. |
na França, que podem ser atribuídos à presença de granito rico em manganês, óxido de ferro e sílica. Esta rocha reflete a luz solar e retém o calor, contribuindo para um amadurecimento mais uniforme das uvas [dutchwineapprentice_moulin, 2025].

Vinhedos na região vinícola sul-africana de Stellenbosch.
| Stellenbosch: cidade situada a ≈50 km da Cidade do Cabo, na África do Sul, é a segunda mais antiga cidade deste país. É reconhecida internacionalmente por suas lindas paisagens combinadas a vinícolas, restaurantes, prédios históricos e clima universitário. |
Nesta região do Cabo, os vinhedos têm a proximidade de montanhas do granito (ao fundo na imagem) da Suíte Cape Granite.
Suíte Cape Granite (ou Complexo Granítico do Cabo): rocha que surgiu durante a subducção da crosta oceânica Adamastor sob a África. Cristalizando-se em enormes batólitos arredondados entre 550 e 515 milhões de anos atrás. Foram expostos por prolongados soerguimento e erosão. É constituído por um granito de granulação grossa composta por grandes cristais brancos (2-8 cm) de feldspato, quartzo vítreo e lascas pretas de biotita, além de inclusões de fragmentos de xisto de Malmesbury, incorporados a uma rocha escura recristalizada chamada hornfels. Hornfels (ou cornubianito): rocha de metamorfismo de contato com aspecto de chifre (horn), sem orientação preferencial, textura fina e de grãos concatenados. |
Os solos da região são derivados deste granito e também de arenito
Arenito: rocha sedimentar clástica cujas partículas são dominantemente do tamanho de areia (0,62 a 2,00 mm de diâmetro). Rocha clástica (ou detrítica): rocha constituída, em sua maior parte, por fragmentos que restaram de rochas e/ou minerais pré-existentes, provenientes do intemperismo e erosão de rochas pré-existentes. |
do Grupo Table Mountain
| Grupo Table Mountain: compreende o Arenito Table Mountain, uma espessa seção de formações rochosas ricas em quartzo dentro da sequência de rochas do grupo. |
[stellenboschcabernet, 2023].
Em geral, vinhos de solos rochosos
| Solo rochoso: solo formado predominantemente por rochas, o que lhe confere alta resistência e baixa deformação. Não se movimenta com a umidade nem sofre grandes variações ao longo do tempo. Encontrado em grande variedade, como os de xistos do Douro (Portugal) e Côte-Rôtie (Rhône-França) ou os de ardósia do vale do Mosel (Alemanha), e ainda de seixos ou cascalhos, como em Graves (Bordeux-França) e Châteauneuf-du-Pape (Rhône-França). As rochas em geral facilitam a drenagem da água pelo solo e quando na superfície retém o calor do sol. |
tendem a ser mais frescos, mais claros e mais finos do que os vinhos de solos argilosos.
| Solo argiloso: é um dos mais comuns. É composto por partículas extremamente pequenas, o que faz com que tenha alta capacidade de retenção de água. Em épocas secas, pode contrair e rachar. As pequenas partículas de argila retém a água da chuva durante um prolongado período de tempo. Funciona bem para plantio de vinhedos em regiões quentes, dando origem a vinhos tintos e brancos de grande ousadia. |
Estes podem produzir vinhos com textura mais rica e com menos acidez. Dentre os diversos tipos de rochas estudados, merecem nota os seguintes [Maltman, 2013; Behr, 2024]:
- Anfibolito:
Anfibolito: rocha metamórfica de grau médio a alto que tem a associação característica de hornblenda e plagioclásio. Pode ser derivado de rochas ígneas básicas, como o basalto, ou de rochas sedimentares, como calcários impuros. Hornblenda: mineral do grupo dos anfibólios, com fórmula Ca₂(Mg,Fe)₄Al[Si₇AlO₂₂](OH)₂. Plagioclásio: grupo de minerais de fórmula geral (Na,Ca)Al(Si,Al)Si₂O₈. |
presente em importantes partes da região vinícola de Muscadet,
Muscadet: vinhedos situados a sudeste de Nantes, na França, em uma região com clima temperado oceânico, com variações sazonais de temperatura moderadas, diferenças significativas na insolação de ano para ano e precipitação atlântica que influencia o caráter da safra e os níveis de acidez. Os solos variam consideravelmente sobre substratos cristalinos e metamórficos com boa drenagem, que aquecem rapidamente e contribuem com a salinidade mineral. Os vinhedos mais próximos da costa atlântica por vezes apresentam uma subtil qualidade salina atribuída à influência marítima. Utiliza uma casta de uva branca conhecida como Melon de Bourgogne. O vinho branco que produz surgiu nos vinhedos de Nantes, no século XVII. Muscadet: vinho branco e seco, produzido inteiramente a partir da variedade de uva Melon de Bourgogne. Apresenta belo volume na boca, aromas de cítricos, como limão ou lima, e maçã verde crocante. É altamente ácido e tem uma textura cremosa e uma cor amarelo-pálido com reflexos verdes |
na França.
- Ardósia:
| Ardósia: rocha metamórfica de grau muito baixo caracterizada pela granulação muito fina, pouco brilho, cristalinidade baixa e clivagem característica. |
por ser escura, tem uma excelente capacidade para armazenar calor, sendo ideal em climas mais frios. Seu solo é rico em minerais e ocorre em muitos lugares na Europa, porém tem reconhecimento mundial pelos vinhos na França e pelo Riesling,
Riesling: uma das variedades de uvas brancas mais emblemáticas da viticultura mundial. No século XV na região do Alto Reno, na Alemanha, já são encontrados registros que mencionavam o cultivo desta variedade nas margens frias do rio, onde o clima fresco permitia longo amadurecimento das uvas. Riesling: vinho reconhecido pela alta acidez, longevidade e capacidade de refletir o terroir, desempenhando papel único entre os vinhos brancos. Seja seco, meio-seco ou doce, consegue expressar nuances que vão de cítricas e minerais até notas tropicais e melosas, sempre com frescor vibrante. |
de Mosel,
Mosel: região de encostas íngremes, clima frio e forte associação com solos de ardósia. É uma origem clássica para Rieslings de alta acidez, perfume, baixo a moderado álcool e extraordinário potencial de guarda. Potencial de guarda (de um vinho): potencial da quantidade de tempo em que o vinho consegue se manter em seu auge para ser degustado. |
na Alemanha.
- Basalto: dá origem a solo fértil estando associado a numerosos vinhedos ao redor do mundo, como de Somlo Hill,
Somlo Hill: menor região vinícola da Hungria que se ergue sobre antiga colina vulcânica, produzindo vinhos brancos de guarda com reputação lendária. Os solos do vulcão extinto favorecem a produção de vinhos com mineralidade e alta acidez. As vinhas das variedades Juhfark e Furmint crescem em solos basálticos que conferem um caráter salino e pedregoso único, encontrado em nenhum outro lugar do mundo. Potencial de guarda (de um vinho): potencial da quantidade de tempo em que o vinho consegue se manter em seu auge para ser degustado. |
na Hungria, de Madeira,
| Madeira: ilha que produz vinhos únicos, com história desde 1450, de altíssima qualidade. Com presença de marcante acidez e excelente frescor, são vinhos únicos no mundo todo devido à intensa incidência solar, alta temperatura e ao processo de oxidação lenta, em cascos de madeira antigos. Reúne sabores de especiarias, aromas etéreos, frutas cristalizadas e néctar. A grande variação topográfica, chegando a até 2 mil metros de altitude em alguns pontos da ilha, compõe declives intensos onde o cultivo de uvas só é possível com a construção de socalcos (degraus) com cultivos, principalmente, em solos vulcânicos. A ilha portuguesa apresenta diferentes microclimas, tendo algumas áreas clima úmido e árido, enquanto outras apresentam verões intensos e invernos amenos. O solo da ilha da Madeira é caracterizado como argiloso, além de apresentar matéria orgânica e ferro em abundância, o que o torna ácido. |
na ilha da Madeira, e de Islas Canarias,
| Islas Canárias: região de vinhos reconhecidos pela sua singularidade, devido à natureza vulcânica do solo e ao clima subtropical da região. Caracteriza-se pela utilização de castas autóctones, algumas das quais não se encontram em mais nenhum lugar do mundo devido à ausência de uma praga que devastou muitas vinhas na Europa no século XIX. Cada uma das ilhas do arquipélago produz vinho, com Tenerife na vanguarda graças à sua grande variedade de microclimas e solos vulcânicos. As técnicas de cultivo utilizadas nas ilhas também são únicas. Em Lanzarote, por exemplo, as vinhas são plantadas em buracos protegidos por muros de pedra para reter a umidade e protegê-las do vento. |
nas Ilhas Canárias. Em geral, o solo de basalto produz vinhos com uma acidez bastante apreciada. - O basalto, ao se decompor, transforma-se em partículas finas de silte e argila pulverulentos e, como resultado, seus solos podem ter ótima retenção de umidade, além de maior fertilidade. Isto pode resultar em maior vigor e produtividade aos vinhedos [sommselect, 2022].
- Calcário: seu solo armazena bem a água sem permitir que se acumule, garante baixas temperaturas que retardam a maturação das uvas e proporcionam uma boa acidez.
- Comparado com outros tipos de rochas, o calcário produz solo geralmente com menor teor de ferro. Por isto, é mais propício ao cultivo de uvas brancas, que requerem menos ferro do que as uvas tintas [Huggett, 2006].
- No norte da Europa, os mares eram excepcionalmente ricos em algas microscópicas com esqueletos de calcita cujos restos se acumularam em calcário e beneficiaram alguns vinhedos em Champagne, na França, e outros no sudeste da Inglaterra
| Sudeste da Inglaterra: região onde ocorre giz e calcário com origem na mesma formação do Cretáceo Superior encontrada nos vinhedos de Champagne. A formação de giz de Newhaven, do Grupo Chalk, continua sob o Canal da Mancha e ressurge no norte da França, criando uma química do solo e propriedades de drenagem intimamente relacionadas, que sustentam a produção de vinhos espumantes de alta qualidade em ambas as regiões. |
[winewithseth_chalk, 2026]. - Em solo argilo-calcário, a vinícola francesa Château Beauséjour
| Château Beauséjour: vinhedo localizado nas encostas de solo argilo-calcário mais altas da França, sobre um substrato rochoso calcário, na margem direita do rio Dordogne, no topo da encosta da Montagne Saint Émilion, a 4 km de Saint Émilion. O vinhedo abrange 12 hectares, divididos entre Merlot (70%) e Cabernet Franc (30%). O solo argilo-calcário é quente, ideal para o amadurecimento do Merlot. |
está localizada em platô calcário, na região vinícola de Bordeaux
| Bordeaux: uma das regiões vinícolas mais famosas e prestigiadas do mundo pela qualidade e tipicidade dos vinhos produzidos. Caracteriza-se pela sua diversidade, com suas 60 denominações e ≈6.600 viticultores. Produz principalmente uma maioria de vinhos tintos com as castas Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc, mas também vinhos brancos secos, licorosos e espumantes. Os vinhedos de Bordeaux estão enraizados no sudoeste da França, no departamento de Gironde. Estendem-se ao redor do estuário do Gironde e de dois rios (o Dordogne e o Garonne), que lhes proporcionam um ecossistema hídrico favorável. Sua proximidade com o Oceano Atlântico garante um clima oceânico temperado. |
[vin-vigne_beausejour, 2015; chateau-beausejour, 2023; vins-saint-emilion, 2023].

Pinot Noir
Pinot Noir: uva que provavelmente se originou na região entre Genebra e Borgonha, na França, e está difundida por todo o mundo. Esta casta é conhecida desde o século IV na Borgonha que, por esta razão, é reconhecida como berço da Pinot Noir. É considerada muito sensível, o que significa que até as mais ligeiras diferenças no solo ou no clima determinam a qualidade do vinho. O nome desta uva, que significa literalmente "pinha negra", descreve com precisão o formato compacto e cônico dos cachos, de bagos escuros e próximos. Pinot Noir: vinho tinto leve com um conjunto intenso de aromas de frutas vermelhas (cereja, morango, framboesa) e notas florais, picantes e terrosas. É geralmente vinificado a seco, ou seja, todo o açúcar é fermentado em álcool durante o processo de fermentação. |
de Côte d'Or,
| Côte d'Or: zona vinícola mais prestigiada da Borgonha, estendendo-se por 60 a 65 km de Dijon a Santenay, na França. Divide-se em duas sub-regiões: Côte de Nuits, ao norte, para Pinot Noir estruturado, e Côte de Beaune, ao sul, para Chardonnay elegante e vinhos tintos mais leves. Seus 32 vinhedos Grand Crus representam o ápice da classificação da Borgonha. As encostas voltadas para o leste, com altitudes entre 200 e 450 metros, proporcionam a incidência ideal da luz solar matinal. Os solos são de calcário jurássico com marga, argila e cascalho, variando drasticamente em curtas distâncias. |
em solo de calcário, na França.
- Granito: seu solo armazena bem o calor e garante a redução da acidez natural das uvas, sendo ideal para as mais ácidas. É um importante tipo de solo francês na Alsácia,
| Alsácia: região na fronteira da Alemanha com a França e próxima do importante rio Reno e da cadeia de montanhas Vosges. Produz grandes vinhos brancos, todos muito característicos, que não encontram paralelo em nenhuma outra região do mundo. As castas principais adquirem aqui um caráter único e especial. São vinhos que podem ser muito finos, complexos e de grande classe. Nesta região os solos graníticos se manifestam em grandes Rieslings. |
em Beaujolais, em grande parte do norte do Rhône
| Norte de Rhône: região com os melhores solos ígneos do mundo vinícola. O feldspato do seu granito contêm muito potássio, um nutriente importante para as vinhas. Diferenciando-se dos calcários e gizes de outras regiões vinícolas, o solo granítico tende a ser bastante ácido e mais arenoso, mantendo a boa drenagem, evitando o encharcamento das vinhas. Resultam, assim, vinhos menos flácidos e mais concentrados. |
e em Cornas.
Cornas: região do norte de Rhône, na margem direita do Ródano. É conhecida por seus vinhos tintos encorpados e concentrados, elaborados exclusivamente com a uva Syrah. O solo granítico confere a esses vinhos taninos firmes e grande potencial de envelhecimento. Tanino: composto antioxidante, principal componente do vinho, especialmente do vinho tinto. Embora seja mais conhecido pela sensação de secura na boca, também influencia a longevidade e o caráter do vinho. |
Está presente também em vinhas em áreas ao redor de Stellenbosch, na África do Sul.
- Marga: seu solo faz com que as videiras geralmente amadurecem mais tarde. É importante na região italiana do Piemonte.
Piemonte: região do noroeste da Itália, aos pés dos Alpes, que produz alguns dos tintos mais estruturados do mundo. Destaca-se pela uva Nebbiolo, que origina vinhos com grande potencial de guarda e taninos firmes. O clima continental temperado, com grandes amplitudes térmicas e proteção alpina, desenvolve acidez vibrante e aromas complexos nas uvas. Um clima continental com nevoeiro outonal abranda a maturação do Nebbiolo em solos predominantemente de marga calcária e misturas argilo-arenosas. Tanino: composto antioxidante, principal componente do vinho, especialmente do vinho tinto. Embora seja mais conhecido pela sensação de secura na boca, também influencia a longevidade e o caráter do vinho. Potencial de guarda (de um vinho): potencial da quantidade de tempo em que o vinho consegue se manter em seu auge para ser degustado. |

Vinhedos de Langhe,
| Langhe: região italiana localizada no coração do Piemonte, mundialmente conhecida por sua produção de vinhos de alta qualidade. Constitui colinas declaradas Patrimônio Mundial pela UNESCO e oferece um local ideal para o cultivo de uvas finas. A região é geologicamente privilegiada por solos do Tortoniano e do Serravalliano (Mioceno), compostos por margas azuis (constituídas por calcário e areia) que dão aos vinhos estrutura e aroma. Em 2026, recebeu "Menzioni Geografiche Aggiuntive", o que torna esta região equivalente italiano à dos "Crus" franceses. O nome "langhe" é o plural de "langa", cuja etimologia é incerta: pode ter origem germânica (com o significado de "longo") ou derivar do dialeto piomontês (com o significado de "língua"), mas, de qualquer forma, sempre fazendo referência às colinas onduladas. |
em Piemonte, Itália.
- Pórfiro:
Pórfiro: rocha ígnea com cristais significativamente maiores (fenocristais) do que os da matriz de granularidade mais fina ou mesmo vítrea. Fenocristal: cristal que cresceu em equilíbrio químico com o magma formador da rocha e que se distingue da matriz. |
produz vinho de baixa acidez. Pode ser encontrado, por exemplo, em Tirol do Sul,
| Tirol do Sul: região que faz parte do Tirol, um estado do oeste da Áustria, localizado em zona climática temperada, com um clima alpino, caracterizado por verões úmidos, outonos secos e invernos com neve. Localizada no Tirol do Sul, Großglockner é a montanha austríaca mais elevada com 3.798 metros de altitude. Estas altitudes alpinas, as noites frescas e o clima mediterrâneo definem o Tirol do Sul como uma região vinícola. Aqui, são produzidos vinhos brancos precisos e vinhos tintos com personalidade. Protegida por picos elevados e cadeias montanhosas na orla sul dos Alpes, Tirol do Sul ocupa uma situação geográfica excepcional com paisagem diversificada e condições geológicas que proporcionam terreno fértil para a biodiversidade. Isso resulta precisamente no blend mineral que se destaca como uma identidade distinta entre as diversas variedades de uva da região. O pórfiro do Tirol do Sul, com seu tom quente e avermelhado, é uma das rochas com maior durabilidade com resistência às intempéries. A duração da atividade do vulcanismo pórfiro do Tirol do Sul, que começou no Carbonífero Superior tardio e continuou no Permiano Inferior, pode ser estimada em ≈20 milhões de anos. A intensa atividade vulcânica moldou vastas áreas da paisagem do Tirol do Sul. Enormes fluxos de lava e tufos formaram o chamado pórfiro de quartzo de Bolzano, que hoje se encontra exposto em grande parte da região. |
na Áustria, e em Nahe,
| Nahe: uma das menores regiões vinícolas da Alemanha cuja paisagem é caracterizada por topografia com encostas íngremes e afloramentos de rochas metamórficas. Como na maioria das regiões às margens do Reno ou em suas proximidades, seus vinhos mais prestigiados são feitos com a uva Riesling. A topografia ondulada desta região cria diversos climas propícios à viticultura. Os vinhedos encontram-se próximos ao rio Nahe, que desempenha papel importante na regulação da temperatura e na prevenção de geadas prejudiciais. O clima temperado é caracterizado por baixa pluviosidade, muitas horas de sol e temperaturas amenas a frias. A orientação dos vinhedos é amplamente utilizada pelos viticultores de Nahe para controlar e maximizar a exposição solar. O pórfiro da região é constituído por rochas marrom-avermelhadas escuras encontradas na porção central do vale do Nahe. São rochas remanescentes de poderosos fluxos de lava de ≈290 milhões de anos atrás. A cobertura de lava se estendeu por várias centenas de quilômetros quadrados e atingiu até 300 metros de espessura. Os solos facilmente aquecidos que se desenvolvem sobre o pórfiro são muito rasos e não retêm bem a água. Os vinhos Riesling desenvolvem aromas exóticos característicos, assim como a acidez frutada vibrante e elegante. Os vinhos de maturação tardia são caracterizados por sua mineralidade e longevidade, enquanto os Rieslings doces nobres cativam com sua interação entre frutado, acidez e doçura. |
na Alemanha.
- Quartzito:
| Quartzito: rocha metamórfica cujo componente principal é o quartzo (>75% como ordem de grandeza). Comumente é originada do metamorfismo de arenitos quartzosos. |
o pH elevado do seu solo pode reduzir a acidez dos vinhos e sua propriedade de retenção de calor acelera o amadurecimento das uvas, proporcionando um maior teor de álcool. É encontrado em locais como Chateauneuf-du Pape.
| Chateauneuf-du Pape: vinícola do Vale do Rhône, na França, que se destaca pela combinação entre clima, solo, tradição e liberdade de composição. Utiliza diferentes variedades de uva, o que dá aos produtores a possibilidade de criar vinhos complexos, profundos e cheios de camadas. Produz Les Quartz, vinho com tom vermelho brilhante, valorizado por delicados reflexos carmim. Provém de solos arenosos cobertos de seixos rolados de quartzito. Esta configuração geológica única, aliada a um subsolo bem drenado, confere às vinhas uma mineralidade distintiva. |
- Xisto: rocha estratificada que geralmente absorve o calor durante o dia e o libera à noite. Possui boa drenagem e é resistente às intempéries e à erosão. Muitas vezes produz vinhos marcantes e de boa intensidade, como tintos e brancos concentrados, marcados por aromas florais e uma forte mineralidade.
| Mineralidade (ou expressão mineral): fenômeno que existe somente em nossa mente captado na taça de vinho na forma de percepção sensorial relacionada ao aroma ou à textura do vinho. Sugere minerais, rochas ou quaisquer componentes relacionados ao solo. Frequentemente ocorre na presença de expressões mais sutis, como notas forais ou outras sensações. |
Em solos íngremes, o xisto é excelente para reter tanto calor quanto água, como no Priorat.
| Priorat: localizada entre as montanhas do nordeste da Espanha, esta região vinícola fica a 145 quilômetros a sudoeste de Barcelona, na província catalã de Tarragona. É uma região de paisagens acidentadas celebrada por alguns dos vinhos mais intensos e conceituados do mundo. Tem produzido vinhos tintos extremamente potentes, concentrados e longevos. Suas uvas são cultivadas em locais de verões longos, secos e quentes e invernos frios, apresentando geadas intensas e até mesmo queda de granizo. |
O xisto fraturado e laminado permite que as raízes da videira penetrem nas fendas em profundidade. Além de Priorat, o xisto está associado a regiões vinícolas como Languedoc
| Languedoc: vinhedos que, no sul da França, estendem-se entre o Mar Mediterrâneo e as colinas de Cévennes. Abrangem de oeste a leste, entre Carcassonne e Nîmes, cobrindo assim grande parte da Occitânia e marcando presença nos departamentos de Aude, Gard e Hérault. Em Languedoc, 70.000 hectares de vinhas dão origem a uma ampla gama de denominações de origem, cuja hierarquia está em constante transformação. Estes vinhedos estão localizados na maior e mais antiga região vinícola da França que abrange ≈240.000 hectares, tendo origens que remontam ao século V aC. A produção de vinho de Languedoc é amplamente dominada pelos tintos, com mais de 70%. As principais castas são Syrah, Grenache Noir, Mourvèdre e Cinsault. Já entre os brancos, a Chardonnay é a variedade predominante. Muitas outras castas são cultivadas no Languedoc, visto que a região tem procurado desenvolver variedades locais adaptadas ao clima. É beneficiada com um clima mediterrâneo ideal para o cultivo da vinha, com verões quentes e secos e invernos amenos. É conhecida pela diversidade dos seus solos, que variam entre argilo-calcários e xistosos, viabilizando sua grande variedade de vinhos. |
e Vale do Loire,
| Vale do Loire: vale mais conhecido pelos seus castelos, testemunhas imponentes da história da França. Mas as margens do Rio Loire abrigam alguns dos vinhedos mais importantes da França. Com mais de 55.000 hectares de vinhedos e ≈800 quilômetros de rotas de vinho, o Vale do Loire é a terceira maior região vinícola do país. São vinhedos muito produtivos devido à diversidade de solos e climas da região e à influência das marés do rio Loire. O clima oceânico dos vinhedos de Nantes (que fazem parte do Vale do Loire), na extremidade oeste do Rio Loire, dá lugar gradualmente a um clima mais continental à medida que vão sendo percorridos os vinhedos de Anjou, Saumur e Touraine, chegando finalmente ao Centro-Loire, que desfruta dos verões mais quentes. As vinhas são nutridas por um solo que apresenta principalmente rocha vulcânica, calcário e solo argiloso. Essas combinações criam uma grande diversidade nos vinhos do Vale do Loire. Incluindo tinto, branco e rosé, entre outros, os vinhos do Vale do Loire apresentam uma paleta de cores. Os brancos incluem tons verde-amarelados, amarelo-limão, palha e dourados. Os rosés variam entre rosa-acinzentados, laranja, rosa-salmão e até mesmo tons de framboesa, enquanto os tintos vão do vermelho-púrpura ao marrom-chocolate escuro. E, ainda, há os espumantes brancos e rosés. |
na França, e Vale do Douro, em Portugal [wineenthusiast, 2022; xaviervignon, 2023].
A combinação certa de casta,
| Casta: variedade específica de uva usada na produção de vinho que possui características únicas, como sabor, aroma, acidez e cor, que acabam contribuindo para a personalidade distintiva do vinho produzido. |
solo e clima pode produzir um vinho com uma personalidade forte e única. Porém, em geral, diferentes castas de uva prosperam em diferentes tipos de solo e grandes vinhos são produzidos em uma ampla diversidade de solos e, em decorrência, de rochas [Leeuwen et al, 2018; climadiff_soil_grape, 2024]. Destacam-se os seguintes exemplos de uvas:
- Beaujolais: encontrada, na França, em regiões com rochas sedimentares, metamórficas e graníticas [monocepage_beaujolais, 2020; geopark-beaujolais, 2021; beaujolais_pierres_dorees, 2025].
- Gamay:
Gamay: uva originada (há alguns séculos) da Pinot Noir e da pouco conhecida uva branca Gouais Blanc. Pertence à vasta família de uvas da Borgonha. Seu nome completo é "Gamay noir à jus blanc" ("Gamay tinta com suco branco"), devido à casca ser escura e a polpa e o suco serem claros. Esta denominação a distingue de outra Gamay com polpa vermelha. Os vinhos produzidos por ela apresentam uma acidez relativamente alta e podem ser leves tanto na cor quanto nos taninos. Tanino: composto antioxidante, principal componente do vinho, especialmente do vinho tinto. Embora seja mais conhecido pela sensação de secura na boca, também influencia a longevidade e o caráter do vinho. |
na França, associa-se intimamente ao granito de Beaujolais, mas é apreciada também nos solos vulcânicos de Châteaugay
| Chateaugay: região de quase 100 hectares com vinhas cultivadas há muito tempo nas encostas voltadas para o sul e para o leste. Quando Napoleão I estabeleceu o primeiro cadastro de terras, em 1809, todas estas encostas estavam cobertas de vinhas. O vinhedo sofreu com praga de insetos, doença das plantas, eventos climáticos extremos e com a Primeira Guerra Mundial. Em 1978 recebeu o selo Vin Délimité de Qualité Supérieure que motivou os vitivinicultores. Em 1929, os viticultores obtiveram a denominação "Côteaux de Châteaugay", posteriormente denominada Côtes d'Auvergne Châteaugay, a fim de destacar a especificidade deste "grand cru de Auvergne". Em um subsolo calcário coberto por cinzas vulcânicas, Gamay é a principal casta cultivada, vinificada principalmente como vinho tinto, mas também como rosé. A casta Chardonnay também é utilizada para vinho tinto, juntamente com uma pequena quantidade de Pinot Noir. A colheita é feita manualmente. O vinho tinto de Châteaugay tem uma cor rubi profunda, desenvolvendo aromas frutados com especiarias. É elegante e equilibrado no paladar. O Châteaugay rosé desenvolve aromas cítricos, tem um sabor fresco e frutado. O Châteaugay branco possui aromas frutados, é longo no paladar, muito aromático e elegante. |
em Côtes d'Auvergne
| Côtes d'Auvergne: região cujos vinhedos existem pelo menos desde a época romana e, ao longo dos séculos, cresceu, sofreu declínio e ressurgiu no final do século XX. Culminou com a confirmação do status de AOC em 2010 para vinhos tintos, brancos e rosés do departamento de Puy-de-Dôme, na França. Suas uvas são cultivadas em encostas vulcânicas, solos basálticos, graníticos e argilo-arenosos, e as variedades permitidas na denominação incluem Gamay e Pinot Noir para vinhos tintos e rosés, e Chardonnay para vinhos brancos. Um aspecto único de Côtes-d'Auvergne é a forte influência de solos vulcânicos, incluindo basalto, fluxos de lava e cinzas vulcânicas. |
[beaujolais_gamay, 2020; châteaugay, 2026]
- Muscadet: encontrada, na França, em regiões com diversos tipos de rochas metamórficas e plutônicas [labivin_muscadet, 2011; muscadet_geologie, 2024].
- Pinot Noir: obviamente tem sucesso nos solos finos de calcários de Côte d'Or, na França, mas prospera também no espesso aluvião do Vale do Bio Bio,
| Vale do Bio Bio: uma das regiões vinícolas mais ao sul (36°S) do Chile com fama crescente desde o início do novo milênio. Situa-se a 435 quilômetros ao sul da capital chilena, Santiago, entre a Cordilheira dos Andes e a Cordilheira da Costa. A região apresenta grande incidência de ventos, chuvas e variações climáticas do que a maior parte do restante do país. O clima frio (e a longa estação de crescimento que ele proporciona) é adequado ao desenvolvimento de aromas complexos em vinhos brancos. Há excelente ambiente para variedades como Riesling, Gewürztraminer e Viognier. O solo da região, formado por deposição hídrica, é predominantemente aluvial e seus principais constituintes são argila e areia. |
no Chile, nos xistos de Otago,
| Otago: divisão administrativa na Ilha Sul da Nova Zelândia com cordilheiras, lagos glaciais e o rio Clutha que atravessa vários sistemas de vales. A região de vinícolas, que são próximas umas das outras, situa-se em terreno montanhoso característico proporcionando clima, exposição solar e altitude únicosa cada vinícola. As montanhas imponentes são cobertas de neve e rios cristalinos estão aninhados em desfiladeiros profundos (território da corrida do ouro no século XIX). A Pinot Noir floresce na região chamada Central Otago, mas Otago também é conhecido pela produção de excelentes vinhos Chardonnay e aromáticos. |
na Nova Zelândia, e ainda nos solos basálticos e sedimentares do Vale do Willamette,
| Vale do Willamette: no oeste do Oregon, é uma das AVAs (Áreas Vitícolas Americanas) mais importantes dos EUA fora da Califórnia. Partindo da cidade de Portland, estende-se por 190 km ao longo do vale do rio Willamette, abrangendo ≈1,3 milhão de hectares. A Pinot Noir é, de longe, a variedade mais popular e de melhor desempenho nestes vinhedos, frequentemente comparada às suas equivalentes da Borgonha. O clima no Vale pode ser considerado marítimo, com a brisa do oceano penetrando por uma série de brechas nas montanhas. A chuva cai principalmente no inverno, e os longos e secos verões, com bastante sol e noites mais frescas, proporcionam condições excelentes para o amadurecimento das vinhas. Geologicamente, o vale é um mosaico moldado por milhões de anos de forças naturais. A antiga atividade vulcânica da Cordilheira das Cascatas produziu o leito rochoso de basalto e os solos Jory, ricos em ferro. Posteriormente, foram depositadas camadas de sedimentos marinhos. Esta convergência de solos vulcânicos e sedimentares proporciona uma drenagem excepcional, fertilidade moderada e perfis minerais complexos, condições essenciais para a produção de vinhos com as nuances apreciadas. |
no Oregon, EUA [willamettewines_pinot_noir, 2020; newzealandwineauthority_otago, 2026; rimontgowineries_bio-bio, 2026; winewithseth_cote-dor, 2026].
- Riesling: está associada a muitos dos solos escorregadios do Vale do Reno
| Vale do Reno: vale onde o rio que corre por ele atravessa desde a Alsácia, no norte da França, passando por Nahe, Rheinhessen, Mosel, Pfalz e Baden, na Alemanha. Forma a espinha dorsal das regiões vinícolas da Alemanha, que são o berço de alguns dos vinhos brancos mais distintos do mundo. Seus vinhos receberam o apelido de "vinho do Reno", embora não seja esta uma denominação de origem. A Riesling é talvez a uva mais famosa cultivada no Vale do Reno. Sua reputação foi construída em torno de um vinho branco doce, mas ela também pode ser usada para fazer um vinho seco. A região é dominada por solos de ardósia do Devoniano. Riesling traduz o solo de ardósia em forma líquida. |
e do Mosel, na Alemanha. Há quem diga que os vinhos Riesling estão associados a ardósia, porém, na Alsácia, há Rieslings de classe mundial produzidos em arenitos, calcários, conglomerados,
Conglomerado: rocha sedimentar clástica composta por fragmentos com mais de 2mm de diâmetro (grânulos, seixos, matacões), misturados em maior ou menor quantidade com matriz arenosa e/ou mais fina e cimentada por carbonato, óxido ou hidróxido de ferro, sílica e/ou por argila ressecada comumente. Rocha clástica (ou detrítica): rocha constituída, em sua maior parte, por fragmentos que restaram de rochas e/ou minerais pré-existentes, provenientes do intemperismo e erosão de rochas pré-existentes. |
granitos, rochas vulcânicas e ainda outras.

A comunidade de Graach
| Graach: vila localizada na região vinícola do Mosel, na Alemanha. É conhecida pelos seus vinhos brancos de classe mundial feitos com a casta Riesling. Há 135 hectares de vinhedos plantados quase exclusivamente com essa variedade de uva. A região faz parte de uma extensa encosta de ardósia que se eleva acima da margem direita do Rio Mosel. Esta encosta voltada para sudoeste domina a vila e é perigosamente íngreme, ondulando ao longo dos ≈1,5 quilômetro da margem do rio. O solo tem origem em ardósia do Devoniano cinzenta e intemperizada, mais pesado e com maior teor de argila do que o da área circundante. É um local que produz vinhos ricos com aroma de pêssego e excelente potencial de envelhecimento. |
e as vinhas de Riesling no vale do Mosel, na Alemanha.
5. O legado do terroir
A palavra francesa terroir não tem equivalente em nenhum outro idioma. É um dos termos mais usados no mundo dos vinhos e provavelmente um dos menos compreendidos principalmente pelos leigos. Deriva do latim popular "terratorium", uma alteração do latim clássico "territorium" ("território" em português
), que por sua vez deriva do latim clássico "terra" ("terra" também em português
). Já o radical francês "terr" (que tem origem no latim "terra") está presente tanto em "terre" ("terra" ou "solo" em francês) quando em "terrain" ("terreno" também em francês), o que faz sentido na expressão "le gout de terroir", que pode ser traduzida livremente como "o gosto do lugar" [Doppenberg, 2017; wine_terroir, 2021; dictionnaire_terroir, 2024].
Em 1999, o geólogo inglês Jake Michael Hancock (1928-2004) definiu terroir como [
Huggett, 2006]:
"uma área privilegiada com sua própria geologia e seus próprios clima e métodos de viticultura".
Terroir sempre foi um termo polêmico. Em 2003, o cientista de solo australiano Robert Edwin White (nascido em 1937) afirmou [
Huggett, 2006]:
"Muitos cientistas admitem que não podem expressar quantitativamente a relação entre o terroir e as características dos vinhos produzidos a partir desse terroir".
O termo terroir carrega implicitamente a tendência de associar os sabores do vinho a aspectos do solo ou do leito rochoso, mas nem tudo é místico. Há casos em que a associação pode ser deduzida. A uva Cabernet Sauvignon,
Cabernet Sauvignon: variedade de uva tinta de origem francesa. Sua adaptabilidade permite produzir estilos variados de vinho conforme clima, solo e técnica de vinificação. Surgiu do cruzamento natural entre Cabernet Franc e Sauvignon Blanc na região de Bordeaux, França. A variedade expandiu-se globalmente devido à sua adaptabilidade a diferentes climas e técnicas de cultivo. Cabernet Sauvignon: vinho conhecido pelo corpo estruturado, taninos firmes e boa capacidade de envelhecimento. Tem cor rubi intensa, com reflexos violáceos, aromas de Frutas escuras (amora, cassis) e notas herbáceas e especiarias. Seu paladar é encorpado, tendo acidez equilibrada. É o vinho tinto mais popular do mundo famoso por sua capacidade de envelhecimento. Teve origem em Bordeaux, na França, e atualmente é considerado um vinho internacional. Tanino: composto antioxidante, principal componente do vinho, especialmente do vinho tinto. Embora seja mais conhecido pela sensação de secura na boca, também influencia a longevidade e o caráter do vinho |
cultivada nas Areias do Golfo de Lion,
| Areias do Golfo de Lion: Indicação Protegida "Sables du Golfe du Lion", que é uma denominação de origem emergente na região de Languedoc-Roussillon, na França. Localizada ao longo da costa mediterrânea, esta região vinícola beneficia-se de um clima quente e ensolarado, temperado pelas brisas marítimas do Golfo de Lion. Os solos arenosos, ricos em minerais, conferem aos vinhos uma frescura e salinidade únicas, ideais para os apreciadores de vinhos de verão. É produzida uma variedade de vinhos tintos, brancos e rosés. As castas predominantes incluem Grenache, Syrah e Merlot para os tintos e rosés, bem como Vermentino e Roussanne para os brancos. Graças a essas castas, os vinhos exibem aromas frutados e florais, com uma adorável vivacidade no paladar. |
na França, produz um vinho que é descrito como tendo sabores de algas marinhas que encontram justificativa na alta concentração de cloreto de sódio das planícies de areia onde se localiza o vinhedo. Há outras associações, entretanto, que carecem de comprovação, como um suposto caráter "pedregoso" do Riesling que seria derivado de solos com sílex, xisto e ardósia [
Huggett, 2006].
As substâncias precisam estar dissolvidas em água para que uma planta as absorva. Ou seja, o que chega às raízes das videiras não é, por exemplo, a ardósia ou a mica, mas os íons elementares,
Íon elementar: átomo que perdeu ou ganhou elétrons. Não é poliatômico. Íon: átomo ou molécula que possui carga elétrica devido à perda ou ganho de elétrons. Íon poliatômico: conjunto discreto de átomos que possuem carga. |
como os de potássio ou cálcio, reduzidos delas. Tais substâncias, utilizadas como nutrientes pelas plantas, não carregam as características das rochas ou dos minerais que, além do mais, são geralmente insípidos e inodoros. Provavelmente, quem identifica "mineralidade" no sabor ou na textura de um vinho, revelando características descritivas de minerais ou rochas, está falando em sentido poético [
Adams, 2019].
O conceito de terroir, entretanto, ganhou em 2014 uma contribuição significativa em nível científico para ampliar o reconhecimento de sua efetividade. Na Califórnia, pesquisadores conseguiram provar que uvas de uma mesma região, ou de uma mesma variedade, costumam estar associadas aos mesmos micro-organismos, como bactérias e fungos. Eles demonstraram que a biogeografia microbiana tem uma associação não aleatória com a uva, em zonas vitícolas, quanto a fatores regionais, varietais e climáticos [Bokulich et al, 2013; tintosetantos_terroir, 2021].
Vinho "la nit de les garnatxes" ("a noite das grenaches",
| Grenache (ou Garnacha): uma das variedades mais importantes da viticultura mundial. Presente na elaboração de vinhos tintos, rosés e fortificados, ela conquistou reconhecimento por sua versatilidade, adaptabilidade e pela qualidade dos vinhos que produz. Originária da região da Espanha e posteriormente difundida pela França e por outras partes do mundo, a Grenache tornou-se uma das uvas mais cultivadas do planeta. Sua capacidade de se adaptar a diferentes condições climáticas e participar de diferentes estilos de vinho faz com que seja uma protagonista em diversas regiões produtoras. |
traduzido do catalão). Este vinho da Vinícola Celler de Capçanes,
| Celler de Capçanes: cooperativa vinícola localizada na Denominação de Origem Montsant, em Tarragona. Fundada em 1933, esta vinícola evoluiu para se tornar referência na produção de vinhos de alta qualidade, especialmente reconhecida por suas garnachas de vinhas velhas e sua aposta pioneira no vinho kosher. Cercada por uma paisagem mediterrânea de vinhedos em terraços, a vinícola combina tradição e tecnologia para elaborar vinhos que refletem o terroir da região. |
de Barcelona, Espanha, tem em seu rótulo (em catalão) a marcação de sua procedência de solo sobre rochas cujas opções são: (i) argila, (ii) alcaçuz
| Alcaçuz: erva perene nativa da região do Mediterrâneo, do centro ao sul da Rússia e da Ásia Menor ao Irã, sendo hoje amplamente cultivada em toda a Europa, Oriente Médio e Ásia. Tem ação anti-inflamatória, antioxidante, antimicrobiana, sendo usada para ajudar no tratamento de problemas no estômago, inflamação e doenças respiratórias. |
("LLicorella"), (iii) calcário ("calissa", que é o caso do vinho da foto) e (iv) arenito, que é identificado pela textura favo de mel
Favo de mel: tipo de textura (resultante de intemperismo) constituído por tafoni. Ocorre com mais frequência em arenitos cimentados por calcita, que é solúvel em água. Lembra favos de mel. Tafoni: pequenas aberturas arredondadas e de bordas lisas na superfície de rocha geralmente encontrada em desertos áridos ou semiáridos. É formada quando a umidade penetra na rocha porosa, dissolvendo o cimento (calcita) e depositando-o na superfície como cristais quando evapora. Singular: tafone. |
("Panal") [vivino_capcanes, 2026].
Embalado pelo sabor das polêmicas, o conceito de terroir cola-se charmosamente aos rótulos dos vinhos e às propagandas das vinícolas [Maltman, 2013]. Exemplos:
- rótulos com a indicação de proveniência:
- de "Terre Calcaire" ("solo calcário") no vinho Octoglaive,
| Octoglaive: vinho de uma variedade de uvas constituída por Pinot Noir (40%), Merlot (25%), Syrah (25%) e Gamay (10%), com teor de álcool de 13,5%. Apresenta cor vermelho intenso e aromas de cerejas pretas e ameixas secas, seguidos por notas de especiarias e couro. Sabor generoso com taninos aveludados e final longo. |
da Domaine Cornulus
Domaine Cornulus: vinícola de vinhos biodinâmicos de Valais, na Suíça, em diversas comunas consideradas zonas de Grand Cru, no Vale do Rhône. Produz vinhos brancos secos com clara expressão de origem, tintos encorpados das castas Syrah e Valais, além de vinhos doces. Os vinhedos estão localizados em terraços individuais espalhados por diversas comunas, com diferentes altitudes, exposições e tipos de solo, desde morenas a solos xistosos e calcários. A altitude proporciona noites frescas que preservam o frescor e a tensão dos vinhos, apesar de todo o sol. Vinho biodinâmico: vinho que segue os princípios da agricultura biodinâmica, considerando a propriedade como um organismo vivo, integrado e autorregulado. Vai além do orgânico ao incorporar preparados naturais e observação dos ciclos astronômicos. Morena (ou Moraina): acumulação de detritos rochosos glaciais mal classificados carregados pelas geleiras. Em inglês: moraine. |
[moevenpick_octoglaive, 2022]; ou - explicitamente no nome:
- no vinho Bouchon Granito Sémillon
| Bouchon Granito Sémillon: vinho branco da uva Sémillon com expressão de solo originado de granito de mais de 120 milhões de anos. Tem origem no quartel 1 do vinhedo Batuco, localizado no interior do Valle del Maule chileno. Suas vinhas, plantadas na década de 1940, não recebem irrigação e tem colheita manual. Após a fermentação em barricas de carvalho o vinho estagia durante 12 meses o que garante estrutura e complexidade aromática ao branco. Apresenta cor amarelo palha com reflexos esverdeados. Sua graduação alcóolica é 13,5%. Seu sabor é de médio corpo, com grande acidez e final de boca complexo, marcado por frutas cítricas e maçãs verdes, notas florais e toques defumados e de baunilha. Tem aroma de frutas cítricas, como lima e grapefruit (toranja), frutas brancas, como maçã verde e peras e notas herbáceas de flores brancas, além de toques defumados e de baunilha. É produzido pela Bouchon e foi selecionado como o melhor vinho da uva Sémillon. |
do Valle del Maule,
| Valle del Maule: região chilena com a maior quantidade de vinhedos plantados no país. Está situada no sul do Valle Central chileno, estendendo-se desde a área costeira, passando pelo interior fértil do vale, até o sopé da Cordilheira dos Andes. Seus verões são quentes e secos, o que favorece a maturação das uvas, principalmente na parte interna do vale. Em geral, o clima é um pouco mais ameno do que nas regiões mais ao norte do Valle Central, traduzindo-se em vinhos um pouco mais leves e com sabores de frutas mais frescas. Sofre influência dos ventos frios que descem da Cordilheira dos Andes criando significativa variação de temperatura entre o dia e a noite e permitindo amadurecimento lento e equilibrado da fruta. A isto se somam os solos: em sua maioria de origem granítica, formados pela lenta decomposição de rochas ao longo de milhões de anos. |
do Chile [worldwine_granito, 2022] ou - no vinho Lagrein Riserva Porphyr
Lagrein Riserva Porphyr: vinho da uva Lagrein plantada em solos arenosos e pedregosos, bem drenados. Sua uva é colhida e selecionada manualmente e tem desengace seguido de fermentação lenta do mosto em tanques de aço inoxidável, com temperatura controlada e agitação suave. É fermentado e amadurecido em barricas por 18 meses. Apresenta cor rubi profunda e impenetrável com reflexos violeta. Revela aromas que lembram cereja morello e mirtilo, com notas de alcaçuz, grãos de café, baunilha, cravo e chá preto, o que o torna simultaneamente picante e frutado. Na boca, o vinho é harmonioso, com sabores muito compactos e concentrados, em múltiplas camadas, combinando fruta suculenta com elementos picantes e apimentados, e uma leve nota adocicada de chocolate amargo, finalizando com taninos sedosos. Desengace: processo que consiste na remoção dos talos (ou engaços) dos cachos de uva, transformando essencialmente os cachos inteiros em bagas individuais. É uma alternativa ao esmagamento. |
da vinícola Terlan,
| Terlan (ou Terlano): vinícola com vinhedos que se aninham como terraços ensolarados em pórfiro vermelho de origem vulcânica. Um tipo de pórfiro de quartzo de Bolzano, compreende uma sequência de lavas ácidas e produtos de erupção vulcânica com camadas sedimentares intermediárias. A alta proporção de terrenos íngremes nas encostas íngremes do Monte Tschöggl exige mais trabalho manual, mas também é a base do grande potencial dos terroirs de Terlano. O foco está no cultivo do maior número possível de vinhas velhas e vigorosas, para que o potencial dos terroirs atinja sua expressão máxima nos vinhos. O caráter que distingue a vinícola é produto da combinação de solos vulcânicos e um microclima muito especial. |
da Itália [vivino_porphyr, 2026].
- propagandas de vinícolas ou de vinhos em que é apresentada a possibilidade de se sentir "le gout de terroir":
- pelo "sabor da lava, dos lapili
| Lapili: pequenos fragmentos angulares a arredondados piroclásticos com 2 a 64 mm de diâmetro que foram ejetados do vulcão já no estado sólido ou ainda em fusão. |
e das cinzas que sepultaram Herculano e Pompeia", como na vinícola Terredora Di Paolo,
| Terredora Di Paolo: uma das maiores vinícolas do sul da Itália, localizada na província de Avellino, produz vinhos com personalidade distinta devido ao seu microclima único. A altitude em que os vinhedos se encontram, o solo e as flutuações térmicas desenvolvem vinhos intensos e elegantes, com aromas complexos. É uma das vinícolas mais representativas do sul da Itália, com mais de 180 hectares de propriedade em Irpinia, no interior da Campânia. Os vinhedos estão localizados em área privilegiada, com solo argiloso-calcário misturado com cinzas vulcânicas. |
da Itália, em vinho da denominação de origem Lacryma Cristi del Vesúvio
Lacryma Cristi del Vesúvio: vinho cujo nome "Lacryma Christi" vem de antigas lendas. A mais famosa conta que Lúcifer, ao cair no inferno, levou consigo um pedaço do paraíso. Jesus viu o paraíso roubado no Golfo de Nápoles e chorou copiosamente. Dessas lágrimas, nasceram os vinhedos de Lacryma Christi. Pode ser tinto ou branco. Lacryma Cristi del Vesúvio Rosso: vinho elaborado com a uva Piedirosso plantada em solo vulcânico, cultivada na denominação próxima ao vulcão Vesúvio, proveniente de vinhedos selecionados em Montemarano, Lapio e Mirabella Eclano, na Itália. Combina suculentas notas de frutas vermelhas com um toque mineral e terroso. É vinificado em cubas de aço por cerca de 15 dias com temperatura controlada e maturado em garrafa durante alguns meses. A combinação de notas de frutas maduras e um ótimo frescor, deixa o vinho bastante gastronômico, combinando bem com uma variedade de pratos da culinária italiana. Tem teor alcoólico de 12,5%. Lacryma Cristi del Vesúvio Bianco: vinho branco de uva "Coda di Volpe Biancha" ("Rabo de Raposa Branca") cultivada na região de Campania, na sul da Itália, nas proximidades do Vesúvio. Apresenta uma cor amarelo-palha e notas de frutas maduras, pêssego branco, pera e o aroma típico de alcaçuz. É um vinho bem estruturado e equilibrado, com delicadas notas frutadas e minerais. Tem teor alcoólico de 12,5%. |
[terredora_lacryma, 2021]; - com "um mosaico de solos – anfibolito, ortognaisse,
| Ortognaisse: rocha que resulta do metamorfismo de uma rocha ígnea. Frequentemente deriva de um granitoide. |
arenito e quartzo – que dão aos vinhos da propriedade seu caráter distintivo" na vinícola Jo Landron,
| Jo Landron: vinícola localizada em La Haye Fouassière, na denominação Muscadet Sèvre et Maine no vale do Loire, na França. Tem o objetivo de produzir diferentes estilos de vinhos. Os Muscadets mostram distintas capacidades de envelhecimento, uma complexidade individual e identidades minerais únicas dependendo da aparência, das características geológicas e do perfil de rendimento de cada parcela. Uma área de ≈50 hectares é plantada principalmente com Melon de Bourgogne e ≈7 hectares com Folle Blanche, Pinot Noir, Chardonnay e Montils. A planície de Sèvre, onde os vinhedos estão dispersos, constitui um mosaico de solos antigos e muito distintos entre si. |
na França [leditvin_landron, 2026]. - pelo "cheiro de pedra triturada" nos vinhos do Priorat que crescem sobre a ardósia (com camadas de xisto preto e avermelhado e partículas de mica incrustadas) da região de Tarragona,
| Tarragona: província da Comunidade Autônoma da Catalunha, na Espanha, localizada na costa do Mar Mediterrâneo, a 93 quilômetros ao norte de Barcelona. É a capital comercial e econômica da Catalunha do Sul. Foi a primeira e mais antiga colônia romana na Península Ibérica. Apresenta um traçado romano singular, devido a uma série de terraços artificiais que acompanham o relevo natural do terreno e a monumentos de grande densidade e qualidade. Tarragona é conhecida por produzir vinhos de alta qualidade. As longas horas de sol na área resultam em vinhos excelentes que não são apenas doces, mas também cheios de sabores ricos. É a região vinícola com Denominação de Origem mais extensa da Catalunha. Estende-se da fronteira com Penedes até os vinhedos de Terra Alta, no sudoeste, e é cercada pelo Mar Mediterrâneo de um lado e pelas Cordilheiras Costero Catalinas do outro. Os vinhedos de El Camp estão localizados em uma altitude que varia de 40 m perto da costa a 195 m ao pé da Cordilheira. A camada superior do solo consiste principalmente de argila com calcário e a camada inferior consiste de rochas sedimentares aluviais. A parte sudoeste, abaixo do enclave do Priorato, de Falset às vinhas de Terra Alta, está localizada em uma altitude mais elevada, em torno de Falset, os vinhedos crescem a uma altitude de 450 m, e no oeste, no Vale do Ebro, cerca de 105 m. O solo perto de Falset consiste em uma camada subjacente de granito coberta por argila e calcário, e no Vale do Ebro, de rochas sedimentares aluviais. O clima de Tarragona é predominantemente mediterrâneo, mas os verões são um pouco mais frios em altitudes mais altas. Chove principalmente na primavera e no outono, enquanto os verões são quentes, secos e bastante longos. Os invernos são amenos no vale e mais rigorosos acima, onde prevalece um clima quase continental. |
na Espanha [kavasoft_priorat, 2026]; e - nos vinhos de Brouilly,
| Brouilly: denominação de origem controlada para vinhos principalmente tintos produzidos em vinhedos no centro-norte de Beaujolais. São produzidos vinhos relativamente robustos e encorpados, mais frutados do que muitos outros vinhos Crus de Beaujolais. As castas brancas Chardonnay, Aligoté e Melon de Bourgogne podem representar 15% da área plantada. Esta área vitivinícola abrange terras em seis comunas ao redor do Mont Brouilly com grande variação de terroir. Ao longo da fronteira oeste da denominação, há solos finos e arenosos com leito rochoso de granito. No sul, o solo passa a ser mais argiloso. No norte e leste, o solo é mais de transição, apresentando inclusive alguns depósitos aluviais de calcário. As colinas a oeste de Beaujolais protegem a região do clima mais frio vindo do oeste permitindo uma leve influência refrescante do Mar Mediterrâneo ao sul. |
na França, que "extraem seu aroma de um solo particularmente rico, composto de granito rosa, marga e calcário azul" [beaujolais_brouilly, 2026].
Não é por acaso que a famosa frase do escritor britânico Robert Louis Stevenson (1850-1894), "The wine is bottled poetry" ("O vinho é poesia engarrafada"), adorna a entrada de
Napa Valley,
na Califórnia, EUA [
Carl, 2016].
Entrada de Napa Valley (destacando a frase ...and the wine is bottled poetry...) no condado de Napa, uma região vinícola da Califórnia, EUA.
(Crédito: Aaron Logan).
Falar em terroir significa juntar, somar e engarrafar um conjunto de fatores como topografia, geologia, pedologia, drenagem, clima, microclima, castas, intervenção humana, cultura, história e tradição. Le gout de terroir só pode ser entendido quando solo, clima e videira são considerados simultaneamente [wine_terroir, 2021].
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A participação da geologia na história e no sabor da cerveja
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