12 de fevereiro de 2018

O que é que a Esmeralda Bahia tem?

Por Zelaznog Ocram

A Esmeralda Bahia (por Adpt)


A pedra conhecida como Esmeralda Bahia é uma canga constituída por xisto com esmeraldas incrustadas. Seu preço é inestimável.

Se essa pedra falasse, teria muitas histórias para contar: quatorze indivíduos ou entidades e um país, o Brasil, alegam ser seus proprietários; provocou diversas ações judiciais; uma residência foi incendiada; três pessoas se declararam falidas; uma afirma ter sido sequestrada e mantida refém; foi guardada ou escondida em garagens, depósitos e galpões e ficou desaparecida submersa na inundação do furacão Katrina... Muitos dos envolvidos dizem que o esmeralda é o próprio inferno, mas não conseguem se desapegar dela. 


O garimpo, as onças e o dinheiro

As primeiras esmeraldas no Brasil foram descobertas na década de 1960 na serra da Carnaíba, na Bahia. Para extraí-las é preciso cavar poços e galerias que chegam até 500 metros de profundidade. Em locais que parecem formigueiros, os garimpeiros enfrentam as rochas com dinamite, britadeira, marretas e picaretas. Eles respiram fuligem e se sujeitam a desabamentos porque uma gema pode ser vendida por até U$ 5 mil.


Garimpo Marota (por ibahia)

Em 2001, na Serra da Carnaíba, sertão da Bahia, no município de Pindobaçu, um garimpeiro desconhecido desenterrou uma canga em uma das escavações do garimpo de Marota. Era a Esmeralda Bahia. Dizem que o garimpeiro a vendeu por R$ 10 mil a um intermediário e este a revendeu a Élson Ribeiro e seu sócio, Ruy Saraiva, por R$ 45 mil. 



Há uma testemunha que conta que quem tocava o garimpo era o Jairzão, mas Saraiva sempre frequentava o local. Também diz que a pedra foi vendida para Ribeiro e Saraiva por R$ 8 mil juntamente com outras, mas não tem certeza. Ribeiro confirma este valor, mas quando eu soube disso o esquema acima já havia sido desenhado. Além disso não há nenhuma garantia de que esta seja a verdade e não aquela.

O que importa é que no caminho de Marota até Pindobaçu, a mula que puxava a carroça com a Esmeralda Bahia foi atacada por panteras (onças pretas) e se transformou na primeira vítima desta história. De qualquer forma, a pedra chegou ao destino, mas teve de ser carregada manualmente em uma espécie de maca. Posteriormente, voando pela Varig, ela chegou a São Paulo e foi guardada em uma garagem na cidade de Guarulhos. 

Para esta história ganhar contornos internacionais, neste momento entra nela um sócio de Ribeiro e Saraiva, chamado Kenneth Conetto, um geólogo meio siciliano que morava em San Jose, na Califórnia. Este sócio procurou alguém que tivesse dinheiro e, ainda em 2001, encontrou o californiano Tony Thomas. Conetto propôs que Thomas comprasse a pedra por um preço baixo para revendê-la com um bom lucro. O californiano ficou entusiasmado e os dois voaram para São Paulo.

A falsa saída do Brasil

Thomas garante que comprou a pedra por US$ 60 mil. Conta que teve que voltar aos EUA em seguida pois recebera um telefonema informando que seu filho havia quebrado o braço, mas jura que, ao chegar nos EUA, realizou a transferência dos US$ 60 mil ao Brasil. Afirmou também que Conetto ficara de lhe enviar a pedra, mas ela nunca chegou. Estranhamente, Thomas não buscou informações no FedEx para saber o que havia acontecido com a remessa tão valiosa. Por sua vez, Conetto nega a compra e a promessa de envio. 


Thomas alegou não poder comprovar a compra pois os documentos referentes a ela haviam sido queimados no incêndio de sua residência. Também aproveitou para denunciar que Conetto foi o causador deste "acidente".

Do Brasil para as águas do Katrina em 2005

Na versão de Conetto, ele acertou com os brasileiros Ribeiro e Saraiva que os três dividiriam o lucro da venda. Conetto, por outro lado, fez também um acordo com o americano Larry Biegler dando-lhe os direitos de vender a pedra com a promessa de dividirem o valor obtido meio a meio.

Conetto relata que, em 2005, finalmente enviou a pedra para San Jose, Califórnia, com valor declarado de US$ 100. Ela saiu do Brasil pelo aeroporto de Viracopos, em Campinas, SP.

De posse da pedra, Biegler contatou um comerciante de gemas de Nova York e lhe prometeu 10% do preço de venda se ele conseguisse mais de US$ 25 milhões por ela. Esse comerciante postou a esmeralda no eBay e teve uma oferta de US$ 19 milhões, mas Biegler recusou este valor tão baixo.



Enquanto isso, a Esmeralda Bahia foi enviada para um geólogo e empresário de mineração no norte da Califórnia para análise que, posteriormente, a enviou para Nova Orleans com a justificativa de que havia lá um comprador em potencial. 

Mas eis que aparece o furacão Katrina e inunda o galpão onde a pedra estava guardada. A Esmeralda Bahia ficou desparecida e submersa por semanas até que finalmente foi encontrada por um mergulhador. 

Esmeralda x diamantes


Em 2007, Biegler pediu ajuda para outro meio siciliano chamado Jerry Ferrara, que trabalhava no mercado imobiliário, e lhe prometeu participação na venda da pedra. Como os protagonistas desta história não morrem de tédio, numa negociata paralela, Ferrara e Biegler venderam diamantes para um americano de Idaho chamado Kit Morrison. Era uma transação de US$ 1,3 milhão e a Esmeralda Bahia entrou como garantia do negócio. 

Como, é claro, os diamantes não apareceram, esta brilhante confusão fez a Esmeralda Bahia ir morar em um depósito internacional da Commonwealth, na Califórnia, até que fosse vendida. Mais tarde, no tribunal, Ferrara e Biegler afirmaram que somente eles e Morrison tinham acesso ao tal depósito.

Chegando ao cobre da polícia em 2008

Quando o caso estava perdendo a graça, em 2008, Biegler encenou seu próprio sequestro. Ele enviou mensagem a Ferrara pedindo dinheiro para pagar seu resgate e se libertar das garras de um caudilho brasileiro que o havia sequestrado. Acontece que, nesta época, Ferrara já sabia que Biegler era, na verdade, um encanador californiano, e não um homem rico e polido que parecia ser. 

Traído e furioso, Ferrara avisou Morrisson e levaram a Esmeralda Bahia em direção a Las Vegas. Ao saber disso, Biegler telefonou para a polícia de Temple City, em Pasadena, e denunciou Ferrara e Morrison como suspeitos do roubo da pedra. Também revelou que havia sido sequestrado e liberado pela máfia brasileira.

No mesmo ano, a polícia encontrou Morrison que aceitou fazer um acordo. Ele entregaria a pedra ao departamento de polícia se ele e Ferrara não fossem presos. Assim foi feito e a Esmeralda Bahia foi parar no departamento de polícia de Los Angeles.




Julgamentos entre 2007 e 2017

De 2007 a 2015, aconteceram inúmeras batalhas legais: Conetto processou Morrison, Thomas processou Conetto, o negociante de gemas de Nova York processou Biegler. E, nessa época, Biegler desapareceu.

Em 2011, foi rejeitada a reivindicação de propriedade em favor de Thomas e ele pediu novo julgamento que se iniciou em 2013. 

Em 2011 também, o Departamento de Imigração, Alfândega e Aduana dos EUA informou ao Ministério da Justiça do Brasil que a pedra havia entrado ilegalmente no país. Em seguida, a Procuradoria-Geral da República (PGR) iniciou investigação sobre o caso. Na época, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) confirmou que a pedra apresentava características geológicas próprias da região de Carnaíba e que os envolvidos não possuíam autorização para explorar esmeraldas na região. A Receita Federal, por sua vez, constatou que a exportação fora fraudulenta, com documentos tratando de remessa de betume e asfalto sem valor comercial.



Na terra natal da Esmeralda Bahia, em 2015, em processo criminal na Justiça Federal de Campinas, São Paulo, o Ministério Público Federal (MPF) apresentou denúncia e os acusados Ribeiro e Saraiva, como réus, responderam por evasão de divisas, transporte ilegal de patrimônio público da União, sonegação de imposto de exportação, entre outros crimes. A busca e apreensão da pedra foi determinada.

Na terra do Tio Sam, em 2015, o Tribunal Superior de Los Angeles concedeu a Esmeralda Bahia à FM Holdings, formada por Ferrara, Morrison e outro empresário de Idaho chamado Todd Armstrong. Porém, antes de a pedra ser liberada, o Tribunal do Distrito de Columbia concedeu liminar recebida pelo Departamento de Justiça em nome do Brasil. 

Assim, a Advocacia-Geral da União (AGU), com o auxílio da PGR e do DNPM, conseguiu o bloqueio da Esmeralda Bahia até a conclusão do julgamento de Campinas. O objetivo seria evitar que a pedra, considerada patrimônio nacional brasileiro, fosse entregue à FM Holdings.

Em 2017, a AGU obteve decisão na Justiça Federal em Campinas que condenou os dois acusados (Ribeiro e Saraiva) de enviar ilegalmente a pedra aos EUA. Foi declarado o perdimento da peça em favor da União e ordenada a expedição de mandado de busca e apreensão para repatriar a Esmeralda Bahia. O pedido se oficializou por meio de acordo de cooperação firmado com o Departamento de Justiça dos EUA.

Conclusão (ou quase)

Atualmente, sob a custódia da polícia de Los Angeles, a Esmeralda Bahia é considerada um espécime mineral raro, sendo desconhecida a existência de outra peça com as suas características. Ela tem valor científico e cultural inestimável e, uma vez devolvida ao Brasil, deve ser destinada a museus, estabelecimentos de ensino ou outros fins científicos.

Uma avaliação da Esmeralda Bahia solicitada pela justiça americana estimou seu valor em US$ 400 milhões devido às suas condições de raridade. Seu valor comercial, entretanto, não chegaria nem perto disso: ela é composta por várias esmeraldas de pouco valor, que não poderiam ser lapidadas e transformadas em joias.

Conforme informação da polícia de Los Angeles, a Esmeralda Bahia pesa 751.77 libras (aproximadamente 341 kg - embora já tenham lhe dado 380 kg). Este dado e todos os demais registrados aqui são verídicos, pelo menos foram reproduzidos tal qual os envolvidos os relataram.

Também é verdade que já foram extraídas três grandes cangas com esmeraldas da Serra da Carnaíba: a primeira foi a Esmeralda Bahia, a segunda tem 360 kg e foi avaliada em R$ 300 milhões e a terceira  pesa 137 kg e mede 60 cm de altura, tendo valor estimado em R$ 500 milhões.

De qualquer forma, seria bom que nunca mais fosse desenterrada outra Esmeralda Bahia. Isto fica evidente quando se observa que uma mula morreu, Thomas pediu falência durante o processo e dois brasileiros foram condenados. Alem disso, eu, quando elaborava este texto, inadvertidamente apaguei todos os arquivos de fotos e figuras deste blog e tive que recuperar tudo com grande paciência, esforço e dificuldade. 

Espero sinceramente que não aconteça nada com você e, inclusive, peço-lhe desculpas de ter feito este alerta somente agora. Afinal, você não precisava ter lido o que leu.

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