5 de dezembro de 2017

Cobalto: entre fantasmas e duendes, na busca por energia limpa

Por Marco Gonzalez


Uma das minas históricas em Cobalt (por Canadian Register of Historic Places)

Era uma vez um ferreiro canadense que, em 1903, ao tentar afugentar uma raposa, acabou acertando uma pedra com seu martelo. A lasca da pedra revelou um material com brilho prateado identificado como nicolita, o arsenato de níquel. Geólogos foram ao local e relataram "pedaços de prata nativa tão grandes quanto tampas de fogão ou bolas de canhão deitadas pelo chão, bem como nicolita e flores de cobalto". 

Naquela região do ferreiro sem mira, em Ontário, cresceu e prosperou a cidade mineira que recebeu o nome de Cobalt e, após um período áureo (ou prateado), é atualmente o endereço de apenas 1.100 habitantes. Sua produção histórica contabiliza 18 mil t de prata e 14 mil t de cobalto, tendo as últimas minas locais encerrado as atividades há quase 30 anos. 

Com o aumento da demanda de cobalto, Cobalt está deixando de ser uma cidade fantasma. 


O boom do cobalto

Até recentemente eram frequentes os suprimentos excedentes de cobalto, já que era essencialmente utilizado para endurecer o aço. Porém, sua capacidade de conduzir eficientemente a eletricidade tornou-o fundamental em baterias recarregáveis ​​de alta qualidade. 

Para cada unidade de potência, um carro elétrico necessita de 5 a 15 quilos de cobalto. Somente a Tesla, fabricante canadense de carros elétricos, exigirá 7.800 t de cobalto para as 500 mil unidades anuais do seu Modelo 3S, que pretende produzir em 2018. Esta quantidade é superior a que tem sido minerada anualmente em toda a América do Norte.

Nas próximas duas décadas, a frota global de veículos elétricos poderá chegar a 282 milhões de unidades, o que representa cerca de 16% de todos os carros do planeta atualmente. Com esta tendência, a demanda global por cobalto, até 2030, poderá ser 47 vezes maior que a do ano passado. 

O cobalto passou, assim, a ser considerado a espinha dorsal da "Quarta Revolução Industrial" e, nos últimos 12 meses, seu preço teve um aumento de 150%.

Estimativas conservadoras apontam para um déficit de 20% entre a oferta e a demanda de cobalto até 2025. De onde virá o cobalto necessário?

Reservas e produção de cobalto

Cientistas da American Manganese Inc., em Vancouver, Canadá, afirmam que o processo de reciclagem de baterias defeituosas aliviaria a pressão pela mineração de cobalto e lítio e seria suficiente para alimentar a quantidade atual de veículos elétricos. Entretanto a demanda irá crescer e continuaremos, no caso do cobalto, dependentes da reserva mundial que foi estimada em 2016 em 7 milhões de t.


Reservas conhecidas de cobalto em 2016 (fonte)
- A reserva brasileira é de 2014 (fonte) -

A República Democrática do Congo (RDC), antigo Zaire, fornece 63% do cobalto mundial e a previsão é de que esta participação cresça para 73% até 2025.


Produção de Cobalto em 2016 (fonte)

Em 2014, o total da produção brasileira, 1.350 t de cobalto, foi produzido pela Votorantim em Niquelândia, GO, já que as jazidas de níquel e cobalto em Fortaleza de Minas (também da Votorantim), MG, e em Americano do Brasil (da Prometálica, que também produzia cobre), GO, interromperam a produção. Em Niquelândia, o minério de níquel, contendo cobalto como subproduto, é laterítico.

No Brasil, a pesquisa e a produção de cobalto depende da viabilidade de projetos de níquel e cobre, devido sua condição de subproduto desses metais. Pela indefinição do mercado de níquel, dois projetos estão paralisados no Pará: Vermelho, da Vale, em Canaã dos Carajás, e Jacaré, da Anglo American, em São Félix do Xingu. Este último está em fase de estudo de pré-viabilidade para níquel, com previsão de necessidade de investimento de US$ 5 bilhões.

Enquanto isso, em Cobalt, no Canadá, os fantasmas não estão tendo sossego. Recentemente, a canadense LiCo Energy Metals anunciou duas novas minas de cobalto em Cobalt. A First Cobalt Corp iniciou levantamentos geofísicos nas antigas minas Keeley e Frontier locais. A Atacama Resources International recebeu avaliação geológica excelente de sua propriedade no município de Lorrain, próximo a Cobalt. E um programa exploratório de perfuração de superfície da Castle Silver Resources a 200 metros da antiga mina Castle Silver, em Cobalt, encontrou 1,55% de cobalto, 0,65% de níquel, 0,61 g/t de ouro e 8,8 g/t de prata a uma pequena profundidade de 3,85 a 4,5 metros.

Energia limpa

Basta imaginar as condições extremamente sofridas da mineração na época medieval para compreendermos a associação que se fazia dos minérios com fantasmas e demônios. Na mitologia alemã, Kobold e Nickel são dois goblins (seres semelhantes a duendes) que andavam frequentemente juntos. Kobold não era propriamente malvado, mas tinha o péssimo costume de provocar os humanos. Sempre que a prata tornava-se escassa, acreditava-se que Kobold a havia roubado deixando a rocha estéril em seu lugar. 

Numa dessas épocas de escassez, em Schneeberg, na região alemã da Saxônia, um jovem habilidoso, que suspeitavam ser um mago, apresentou-se para tentar fazer reaparecer a prata. Depois de algum tempo, assim como o ferreiro de Cobalt que não acertou a raposa, o jovem habilidoso não encontrou a prata. A única coisa que conseguiu foi produzir um pigmento azul brilhante. Todos em Schneeberg logo perceberam que o jovem não havia encontrado o que procurava, mas havia descoberto um novo e valioso material, o cobalto.


Cobalto oferecido pela mão congolesa em Mbanza (por Trocaire)

Não são necessários grandes esforços de imaginação para termos consciência de que aquelas condições da mineração medieval se repetem de alguma maneira em alguns lugares do mundo, mesmo que as informações não sejam abundantes e acessíveis, ao contrário dos registros da cidade canadense Cobalt. 

Os dados sobre a mineração de cobalto da RDC, além dos oficiais, são pouco transparentes, o setor utiliza trabalho infantil e está, em parte, sob o controle de milícias insurgentes. A dependência de reservas e produção em tais condições, devido a incertezas políticas, legais e éticas, preocupa ainda mais com a tendência prevista de crescimento da demanda.

A preocupação procede. De acordo com a UNICEF, havia cerca de 40 mil crianças trabalhando em minas na parte sul da RDC, em 2012. E, segundo a Anistia Internacional, ainda hoje os esforços das principais empresas de equipamentos eletrônicos e de veículos elétricos não são suficientes para impedir abusos nos direitos humanos cometidos por parte dos fornecedores de cobalto.

Há promessas de manter no setor padrões éticos e socialmente responsáveis e talvez você nem precise trocar o automóvel pela bicicleta, mas, ainda que os fabricantes de automóveis se mostrem conscientes em produzir modelos ambientalmente adequados, resta saber se teremos uma fonte de energia limpa em todos os aspectos. De qualquer forma, antes de pensar em alternativas de vida, lembre-se que o seu celular necessita de cobalto para ter horas de uso sem recarga.

E não esqueça que dois terços dos congoleses vivem com menos de US$ 1,90 por dia e a fome muitas vezes os transforma em caçadores de minério. Ao buscarmos a tão apreciada energia limpa neste contexto, a atividade mineradora com características medievais terá sorte diferente da raposa de Cobalt? Ao contrário do ferreiro, acertaremos onde temos que acertar ao tentar fazer com que a RDC e outros países nessas situações melhorem as condições de trabalho sem aprofundar a miséria ainda mais?


2 comentários:

MCC Carr disse...

Excelente postagem, Marcos. História interessante e de ótima leitura. Parabéns!

victor suckau disse...

Interessante e enriquecedor saber a evolução desta história relacionado ao cobalto...Triste saber das 45 000 crianças trabalhando na extração do minério na RDC.

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