"O presente é a chave para o passado"
James Hutton

22 de julho de 2026

Aquecimento global e forçantes climáticas com fontes externas

Por Marco Gonzalez

Coluna eruptiva do Monte Pinatubo em 12 de junho de 1991, às 8h51, vista do lado leste da Base Aérea de Clark, na região central da ilha de Luzon, em Pampanga, Filipinas.
(Crédito: Dave Harlow/USGS).

Forçantes climáticas com fontes externas incluem fenômenos como impacto de asteroide, Ciclos de Milankovitch, vulcanismo, aerossóis e gases de efeito estufa.

1. Impacto de asteroide

Os efeitos do impacto de um asteroide depende:
  • da sua massa;
  • da velocidade com que atinge a Terra;
  • do ângulo de entrada durante sua descida; e
  • do local onde ele atinge a superfície do nosso planeta. 
Tamanho, frequência, crateras e danos de asteroides.

Grandes asteroides têm potencial de causar grave destruição quando colidem com a Terra, conforme pode ser exemplificado pelo Chicxulub, que caiu no atual México há 66 milhões de anos, causando a extinção em massa de 70% das espécies, incluindo a maioria dos dinossauros.

Por outro lado, sabe-se que asteroides gigantes também podem atingir a Terra e não causar mudanças duradouras no clima, como foi o caso de dois grandes asteroides que caíram há ≈35,65 milhões de anos, com um intervalo de 25.000 anos entre eles: o Popigai no norte da Sibéria e o Chesapeake no leste da América do Norte.

Mais recentemente, no século XX, o evento de asteroide mais significativo da história registrada foi protagonizado pelo corpo que explodiu sobre Tunguska na Sibéria em 1908. No século XXI, em 2013, também se desintegrou em explosão aérea outro objeto sobre Chelyabinsk na Rússia.

Recentemente não são encontrados indícios de queda de grandes asteroides e, além disto, a assinatura isotópica do carbono atmosférico não é compatível com fontes extraterrestres ou poeira espacial.

Referências:

2. Ciclos de Milankovitch

Os Ciclos de Milankovitch (CMs) fazem parte da Teoria Astronômica dos paleoclimas. De acordo com esta teoria, os ciclos glaciais-interglaciais da Terra estão associados, nos últimos milhões de anos, a variações de três fenômenos relacionados à órbita elíptica da Terra em torno do Sol e ao eixo de rotação do nosso planeta: excentricidade, obliquidade e precessão.


Representações esquemáticas de excentricidade (traço azul) à esquerda, obliquidade ao centro, e precessão à direita. 
(Crédito: NASA/JPL-Caltech).

Fenômenos dos Ciclos de Milankovitch e suas causas principais, efeitos diretos, variações e padrões de periodicidades

Causas
principais
Efeitos
diretos
Variações Padrões de
periodi-
cidades
Ex-
cen-
tri-
ci-
da-
de
atração
gravita-
cional de
Júpiter e
Saturno
alteração
da duração
(em poucos dias)
das estações
climáticas
entre
zero
(círculo)
e
0,06*
(elipse máxima)
∼100.000 e
∼405.000
anos
O-
bli-
qui-
da-
de
colisão
Theia
-Terra
quanto maior o
ângulo de
inclinação,
mais extremas
são as estações
climáticas
ângulo de
inclina-
ção
entre
∼22° e ∼25°
∼41.000
anos
Pre-
ces-
são
forças de
marés
causadas pela
influência
gravita-
cional
do Sol e
da Lua
controle da
sazona-
lidade
giro de
360°
em sentido
horário
≈19.000 e
≈23.000
anos
* excentricidade = distância focal / semi-eixo maior
Partes da elipse com a localização da distância focal, dos semi-eixos e dos focos (F₁ e F).
(Imagem traduzida e adaptada de: Ag2gaeh).

Assim, os CMs, de acordo com a Teoria Astronômica dos paleoclimas, controlam a quantidade de insolação que atinge qualquer ponto da Terra em função da estação climática e da latitude.

Muitos eventos na geologia e na paleoclimatologia são coerentes com os ciclos de Milankovitch. Alguns exemplos são:
  • antes de 1 milhão de anos atrás, eras glaciais ocorriam coincidindo com a periodicidade da obliquidade; 
  • os últimos 8 ciclos de eras glaciais foram estendidos e passaram a corresponder à periodicidade da excentricidade; e
  • surgimento e desaparecimento de lagos efêmeros no vale do rift africano são coerentes com a periodicidade da precessão.
Outro exemplo é encontrado no Craton Norte da China, em sedimentos de 1.400 milhões de anos da Formação Xiamaling. Eles registram evidências geoquímicas e sedimentológicas de flutuações climáticas durante suas deposições.

Os ciclos glaciais-interglaciais, que caracterizaram o clima da Terra, são evidenciados nos últimos milhões de anos por séries temporais como as das concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa (GEEs), da temperatura do ar na Antártida e do volume total de gelo no nosso planeta. Detalhamentos de séries temporais como estas revelam ciclos associados às variações da órbita elíptica da Terra em torno do Sol e ao eixo de rotação do nosso planeta.

Os Ciclos de Milankovitch (variações na inclinação do eixo da Terra, precessão e excentricidade), a radiação solar e o volume global de gelo ao longo do último milhão de anos.
O volume global de gelo é inferido de isótopos de oxigênio (δ¹⁸O) em sedimentos oceânicos. Valores elevados de δ¹⁸O oceânico indicam climas frios, enquanto valores mais baixos indicam climas quentes.
(Imagem traduzida de: climate.gov, 2025).

Nosso planeta tem recebido energia solar em ciclos naturais de 11 anos (ciclos solares), com pequenas oscilações, e esta radiação, que também é afetada pelos CMs na Terra, tem sido a principal forçante climática da Terra (juntamente com o vulcanismo) desde sempre até antes da Revolução Industrial.

Referências:

3. Vulcanismo

Rochas silicáticas reagem com rochas carbonáticas em profundidade produzindo CO₂ que pode, mais tarde, ser expelido por vulcões. O vulcanismo também lança na atmosfera gotículas de aerossol, cinzas e outros gases. Os impactos climáticos vulcânicos mais significativos são causados pela liberação de dióxido de enxofre (SO₂) que pode causar resfriamento global (por reflexão da radiação solar) por meio de aerossol de sulfato que é produzido pela conversão do SO₂ em ácido sulfúrico (que se condensa rapidamente).

Os aerossóis vulcânicos causam resfriamento da troposfera ao dispersar parte da radiação solar de volta para o espaço, mas aquecem a estratosfera ao absorverem tanto a radiação solar quanto a terrestre.

Em média, anualmente, os vulcões emitem ≈23 milhões de toneladas de SO₂ e entre 130 e 230 milhões de toneladas de CO₂ na atmosfera. Estas quantidades significam entre 10% e 15% do SO₂ e ≈1% do CO₂ emitidos anualmente por atividades humanas. Em 2023, a cada 2,5 horas, as emissões antropogênicas de CO₂ foram equivalentes à de uma erupção de 1980 do Monte Santa Helena e, a cada 12 horas, à de uma erupção de 1991 do Monte Pinatubo.

A cada poucas décadas, em média, uma grande erupção vulcânica libera enorme quantidade de partículas e gases. A chuva normalmente remove os aerossóis da atmosfera em uma ou duas semanas. Porém, uma erupção violenta pode lançar material muito acima da nuvem mais alta. Neste caso, o tempo de permanência é de um ou dois anos até que os aerossóis caiam na troposfera e sejam levados à superfície por precipitação.

Considerando apenas a troposfera, grandes erupções vulcânicas podem causar uma queda temporária na temperatura média global da superfície de ≈0,5°C. Alguns exemplos incluem os vulcões:
  • Laki em 1783 na Islândia, que reduziu a temperatura média global em até 3ºC por mais de um ano; 
  • Krakatau em 1883 nas Índias Orientais, que provou a queda de 0,5°C da temperatura média global por cinco anos;
  • Tambora em 1815 na Indonésia, que reduziu a temperatura média global em até 3°C no verão seguinte;
  • Santa Helena em 1980 nos EUA, que causou resfriamento regional por poucos dias por ter produzido pouco enxofre;
  • El Chichón em 1982 no México, que resfriou o Hemisfério Norte entre 0,4 e 0,6°C e fez a temperatura global cair por dois ou três anos; e
  • Pinatubo em 1991 nas Filipinas, que causou uma queda da temperatura média global de ≈0,5°C também por dois ou três anos, sendo sua erupção considerada a que causou, no século XX, a maior perturbação de aerossóis na estratosfera.

Vulcões entre 1860 e 2010 (com VEI acima de 4) mostrando a correlação (no intervalo de 0 a 3 anos após a erupção) com variações (△ = diferenças em relação à média de 1961-1990) da temperatura global da superfície.
Há casos em que o efeito de resfriamento do vulcão não foi suficiente para atenuar a temperatura global que também é afetada por outros eventos.
(Dados de temperatura de: ipccwg1ar5, 2023 (com mais de uma fonte de registro) / Dados dos vulcões de: climatedata, 2020).

A Terra já experimentou impactos importantes do vulcanismo no passado, mas atualmente não se observa nenhuma evidência de que atividade vulcânica esteja aumentando. O aparente aumento na atividade reflete o crescimento populacional principalmente próximo a vulcões e a melhoria nas tecnologias de comunicação para relatar as atividades vulcânicas.

Quantidade de vulcões com atividade relatada a cada ano desde 1800 (linhas superiores com escala no eixo da esquerda) e número anual de vulcões que produziram grandes erupções com ≥ 0,1 km³ de tefra ou magma (linhas inferiores com escala ampliada no eixo da direita).
As linhas pretas finas mostram o número total de vulcões com erupções relatadas por ano.
As linhas vermelhas grossas mostram a média móvel de 10 anos dos mesmos dados.
"Krakatau" e "Pelee", que foram eventos de grande repercussão devido ao número de vítimas, aumentaram a atenção humana resultando em proporcional aumento dos registros de atividades vulcânicas.
Em "WW I" e "WW II" (World War I and II = Primeira e Segunda Guerras Mundiais) há quedas do número de vulcões ativos refletindo à deficiência das comunicações globais nestes períodos.
Documentações que atualizaram os números de vulcões ativos (produzindo picos no gráfico após deficiências de informações): 
CAVW (Catalog of Active Volcanoes of the World = Catálogo de Vulcões Ativos do Mundo);
BVE (Bulletin of Volcanic Eruptions = Boletim de Erupções Vulcânicas); e
GVP (Global Volcanism Program = Programa Global de Vulcanismo da Smithsonian Institution).
(Imagem traduzida de: SI/NMNH/GVP, 2013).

Quantidade de vulcões historicamente ativos conhecidos, número de vulcões relatados como ativos a cada ano e população humana.
A linha rotulada como "Vulcões ativos historicamente conhecidos", com escala no eixo da direita, representa o número cumulativo de vulcões com erupção historicamente registrada até aquele ano.
Os "Vulcões ativos por ano" desde 1400 aparecem na linha preta (por ano) e na linha vermelha grossa (média móvel de 10 anos dos mesmos dados), com escala no eixo da esquerda.
Estes dados são baseados em erupções relatadas (aquelas com datas de incerteza superiores a 1 ano não estão incluídas, assim como as demais erupções incertas).
A escala à direita também referencia uma estimativa da população humana mundial, com dados de McEvedy e Jones (1978) e, desde 1750, de Population Reference Bureau, Washington, DC.
(Imagem traduzida de: SI/NMNH/GVP, 2013).

Referências:

4. Aerossóis

Aerossóis, como poeira mineral, névoa marinha, fumaça, aerossol industrial, aerossol vulcânico ou aerossol biogênico, podem ser classificados:
  • quanto à origem, em naturais ou antropogênicos;
  • quanto à formação, em aerossóis gerados por dispersão mecânica ou por condensação de gases; e
  • quanto à fonte, em
    • primários – cujas partículas são lançadas da fonte diretamente na atmosfera – ou
    • secundários – que são transformados em aerossóis por reações químicas na atmosfera, envolvendo compostos orgânicos voláteis (VOCs, sigla em inglês), óxidos de nitrogênio (NOx) e SO2.
Os aerossóis com propriedades higroscópicas (como sais e sulfatos) podem formar gotículas na condensação de nuvens. Os ventos dispersam os aerossóis por toda a Terra, embora muitos não sejam transportados para longe de suas fontes. Dependendo principalmente do tamanho das suas partículas e da altitude em que são lançados na atmosfera, sua vida útil típica é de um dia a duas semanas na troposfera. Na estratosfera, onde não chove, podem permanecer por cerca de um ano (ou mais, no caso das emissões de SO2 de erupções vulcânicas). Normalmente, a maioria dos aerossóis sobe para formar uma fina camada de neblina na troposfera e, após, retornam à superfície por deposição úmida (por meio de precipitação) ou mais raramente por deposição seca (por turbulência ou gravidade).

As instabilidades atmosféricas e o aquecimento global favorecem a formação de aerossóis de poeira intensificando as tempestades de poeira, principalmente em regiões de desertos e especialmente no "cinturão de poeira" que se estende do Norte da África ao Leste Asiático, passando pelo Oriente Médio, Ásia Central e Sul da Ásia. O tamanho e a composição das partículas de aerossol afetam a distância que podem percorrer ao redor do mundo e suas interações com a radiação solar. 

Os efeitos dos aerossóis na atmosfera variam conforme a composição e o tipo de suas partículas podendo refletir, absorver ou dispersar a luz solar.

Referências:

5. Gases de efeito estufa

Os GEEs incluindo principalmente dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄), óxido nitroso (N₂O), gases fluorados e ozônio (O3) e vapor de água. Aquecem a troposfera ao absorver a energia térmica emitida pela Terra. Reemitem em todas as direções esta energia, enviando uma parte significativa de volta para a superfície e retendo o calor próximo à superfície terrestre. 

Nenhum comentário:

Traduzir

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *