"O presente é a chave para o passado"
James Hutton

20 de fevereiro de 2026

Mercados de Créditos de Carbono

Por Marco Gonzalez

Martelo utilizado na COP3, em 1997, quando da aprovação do Protocolo de Kyoto no Japão.
(Crédito da imagem: Jason Riedy).

Os mercados de créditos carbono surgiram como uma resposta às preocupações com as mudanças climáticas e à necessidade de mecanismos eficazes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEEs). O conceito surgiu no âmbito do Protocolo de Kyoto aprovado pela ONU em 1997 [Dumitrescu e Ansotegui, 2024].

1. Origem e definição

A ONU aprovou o Protocolo de Kyoto estabelecendo metas de redução de emissões de GEEs a serem alcançadas, principalmente, através de compra e venda de "licenças para poluir" [carbontradewatch, 2023]. Tais "licenças" correspondem a créditos que são comercializados através de mercados.

Mercados de créditos de carbono são, então, sistemas de negociação onde esses créditos são comprados e vendidos. Um crédito de carbono negociável vale uma tonelada de dióxido de carbono equivalente (1tCO₂e) que sofreu sequestro ou cuja emissão teve redução ou foi evitada no contexto da atmosfera [UNDP, 2023].

(Daqui em diante – e no título deste artigo – o termo "carbono", usado como complemento para "crédito" ou "mercado", deve ser entendido como "carbono equivalente").

Tais mercados são implantados visando mitigar as alterações climáticas [UNDP, 2023]:
  • ao criar incentivo econômico para a redução das emissões de GEEs da forma mais rentável possível e
  • ao apoiar maior participação do setor privado, em conformidade com o Acordo de Paris.

2. Tipos de mercados

São previstos dois tipos de mercados de créditos de carbono: regulado e voluntário [OCDE, 2024].

2.1. Mercado regulado

No Mercado Regulado (ou Regulamentado ou de Conformidade – "Compliance Market" em inglês) as estratégias governamentais ditam limites de emissão para que as empresas vendam créditos (se estiverem abaixo daqueles limites) ou comprem (se estiverem acima) [carboncredits, 2026]. Os participantes que ultrapassam os limites legais de emissão e não compram créditos estão sujeitos a penalidades [councilfire, 2026]. Neste tipo de mercado os Sistemas de Comércio de Emissões (SCEs) podem ser [UNDP, 2023]:
    • nacionais (exemplo: SCE da Nova Zelândia),
    • regionais (exemplo: RGGI nos EUA) ou
    • internacionais (exemplo: EU ETS na União Europeia).
Um dos seguintes esquemas pode ser adotados em um SCE:
  • Limite Máximo ("cap and trade" em inglês), onde os governos impõem um "imposto sobre o carbono" estabelecendo penalidades para emissões acima daquele limite (teto) determinado [ICAPcarb, 2021]. Países como Suécia e Canadá possuem algumas das taxas de impostos mais elevadas do mundo [SC, 2025].
  • Valor de Referência ("baseline and credit" ou "base and credit" em inglês), onde é estabelecido um valor base ("baseline") [Core, 2025]. No caso do CORSIA (no setor de aviação internacional), por exemplo, as companhias aéreas e outros operadores de aeronaves (de voos internacionais) obedecem um valor de referência que é igual a 85% dos níveis de 2019 e devem compensar qualquer aumento nas emissões acima dele [ABBB, 2025].
Nos dois casos, as empresas geram créditos, se ficarem com suas emissões abaixo (do teto ou da base), ou são obrigadas a comprar créditos, se ficarem acima [Core, 2025]. A meta, ou seja, o limite de emissões de GEEs pode ser [sweep, 2025epa, 2026]:
  • absoluto – estabelecido como uma quantidade predefinida de emissões ou
  • baseado em intensidade – estabelecido em relação a uma variável econômica ou operacional, ou seja, proporcionalmente ao crescimento econômico (exemplo: limite de emissões em 50 kg de CO₂ equivalente por tonelada de produto fabricado anualmente).
As formas mais importantes de contabilização de GEEs podem ser classificadas em dois tipos de métodos: baseados em medição e em cálculo. Dentre os baseados em medição, há o que mede a fonte da emissão por monitoramento contínuo considerando concentração e vazão. Dentre os métodos de cálculo, um dos mais comuns é o "Método do Fator de Emissão" que multiplica a quantidade referente à atividade (exemplo: litros de diesel consumidos) pelo fator de emissão conhecido que indica a quantidade de GEE liberado por aquela atividade [carbonpass, 2023].


Empresas que estão com suas emissões abaixo do limite máximo permitido também podem comprar créditos de carbono (mesmo no mercado voluntário) [carbonneutral, 2024]

2.2. Mercado Voluntário

O Mercado Voluntário é reconhecido pelo Artigo 6 do Acordo de Paris que indica que "algumas Partes optam por prosseguir a cooperação voluntária na implementação das suas Contribuições Nacionalmente Determinadas para permitir uma maior ambição nas suas ações de mitigação e adaptação e para promover o desenvolvimento sustentável e a integridade ambiental" [UNDP, 2023].

Neste tipo de mercado, a compra de créditos de carbono permite que as empresas apoiem projetos de prevenção ou remoção de carbono realizados por terceiros. É uma contribuição que fazem para suprir as próprias lacunas financeiras no combate às mudanças climáticas [Lawton, 2024]. 

O cálculo da quantidade de emissões prevenidas ou removidas depende do projeto. Para se ter uma ideia, no âmbito as florestas, a biomassa seca de uma árvore (peso sem água) é composta por cerca de 50% de carbono. Assim, para calcular a quantidade de carbono consumido por uma floresta, é preciso calcular a quantidade de sua biomassa que pode ser obtida por método destrutivo ou indireto. O método destrutivo implica na seleção e derrubada de árvores (por amostragem) para obtenção dos dados, já o método indireto utiliza modelos de regressão, lineares ou não-lineares, cujas variáveis independentes são as características mensuráveis das árvores (diâmetro, altura, etc, por amostragem) e as variáveis dependentes são as biomassas expressas pelo peso de material seco dos seus componentes [Carvalho, 2018].

O Conselho de Integridade para o Mercado Voluntário de Carbono estabelece Princípios Essenciais do Carbono para assegurar a alta qualidade dos créditos de carbono [SC, 2025]. Estes princípios, para prover mecanismos eficazes para a redução das emissões de GEEs, são [icvcm, 2024]:
  • Sobre a governança
1. Eficácia para garantir transparência, responsabilidade, melhoria contínua e a qualidade geral dos créditos de carbono.
2. Rastreamento para identificar de forma única as atividades de mitigação e os créditos emitidos.
3. Transparência sobre todas as atividades de mitigação creditadas.
4. Validação e verificação robustas e independentes por terceiros.
  • Sobre o impacto das emissões
5. Adicionalidade, ou seja, exigência de que as emissões não teriam sido evitadas ou removidas sem o incentivo fornecido pelos créditos de carbono.
6. Permanência, ou seja, reduções de emissões sem risco de reversão.
7. Quantificação robusta das reduções de emissões.
8. Sem dupla contagem para o alcance das metas ou objetivos de mitigação. 
  • Sobre o impacto sustentável
9. Benefícios e salvaguardas do desenvolvimento sustentável incluindo diretrizes, ferramentas e procedimentos em conformidade com as melhores práticas da indústria.
10. Contribuição para a transição para emissões líquidas zero com o objetivo de alcançá-las até meados do século.

Para garantir a integridade do mercado voluntário também são fundamentais organizações independentes que estabeleçam metodologias e padrões rigorosos para que projetos climáticos gerem créditos de carbono de alta qualidade, como: Verra, Gold Standard, American Carbon Registry e Climate Action Reserve [SPquestions, 2025].


2.3. Diferença

A principal diferença entre os mercados regulados e voluntários é o estabelecimento dos objetivos da utilização do crédito de carbono. No mercado regulado, tais objetivos são estabelecidos por governos ou tratados internacionais de forma obrigatória. No mercado voluntário, indivíduos, empresas e governos estabelecem seus próprios objetivos para cumprir os compromissos voluntários [UNDP, 2025].

3. Geração e comercialização de créditos

No caso de mercados regulados, os créditos de carbono são gerados quando uma empresa emite menos GEEs do que o limite estabelecido. Deste modo, como já foi visto, ela pode vender seus créditos para outras empresas que ultrapassaram seus limites [carbonchain, 2026]. Por outro lado, no caso de mercados voluntários, os créditos de carbono são gerados por projetos que podem ser classificados [Sylvera, 2026],
  • quanto ao saldo das emissões, em:
    • projetos de remoção – removem os GEEs existentes no meio ambiente; ou
    • projetos de prevenção – evitam as emissões que, de outra forma, poluiriam a atmosfera; e
  • quanto à estratégia adotada, em:
    • baseados na natureza – aproveitam os processos naturais, tem relativamente menos custos e oferecem grande quantidade de benefícios adicionais, mas podem ter menor nível de durabilidade da ausência da emissão evitada ou removida;
    • baseados em tecnologia; ou
    • mistos, ou seja, baseados na natureza e em tecnologia.
Alguns exemplos de tipos de projetos [Sylvera, 2026]:
  • baseados na natureza:
    • de florestamento, reflorestamento e revegetação (ARR – "Afforestation, Reforestation, and Revegetation") – trata do plantio de árvores em novos locais, da restauração de áreas florestais degradadas e da regeneração da cobertura vegetal;
    • de prevenção de emissões por combate ao desmatamento e à degradação florestal (REDD e REDD+);
    • de agricultura regenerativa – concentrado no solo saudável dentro de ecossistemas agrícolas, aumentando oa GEEs do solo;
    • de Manejo Florestal Aprimorado (IFM – "Improved Forest Management") – trata do aumento da capacidade de armazenamento de GEEs das florestas existentes por meio de melhores práticas de manejo; e
    • de carbono azul – capturam GEEs da atmosfera, armazenando-os em ecossistemas marinhos e costeiros.
  • de remoção de GEEs (podem usar meios naturais e/ou tecnológicos):
    • de Biochar – material rico em GEEs produzido pelo aquecimento de biomassa orgânica, em condições de baixo teor de oxigênio;
    • de captação direta do ar – captura por sução (ou extração) de GEEs liberados no ar do meio ambiente;
    • de intemperismo de rocha aprimorado‍ – apoia-se no processo natural que decompõe as rochas em seus minerais básicos, para espalhar estas rochas finamente moídas em terras agrícolas;
    • de bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS‍ – "Bioenergy with Carbon Capture and Storage") – sequestra GEEs de aplicações de bioenergia, armazenando-os em formações geológicas ou usando-os para fabricar novos produtos, podendo incluir queima de biomassa para geração de energia, como no caso da produção de etanol.
  • de outras categorias:
    • de energia renovável‍ – gera energia a partir de recursos naturais, como o vento, a água e o sol;
    • de gerenciamento de resíduos‍ – trata da redução das emissões de carbono e metano de resíduos, como os dos aterros sanitários;
    • de dispositivos domésticos‍ – fornece fogões e filtros de água com maior eficiência energética para países em desenvolvimento;
    • de umedecimento e secagem alternados‍ – transforma cultivo tradicional de arroz ao secar periodicamente os arrozais, reduzindo significativamente a produção de metano.
Um caso especial de projeto é o de proteção de florestas. O Protocolo de Kyoto excluiu as políticas relacionadas ao desmatamento e à degradação devido à complexidade de medições e monitoramento. No entanto, na COP13, em 2007, foi adotado o conceito de REDD+ para prover incentivos aos países em desenvolvimento que atenuem mudanças climáticas através de [CFBio, 2022]:
  • prevenção das emissões derivadas de desmatamento e degradação de florestas;
  • aumento das reservas florestais de GEEs;
  • gestão sustentável de florestas; e
  • conservação florestal.
Assim, iniciativas de mercados de carbono, como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e os próprios mercados voluntários de carbono, permitem que projetos REDD+ gerem créditos de carbono [SC, 2024].

Então, tendo sido gerados os créditos de carbono, eles recebem um número de série rastreável e são depositados na conta de quem os gerou [Ribeiro, 2023]. Os créditos devem ser:
  • verificados [UNDP, 2025] por um Órgão de Validação e Verificação [SC, 2025] como, por exemplo, Bureau Veritas, SCS Global ServicesTUV SUDAENOR, e
  • precificados [UNDP, 2025], o que ajuda a transferir o ônus dos danos causados ​​pelas emissões de GEEs para os responsáveis ​​por elas, para que decidam reduzir suas emissões ou continuar pagando este ônus [WBG, 2022].
Os preços dos créditos são determinados principalmente pela lei da oferta e da procura, que é influenciada por padrões internacionais, metodologias de validação e, nos mercados regulados, por políticas governamentais [WBGpricint, 2022]. Também são afetados por [SPquestions, 2025]:
  • Tipo de projeto e tecnologia – os custos de implementação de diferentes tipos de projetos, desde os baseados na natureza (como silvicultura) até o mais tecnológicos e inovadores, afetam diretamente o preço do crédito.
  • Qualidade do projeto e benefícios adicionais – projetos de alta qualidade que seguem padrões rigorosos geralmente têm preços mais elevados, assim como projetos que oferecem benefícios sociais ou ambientais.
  • Vintage –  créditos gerados mais recentemente costumam ser associados a qualidade mais elevada.
  • Localização e regulamentação – a localização pode afetar os custos e as estruturas regulatórias mais amplas nos mercados regulados também podem influenciar os preços nos mercado voluntários.
Ao final da comercialização, os créditos utilizados são desativados, não podendo ser reutilizados [UNDP, 2025].

4. Benefícios/incentivos

A compra de créditos de carbono concede ao comprador a permissão para emitir uma quantidade equivalente de CO₂, mas há outros benefícios/incentivos mais relevantes decorrentes desta comercialização [carbonneutral, 2024]:
  • Para a sociedade. 
    • Valorização – destaca o valor (importância) do processo de redução da poluição ​​atmosférica.
    • Apoio ao desenvolvimento sustentável – contribui para projetos que proporcionam benefícios sociais e ambientais, como a melhoria da qualidade do ar, a conservação da biodiversidade e o apoio às comunidades locais.
  • Para o vendedor.
    • Apoio financeiro – financia projetos que previnem ou removem quantidades de GEEs da atmosfera, já que estes projetos dependem principalmente da receita da venda de créditos de carbono para se sustentar.
  • Para o comprador:
    • Conformidade regulatória – concretiza o cumprimento de requisitos legais ou regulamentações que exigem a redução das emissões de GEEs.
    • Gestão de riscos – protege o comprador contra futuros riscos regulatórios ou alterações de mercado, preparando-o para regulamentações mais rigorosas e possíveis penalidades financeiras por ultrapassar limites de emissões.
    • Incentivo à redução das emissões internas – cria incentivo financeiro (através da atribuição de um preço ao carbono) para reduzir as emissões (do comprador) e impulsiona melhorias na eficiência e a adoção (pelo comprador) de tecnologias mais limpas.
    • Responsabilidade social corporativa – demonstra o compromisso (do comprador) com a sustentabilidade e a gestão ambiental, melhorando sua reputação.
      • Compensação de carbono ("carbon offsetting") – ajuda a alcançar a neutralidade de GEEs ao compensar as emissões não evitadas (do comprador) por meio da prevenção ou redução de quantidades equivalentes de GEEs da atmosfera promovida pelos vendedores.
      • Expectativas de investidores e clientes – atende às crescentes demandas de investidores, clientes e outras partes interessadas que priorizam a responsabilidade ambiental, atraindo investidores e consumidores ecologicamente conscientes.
      • Liderança de mercado – posiciona o comprador como líder em sustentabilidade em seu setor, diferenciando-o da concorrência e criando vantagem competitiva em mercados onde a sustentabilidade é uma preocupação fundamental.
      • Conscientização ambiental – atribui ao comprador um papel fundamental nos esforços globais para redução de emissões de GEEs e promoção de práticas sustentáveis. 
Provavelmente a primeira turbina eólica de operação automática para geração de eletricidade.
(Será um exemplo de conscientização ambiental? Talvez, mas, guardadas as devidas diferenças relacionadas à época, certamente é um exemplo do tanto que é possível fazer pela vida na Terra).
Foi construída em 1887-1888 no quintal da casa do engenheiro, inventor, empresário e filantropo norte-americano Charles Francis Brush (1849-1929), nos arredores de Cleveland, Ohio, EUA. Era fixada em uma torre de 18,3 m de altura e pesava 36 toneladas. Seu rotor tinha 17 m de diâmetro e seu dínamo girava 50 vezes para cada revolução das pás, carregando doze baterias, cada uma com 34 células. Por 20 anos forneceu, para a propriedade de Brush, 12 kW de energia para 350 lâmpadas incandescentes, 2 lâmpadas de arco e diversos motores (Righter, 1996; Gipe e Möllerström, 2022).
(Crédito da imagem: Righter).

5. Alguns exemplos de conscientização ambiental

Os Sistemas de Comércio de Emissões (SCEs) em operação em 2025 cobriam 23% das emissões globais de GEEs. Outros SCEs estão em desenvolvimento ou em fase de estudo. Além disto, as metas de emissões líquidas zero impulsionam projetos específicos e reformas nos sistemas existentes. O impulso é particularmente forte em economias emergentes que adotam modelos de sistemas inovadores [ICAPsr25, 2025]. O tamanho do mercado global de créditos de carbono é calculado em US$1,3 trilhões em 2026 e estima-se que alcance US$19,90 trilhões em 2035 [Precedence, 2026].

Mapa mundial dos SCEs (comércio regulado) em funcionamento, em desenvolvimento e sob consideração em 2025
(Adaptado de ICAP, 2025).

Seguem alguns exemplos de mercados regulados e voluntários em funcionamento ou em desenvolvimento.

5.1. Europa

5.1.1. União Europeia

O SCE da União Europeia (EU ETS em inglês – 34 no mapa acima) foi lançado em 2005 abrangendo principalmente setores de geração de energia e da indústria pesada [Barnard, 2025]. Até 2023, ajudou a reduzir as emissões das centrais elétricas e industriais europeias em aproximadamente 47%, em comparação com os níveis de 2005. Desde 2013, o EU ETS arrecadou mais de 175 bilhões de euros em créditos de carbono. Encontra-se agora na sua quarta fase de negociação (2021-2030). A União Europeia pretende reduzir as emissões em 62% até 2030, em comparação com os níveis de 2005, e se tornar neutra em termos climáticos até 2050. O Fundo de Compensação Social (um fundo da União Europeia para apoiar a transição verde justa e inclusa) mobilizará 86,7 mil milhões de euros das receitas do sistema no período de 2026 a 2032 [European Commission, 2025].

O EU ETS começou a abranger as emissões do transporte marítimo em 2024. Opera em todos os países da UE, além de Islândia, Liechtenstein e Noruega, e está ligado ao Sistema de Comércio de Emissões Suíço (desde 2020). "Licenças de emissão", que correspondem a créditos de carbono equivalente, podem ser vendidas em leilões ou negociadas entre empresas. O preço está sujeito a um conjunto rigoroso de regras de supervisão da UE. As receitas são destinadas aos estados-membros da UE para apoiar investimentos em energias renováveis, melhorias na eficiência energética e tecnologias de baixo carbono que contribuam para a redução das emissões [EC, 2025].

Um mecanismo para prevenir fuga da carbono foi ajustado em 2026 garantindo que bens importados tenham custo de carbono comparável ao dos produtos nacionais no âmbito do EU ETS. Este ajuste representa um passo relevante para sua operacionalização e influencia as práticas globais de precificação do carbono [ICAPnews0119, 2026].

O atual Sistema Nacional de Comércio da Alemanha, que abrange combustíveis para aquecimento e transporte não incluídos no EU ETS, passará a constituir o chamado EU ETS 2 (35 no mapa acima) em 2027 [ICAP, 2025].

5.1.2. Ucrânia

O plano de ação para o SCE (30 no mapa acima) da Ucrânia, que havia sido suspenso em 2022 por causa da guerra, foi reintroduzido pelo governo e aprovado em 2025. Ele irá contribuir para [IKI, 2025]:
  • garantir o desenvolvimento sustentável na Ucrânia e reduzir o impacto negativo sobre o clima;
  • abrir novas oportunidades econômicas no setor da economia verde; e
  • desenvolver a cooperação e a interação internacional com os países europeus e integrar ainda mais a Ucrânia na União Europeia.
Estão previstas três etapas principais [IKI, 2025]:
  • Etapa Preparatória (2025–2027), com desenvolvimento do quadro legislativo e criação das ferramentas necessárias para o funcionamento do sistema;
  • Fase Piloto (a partir de 2028), com o lançamento experimental do sistema; e
  • Fase Operacional, terá início após uma recuperação econômica estável, não antes de três anos após o cancelamento da lei marcial.

5.1.3. Reino Unido

O SCE do Reino Unido (27 no mapa acima) se desenvolveu a partir de um projeto-piloto lançado em 2002. Entre 2009 e 2021, no mercado voluntário, foram negociadas quase 60 milhões de toneladas de créditos de carbono [theglobalcity, 2025]. Passou por reformas significativas em 2024 para se alinhar à meta de emissões líquidas zero da jurisdição até 2050. O limite máximo de emissões foi redefinido, reduzindo as licenças disponíveis em 30% entre 2021 e 2030. Consultas foram iniciadas sobre a expansão do sistema para incluir a incineração de resíduos e a geração de energia a partir de resíduos até 2028. Foi anunciada a introdução de um mecanismo de ajuste de carbono na fronteira em 2027 para lidar com os riscos de fuga de carbono [ICAP, 2025].

O mercado de créditos de carbono do Reino Unido atingiu US$215,70 milhões em 2024 e está previsto que alcance US$2.620,60 milhões até 2033. Em 2025, foi lançada nova estratégia de descarbonização marítima com o objetivo de reduzir emissões em 30% até 2030, em 80% até 2040 e em 100% até 2050 [imarcgroup, 2025]. 

Para o mercado voluntário do Reino Unido, foi criado o Código de Carbono Florestal, um padrão oficial de garantia de qualidade para projetos de carbono florestal. Este documento estabelece requisitos para que proprietários de terras, organizações e empresas desenvolvam seus projetos [WCC0, 2025]. 

Seguem três exemplos de engajamento:
  • A British Airways, em setembro de 2024, tornou-se a maior compradora de créditos de remoção de carbono do Reino Unido, investindo mais de ~US$12 milhões em contrato de seis anos [imarcgroup, 2025].
  • A Snugg, startup de tecnologia, lançou o Carbon Cashback em março de 2025, uma iniciativa que permite aos proprietários de imóveis no Reino Unido ganhar até ~US$2,6 mil ao longo de 10 anos, melhorando a eficiência energética de suas casas [imarcgroup, 2025].
  • O projeto Braomisaig, nas Terras Altas, Inverie, Escócia, teve início em 2011 e deve sequestrar 22.952 tCO₂e na sua vida útil de 100 anos. Consiste no plantio de 13.500 árvores nativas de floresta mista em Braomisaig, às margens do lago marinho Loch Nevis [WCC2, 2025].

Lago Loch Nevis em Braomisaig.
O projeto Braomisaig tem objetivo de promover biodiversidade e captura de carbono e faz parte de uma visão mais ampla de interligar os habitats florestais em toda a Península de Knoydart [WCC2, 2025].
(Crédito da imagem: Alan Reid).

5.2. Asia

5.2.1. China

Lançado em 2021, o mercado nacional de carbono da China (37 no mapa acima) se tornou o maior sistema de precificação de carbono do mundo, abrangendo mais de 2.200 usinas de energia responsáveis ​​por 40% das emissões do país. Além das usinas de carvão, a China se prepara para expandir a precificação de carbono para siderurgia, cimento, alumínio e petroquímica, algumas das maiores fontes globais de emissões [Barnard, 2025].

Esta expansão inclui aproximadamente 3.700 entidades abrangidas e 3 bilhões de toneladas de crédito de carbono, que equivalem a ~5% das emissões globais. Este processo sinaliza a passagem da fase de preparação e coleta de dados para a plena integração ao ciclo de regulamentação [ICAPnews1201, 2025].

O fato de o país maior emissor mundial de GEEs estar intensificando a precificação do carbono sinaliza uma grande mudança na política climática global [Barnard, 2025]. A China possui mais capacidade instalada de energia solar em escala comercial do que todo o restante do mundo. Terá capacidade de 1,37 TW em energia eólica e solar até o final de 2025 e está a caminho de duplicar a sua capacidade de energia solar e eólica, atingindo sua meta para 2030 com cinco anos de antecedência. A maioria das grandes instalações está concentrada nas províncias e regiões desérticas do norte e noroeste, sendo Shanxi uma delas [Vujasin, 2023].

Parque eólico Shanxi.
Este parque está localizado no condado de Guangling, na província de Shanxi, na China. Gera 101.700 MWh de eletricidade e evita 94.672 toneladas de emissões de CO₂ por ano [GlobalData, 2024].
(Crédito da imagem: Hahaheditor12667).

5.2.2. Japão

O Japão lançou em 2023 seu SCE (41 no mapa acima) com linha de crédito não obrigatório de 2024 a 2025. Mais de 700 empresas, responsáveis ​​por mais de 50% das emissões nacionais, participam [ICAP, 2025]. A versão do sistema obrigatório foi finalizada e aprovada em 2025 [ieta, 2025]. Espera-se que ocorra a transição para um sistema obrigatório a partir de 2026, após o primeiro prazo de regulamentação. A partir de 2033, serão introduzidos leilões para entidades com altas emissões no setor de energia. Um grupo de estudo foi criado para esclarecer os aspectos legais e regulatórios para esta transição, incluindo leilões e definição de limites máximos [ICAP, 2025]. Espera-se que o mercado regulado entre em pleno funcionamento a partir de 2027 [ieta, 2025].

A Contribuição Nacionalmente Determinada do Japão tem meta de redução de 60% nos níveis de GEEs, em relação a 2013, até 2035 e de 73% até 2040. Estão abrangidos os setores e entidades com mais de 100.000 toneladas de emissões diretas de CO₂ (média dos últimos três anos), o que corresponde a ~60% das emissões nacionais do Japão. Estima-se a participação obrigatória de 400 entidades [ieta, 2025].

5.2.3. Turquia

A Turquia (31 no mapa acima) divulgou em 2024 sua Estratégia e Plano de Ação para Mitigação das Mudanças Climáticas para o período de 2024 a 2030, visando alcançar a neutralidade climática até 2053. Este plano procura se alinhar com o SCE da União Europeia [ICAPturquia, 2024].

A primeira Lei do Clima da Turquia foi aprovada em 2025. Ela estabelece a base legal para o SCE Nacional e também introduz uma estrutura para a governança climática, arranjos institucionais e mecanismos de financiamento [ICAPturquia, 2025].

5.2.4. Índia

O Mercado de Carbono da Índia engloba tanto o tipo regulado (38 no mapa acima) quanto o voluntário e deverá ser lançado oficialmente até meados de 2026. Em 2025, o governo da Índia notificou metas finais de intensidade de emissões de GEEs para nove setores industriais a serem abrangidos pelo SCE: alumínio, cimento, cloro-álcali, celulose e papel, ferro e aço, fertilizantes, refino de petróleo, petroquímica e têxteis, englobando 742 entidades industriais. Em geral, ~40% da redução deve ser alcançada em 2025-2026 e os ~60% restantes em 2026-2027 [ICAPindia, 2025].

5.3. América do Norte

5.3.1. Canadá

O Sistema de Preços Baseado na Produção (SPBP – 2 no mapa acima) do Canadá está em funcionamento desde 2019 como parte do sistema federal de precificação da poluição de carbono (14 no mapa acima). Aplica-se às províncias e territórios onde o sistema de precificação para o período de 2023 a 2030 não atende aos critérios de referência federais em 2025. Em 2024, o Canadá publicou a minuta do "Regulamento sobre o Limite de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Setor de Petróleo e Gás", que estabeleceu este limite para o primeiro estágio de produção de petróleo e gás. O sistema proposto será implementado gradualmente entre 2026 e 2029, com a primeira fase de conformidade prevista para 2030 a 2032 [ICAP, 2025].

O SPBP, em 2019, introduziu um imposto nacional para o carbono com valor inicial de 20 dólares canadenses (C$) por tonelada. Este preço foi elevado gradualmente para C$80 em 2025 e está previsto chegar a C$170 em 2030. É uma taxa direta sobre combustíveis fósseis, afetando a gasolina, o gás natural e as emissões industriais. A maior parte da receita volta aos consumidores sob a forma de reembolsos. Esta medida já reduziu emissões dos setores de eletricidade e transporte e estimulou investimentos em energias renováveis [Barnard, 2025].

O SPBP da Colúmbia Britânica (3 no mapa acima), aplicado nesta província, entrou em vigor em 2024 e segue a trajetória do sistema federal canadense. Abrange principalmente os setores extrativos e de mineração. Garante incentivo financeiro para redução de emissões de GEEs por meio de sistema baseado em desempenho. Instalações que emitem abaixo do limite anual recebem créditos. Para as demais, são oferecidas opções flexíveis para atender às obrigações, incluindo uso de créditos ganhos, compensações de carbono da Colúmbia Britânica ou o pagamento direto ao governo [ICAPcb, 2025].

Fundição de alumínio da Rio Tinto em Kitimat, na Columbia Britânica, no Canadá.
A Rio Tinto Aluminiun produz alumínio de baixo carbono e participa do sistema de precificação baseado na produção. A empresa fez um investimento de US$6 bilhões para descarbonizar a fundição de Kitimat em 2015 resultando em reduções iniciais de mais de 30% em suas emissões absolutas e de mais de 50% na intensidade de emissões da produção. A meta da empresa é reduzir em 50% as emissões até 2030 em todas as suas operações globais [News.gov.bc, 2024].
(Crédito da imagem: Iain Cameron). 

5.3.2. EUA

Na Califórnia, o SCE (8 no mapa acima) nos dois setores inicialmente abrangidos durante os primeiros sete anos de operação, até 2024, conseguiu reduzir anualmente 6% no setor elétrico, porém as emissões industriais aumentaram [Lessmann e Kramer, 2024]. Em 2025, foi sancionado um pacote de novas leis de energia. A extensão deste programa até 2045 visa aumentar a segurança regulatória para os participantes do mercado de créditos de carbono. A expectativa é que até 2030 sejam reduzidas em pelo menos 40% as emissões em relação aos níveis de 1990, além de atingir emissões líquidas zero de GEEs até 2045 e mantê-las negativas a partir de então [Brill et al, 2025].

O SCE de Washington (6 no mapa acima), EUA, teve início em 2023 e abrange ~70% das emissões do estado incluindo 97 entidades dos setores de mineração, energia, indústria, construção civil e transporte. Assemelha-se ao SCE da Califórnia. A receita estatal até 2025 foi de 3,3 bilhões de dólares. Suas metas consistem, com referência aos níveis de 1990, na redução de 45% das emissões até 2030, 70% até 2040 e 95% até 2050 [ICAPwhashington, 2025]. 

Os SCEs continuam controversos nos EUA com exceção de alguns estados [Kenton, 2025].  A Iniciativa Regional de Gases de Efeito Estufa (RGGI – "Regional Greenhouse Gas Initiative" – 1 no mapa acima) é um esforço conjunto realizado entre os estados de Connecticut, Delaware, Maine, Maryland, Massachusetts, New Hampshire, Nova Jersey, Nova York, Rhode Island e Vermont, nos EUA, para reduzir as emissões do setor de energia. É composto por Programas de Negociação de Orçamento de CO₂ individuais em cada estado participante. Cada um deles limita as emissões de usinas de energia elétrica (usinas termelétricas que usam combustíveis fósseis com capacidade igual ou superior a 25 megawatts), emite créditos de carbono (chamadas licenças de emissão de CO₂) e estabelece a participação em leilões regionais destes créditos [RGGI1, 2025]. Até 2023 houve uma economia de US$2,7 bilhões em contas de energia ao longo da vida útil do produto, ocorrendo ~7 milhões de toneladas de emissões de CO₂ evitadas [RGGI2, 2025].

No mercado voluntário, em 2024, os desenvolvedores de projetos dos EUA emitiram 22% dos créditos globais, dominando setores como silvicultura, agricultura, captura de carbono e gestão de resíduos [bipartisan, 2025]. Em 2025, os EUA saíram do Acordo de Paris sobre o Clima causando preocupações sobre os impactos principalmente para o mercado voluntário deste país que tem atualmente 2.300 projetos ativos. Destes projetos, ~30% são de remoção de carbono abrangendo tanto soluções técnicas (como captação direta de ar e BECCS) quanto projetos baseados na natureza (como reflorestamento) [Nordahl, 2025].

Um exemplo de mercado voluntário dos EUA é o acordo da Archer Daniels Midland (uma gigante norte-americana do agronegócio) firmado com a Super6 Carbon (empresa especializada em redução de emissões de GEEs). O objetivo é a captura e o armazenamento de CO₂ que é injetado a mais de 1,5 km de profundidade no Arenito Monte Simon, que ocorre em estados do centro-oeste dos EUA [Velev 2025].

Testemunhos de sondagem obtidos pelo Serviço Geológico de Ohio, nos EUA, onde se observa o Arenito Mount Simon do Cambriano Médio.
Este arenito é encontrado subjacente ao centro-oeste dos EUA, estendendo-se sob parte de Illinois, Indiana, Ohio e Kentucky. A variedade de ambientes deposicionais desta rocha resulta em uma formação heterogênea com porosidade, permeabilidade e propriedades mecânicas variáveis adequadas para armazenamento subterrâneo de CO₂ [Dewers et al, 2014; Agarwal, 2025].
(Crédito: James St. John).

5.3.3. México

Os principais pontos da política climática do México (10 no mapa acima) incluem [CAR, 2026]:
  • A Lei Geral sobre Mudanças Climáticas, aprovada em 2012, estabelece uma série de metas de energia limpa e instrumentos de política pública, como o sistema obrigatório de relatórios de GEEs e o Registro Nacional de Emissões.
  • O imposto sobre combustíveis fósseis, aprovado em 2013, permite que os emissores usem créditos de carbono gerados por projetos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, embora as regras para a aplicação destes créditos ainda não tenham sido definidas.
  • O programa-piloto do SCE foi lançado em 2020 e o conjunto final de protocolos e regras está atualmente em revisão.
  • As Contribuições Nacionalmente Determinadas tem metas incondicionais de redução de emissões de GEEs em 22% (sendo 36% condicionais) e de emissões de carbono negro em 51% (sendo 70% condicionais) ate 2030.
  • Os impostos estaduais sobre carbono foram aprovados em sete estados (Baja California, Estado do México, Guanajuato, Jalisco, Querétaro, Yucatán e Zacatecas).
  • Os organismos de verificação são creditados pelo International Accreditation Forum e estão associados ao American National Standards Institute para credenciamento de programas.
O mercado voluntário de carbono do México tem a participação de diversos projetos baseados na natureza, incluindo nove projetos de manguezais certificados [FC, 2025]. Os ecossistemas de carbono azul incluem mais de um milhão de hectares de manguezais já considerados financeiramente viáveis ​​para restauração sob os preços atuais do carbono. No entanto, apesar desse potencial, os créditos de carbono azul ainda representam apenas 0,2% dos créditos negociados [Denke, 2025].

5.4. Oceania

5.4.1. Nova Zelândia

O relatório das emissões climáticas de 2025 sobre o SCE da Nova Zelândia (51 no mapa acima) apresenta os seguintes resultados [NZreport, 2025]:
  • de 2019 a 2023, as emissões brutas totais de GEEs diminuíram de forma constante em toda a economia, mesmo antes de ser contabilizada a remoção pelas florestas;
  • entre 2022 e 2023, houve uma redução de 2% das emissões, sendo que o ano de 2023 registrou o menor nível de emissões brutas desde 1999;
  • com a inclusão das remoções pelas florestas, as emissões brutas caíram 2%; e
  • há indícios de que as emissões brutas diminuíram em todos os setores entre 2023 e 2024, exceto no setor de energia, onde o aumento foi devido ao crescimento das emissões provenientes da geração de eletricidade.

5.4.2. Austrália

O Mecanismo de Salvaguarda da Australia (40 no mapa acima), que passou a funcionar em 2024, atribui valores de referência (no esquema "baseline and credit") de emissões às maiores instalações dos setores industrial e de transportes. Aquelas que emitem acima dos seus valores de referência são obrigadas a compensar o excesso de emissões e as demais recebem créditos [ICAP, 2025]. Este mecanismo abrange instalações que emitem mais de 100.000 tCO₂e por ano [CMI, 2022].

O EcoAustralia, outro esforço australiano, utiliza Unidades de Biodiversidade Australianas (UBAs), credenciadas pelo governo, combinadas com créditos de carbono internacionais provenientes de projetos de alta qualidade com certificação Gold Standard. São padrões que estão em conformidade com o Programa Climate Active do governo australiano. Cada UBA equivale a 1,5 m² de vegetação permanentemente protegida e credenciada pelo governo, representando habitats com garantia de preservação perpétua da vegetação por acordo registrado no título de propriedade. Atualmente, o EcoAustralia apoia dois projetos de biodiversidade cadastrados pelo Governo de Victoria [SPeco, 2025]:
  • O projeto Mount Sandy representa um raro bolsão de vegetação nativa intacta na região de Coorong, no sul da Austrália, em terras tradicionais do povo Ngarrindjeri. A gestão do projeto é feita pela comunidade aborígine Raukkan, localizada nas proximidades, supervisionada pelos anciãos Ngarrindjeri, Clyde e Rose Rigney.
  • O projeto Myamyn, na Floresta Estadual de Annya, no sudoeste de Victoria, regenera terras (desmatadas ilegalmente e replantadas com espécies invasoras), incentivando o retorno da vida selvagem nativa.
Outra iniciativa é o Programa de Unidades de Crédito de Carbono Australianas. Esta unidades são produtos financeiros negociáveis ​​e regulamentados pelo governo australiano, correspondentes a créditos de carbono [SPstandards, 2025]. Um dos projetos registrados neste programa visa a ampliação da biodiversidade natural do Parque Nacional Great Otway por meio de reflorestamento de região com espécies que refletem a vegetação local e histórica. Espera-se que sequestre até 300.000 toneladas de dióxido de carbono nos próximos 25 anos [Browning, 2025].

Um coala em uma árvore do Parque Nacional Great Otway, Victoria, Austrália.
A iniciativa Carbono Amigo dos Coalas ("Koala Friendly Carbon") obtém rendimentos do Programa Unidades de Crédito de Carbono Australianas para regenerar 10.000 hectares de habitat rico em coalas no leste da Austrália na próxima década [WWF, 2025].
(Crédito: David Iliff).

5.5. América do Sul

5.5.1. Colômbia

Em 2018, a Colômbia adotou a Lei de Mudanças Climáticas que define disposições para o estabelecimento do SCE (11 no mapa acima) chamado Programa Nacional de Cotas de Emissão de GEEs Negociáveis (PNCTE em espanhol). As receitas obtidas em leilões serão alocadas ao Fundo para a Vida e a Biodiversidade. A lei também inclui ações voluntárias de entidades não regulamentadas que geram reduções ou remoções de emissões de GEEs. O PNCTE terá várias fases até sua implementação completa em 2030. A meta será emitir um máximo de 169,44 mil tCO₂e em 2030 [ICAPcolombia, 2025].

Foi aberta, em 2024, consulta pública sobre a regulamentação do PNCTE para estabelecer sua fase preliminar de acordo com o princípio da gradualidade deste programa. Foi lançada, em 2025, consulta pública sobre a regulamentação do SCE, marcando um passo importante rumo a sua implementação gradual [ICAP, 2025].

5.5.2. Chile

O Chile está desenvolvendo limites setoriais de emissões e preparando um SCE piloto para o setor de energia (12 no mapa acima). Sua lei estruturante sobre Mudanças Climáticas foi promulgada em 2022. O Artigo 14 desta lei estabelece a base para um sistema de limites de emissões de GEEs definidos por tecnologia, setor ou atividade. E o Artigo 15 especifica que as instalações que apresentarem emissões abaixo do seu valor de referência terão certificações para venda. As regras para estabelecer os limites máximos estão em desenvolvimento [ICAP, 2025].

O Sistema de Compensação de Emissões do Imposto Verde do Chile registrou crescimento significativo em seu segundo ciclo, concluído em abril de 2025. Foram compensadas 4,4 milhões de tCO₂e por meio de créditos de carbono. No primeiro ciclo haviam sido compensadas 260 mil tCO₂e (de dezembro de 2023 a abril de 2024). O Sistema de Crédito de Carbono do Chile permite que entidades que emitem 25.000 tCO₂e ou mais anualmente comprem créditos de carbono de projetos localizados em território nacional. No primeiro ciclo, quatro projetos emitiram 190.518 créditos, das quais 57% (108.067) foram comprados. Outros projetos no Chile estão em processo de registro, a maioria dos quais classificados como Agricultura, Florestas e Outros Usos da Terra [Verra, 2025].

5.5.3. Brasil

No Brasil, a lei nº 15.042 de 11 de dezembro de 2024 institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de GEEs (SBCE – 26 no mapa acima) estabelecendo as bases para o Mercado Regulado submetido ao regime de limitação das emissões de GEEs e de comercialização de ativos representativos de créditos de carbono [Câmara, 2024Fazenda, 2024].

O SBCE funcionará com [Pwc, 2025]:
  • Cotas Brasileiras de Emissões (CBEs) – permissões negociáveis que autorizam a emissão dentro dos limites máximos definidos por setor no mercado regulado; e
  • Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões – créditos oriundos de projetos de prevenção ou remoção de emissões (como reflorestamento, captura de GEEs ou energias renováveis), limitado dentro do SBCE, com critérios específicos ainda a serem definidos.
A implantação do SBCE será gradual, com cinco fases e conclusão esperada para depois de 2030 [Pwc, 2025]:
  • fase 1 – regulamentação inicial (12 a 24 meses);
  • fase 2 – implantação de sistema de monitoração, relato e verificação (12 meses);
  • fase 3 – início da obrigação de relatórios e planos de monitoramento para geração do primeiro Plano Nacional de Alocação (PNA) (24 meses);
  • fase 4 – publicação do PNA e início do ciclo de alocação de CBEs e primeiros leilões; e
  • fase 5 –  início do mercado plenamente operacional.
Por outro lado, a implementação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo em 2005, no Brasil, além de ter criado as bases para a regulamentação do mercado de carbono, permitiu também o surgimento do mercado voluntário. Este mercado, em 2023, era dominado por projetos de Energia (63%), seguidos por projetos de Agricultura, Floresta e Outros Usos da Terra (25%). Estes geraram 81% dos créditos em 2020 e 73% em 2021, enquanto os projetos de Energia tiveram uma participação de 18% e 24% respectivamente nos mesmos anos. Dentre os projetos de uso da terra, pode-se destacar dois de desmatamento evitado [Vargas et al, 2023]:
  • O projeto Pacajaí REDD+, localizado em Portel, no Pará, tem o objetivo de evitar o desmatamento em 123 mil hectares de floresta amazônica nativa por meio de ações de monitoramento e fiscalização de áreas privadas de conservação. Assim, evitará a emissão de 10,5 milhões de tCO₂e em 41 anos, de 2008 a 2048. Gera créditos de carbono desde 2014 e até 2023 gerou ~10,1 milhões de tCO₂e. Já foram comercializados e utilizados 16% dos seus créditos, adquiridos por empresas internacionais localizadas em diversos países.
  • O projeto Envira Amazônia, localizado nas proximidades da cidade de Feijó, no Acre, trabalha com uma área de desmatamento evitado de 39,3 mil hectares e até 2023 gerou ~8,4 milhões de créditos. Destes já foram comercializados 33%, comprados por empresas brasileiras e internacionais.
Saguis-de-dorso-branco (Leontocebus melanoleucus) com sua pelagem branca/marfim característica, nas margens do rio Muru, no Acre, nas proximidades de Feijó. 
(A) no Seringal Guajará, em outubro de 2024. 
(B) no Seringal Ouro Preto, em agosto de 2024.
(C) alimentando-se de exsudatos de Acacia paniculata, nos mesmos local e data de B.
Os projetos de carbono florestal, nas proximidades de Feijó, oferecem oportunidade de expandir o conhecimento científico e de promover a conservação da biodiversidade local por meio de estratégias de uso sustentável da terra.
(Crédito: Caram et al, 2025).

5.6. Shell e Microsoft

A Shell e a Microsoft lideraram o mercado de créditos de carbono em 2024, tendo sido as duas maiores compradoras no mercado voluntário de carbono naquele ano [green.earth, 2025].

A Shell comprou 14,5 milhões de créditos de carbono em 2024, consolidando sua liderança pelo segundo ano consecutivo. Deste valor, 9,4 milhões de créditos foram destinados a apoiar projetos florestais e de uso da terra com o objetivo de prevenir emissões por meio da proteção das reservas de GEEs existentes e 2,4 milhões de créditos tiveram destino na energia renovável. A Shell está empenhada em atingir emissões líquidas zero até 2050 [green.earth, 2025]. 

A Microsoft tem anunciado uma série de acordos de remoção de GEEs que abrangem ampla gama de tecnologias e abordagens, incluindo reflorestamento, captura direta de GEEs do ar, remoção dos oceanos e projetos baseados em carvão vegetal. A Microsoft procura apoiar e participar do mercado de créditos de carbono visando se tornar neutra em GEEs até 2030 [Segal, 2024]. 

Um exemplo é o acordo de 2024 que foi anunciado com a Stockholm Exergi com duração de 10 anos, no qual a Microsoft comprará desta empresa sueca mais de 3,3 milhões de toneladas de créditos de carbono provenientes de usina de bioenergia em Värtan, Estocolmo, através da captura e do armazenamento de CO₂ [Segal, 2024].

Planta de cogeração de biocombustíveis da Stockholm Exergi em Värtan, distrito de Hjorthagen, em Estocolmo, na Suécia.
A captura de CO₂ será realizada através de BECCS integrando a usina de cogeração de calor e energia baseada em bioenergia com um processo de captura e armazenamento de CO₂ dos gases de combustão. A forma líquida destes gases é armazenada em rochas sedimentares abaixo do fundo do Mar do Norte, onde o CO₂ se mineraliza ao longo do tempo [Segal, 2024].
(Crédito da imagem: Holger.Ellgaard).

6. Desafios

Seguem alguns desafios a serem enfrentados e vencidos pelos mercados de créditos de carbono.

6.1. Falta de conscientização ambiental

6.1.1. Maquiagem verde

A maquiagem verde (lavagem verde ou mentira verde ou, em inglês, "greenwashing") é uma prática enganosa de marketing ambiental para projetar uma responsabilidade ecológica. É utilizada por organizações para comunicar créditos fraudulentos, falta de adicionalidade, alegações climáticas não verificáveis ou ainda conjunto inicial ("baseline") inflado de observações ou dados críticos inflados usados ​​para comparação ou controle. Estas comunicações minam a credibilidade e a eficácia dos mercados de carbono, desencadeando riscos reputacionais e financeiros. No caso dos mercados voluntários, a maquiagem verde diminui a confiança nestes mecanismos legítimos de financiamento climático. Esta prática pode ser viabilizada por governança deficiente, monitoramento e verificação inadequados e responsabilização limitada [Sasaki, 2025esginside, 2025].

6.1.2. Falso sucesso

Ocorre, por exemplo, quando desenvolvedores de projetos REDD+ selecionam locais onde o potencial de desmatamento é baixo para que possam maximizar seus créditos de carbono. Essa estratégia ajuda que as metas de desempenho sejam alcançadas, mas não evita de fato mais emissões [Moore, 2024].

6.1.3. Vazamento de carbono

Os vazamento de carbono (fuga de carbono ou, em inglês, "carbon leakage"), devido a políticas climáticas unilaterais, ocorre pela busca de jurisdições menos rigorosas [Misch e Wingender, 2024]. Isto acontece quando, por exemplo, uma atividade ou indústria poluente se transfere para outro país com regulamentações menos rigorosas para fugir da tributação [CMW, 2025]. Outro exemplo é o de um navio que manobra para fugir de zonas com regulamentações mais exigentes, causando emissões fora destas zonas [Kotzampasakis e Wooley, 2025].

6.1.4. Dupla contagem

Evitar a dupla contagem é um indicador fundamental de qualidade em projetos de geração de créditos de carbono, garantindo que estes créditos nunca sejam reivindicados por mais de uma entidade [Whiting, 2023], nem vendidos a mais de um comprador ou emitidos em mais de um certificado [climatepartner, 2026]. 

6.1.5. Qualidade e a homogeneidade dos créditos

Os reflexos corretos dos créditos em relação a benefícios ecológicos, como a biodiversidade e a saúde do solo, aumentaria a credibilidade e a eficácia do mercado. Por exemplo, ao contrário das florestas diversificadas, um projeto de reflorestamento com eucaliptos de crescimento rápido pode sequestrar GEEs rapidamente, porém pode prejudicar a qualidade do solo a longo prazo e eventualmente liberar os GEEs armazenado à medida que se decompõem [Dumitrescu e Ansotegui, 2024]. 

6.2. Ilusão de responsabilidade ambiental

Os mercados de créditos de carbono deveriam induzir que os principais emissores realizem reduções reais ou se contentar com suas compensações ("offsettings")? Sabe-se que os créditos gerados por meio de prevenção de emissões (evitando-as) têm impacto ambiental menor do que quando há remoção de GEEs da atmosfera [Dumitrescu e Ansotegui, 2024].

Nestes casos de créditos gerados por projetos de prevenção, a compra cria uma ilusão de responsabilidade ambiental. Em vez de o comprador se preocupar em reduzir suas futuras emissões na fonte (para evitar novos custos), corre-se o risco de ele se satisfazer com tais custos e continuar com seus negócios como de costume. Desta forma, influenciará negativamente a situação das emissões de GEEs na atmosfera [proenviro, 2024].

Influência dos tipos de compradores e vendedores de créditos de carbono na situação das emissões de GEEs na atmosfera.
Os vendedores que evitam emissões são (i) os desenvolvedores de projetos de prevenção (exemplos: de combate ao desmatamento e de energia renovável) [Sylvera, 2026] e (ii) as empresas que estão abaixo do limite máximo de emissões permitido (estas também podem ser compradoras de créditos) [carbonneutral, 2024]Os vendedores que removem emissões são os desenvolvedores de projetos de remoção (exemplos: de reflorestamento, de captura direta de GEEs do ar e de BECCS) [Sylvera, 2026]

6.3. Outros desafios

6.3.1. Fatores externos

A conservação de florestas são afetadas por fatores externos que não podem ser facilmente controlados, como alterações climáticas (cada vez mais frequentes), intensidade e duração de incêndios florestais e tempestades tropicais. Tais fatores podem atingir a vegetação que faz parte de projetos REDD+. Por exemplo, árvores queimadas ou derrubadas liberam GEEs de volta para a atmosfera e estas emissões devem ser deduzidas dos benefícios dos projetos [Moore, 2024].

6.3.2. Vazamentos de emissões

A maioria dos problemas de vazamentos de emissões ("emissions leakage" em inglês) surge do tratamento diferenciado de GEEs em diferentes regiões e circunstâncias. No uso da terra, o vazamento pode ocorrer tanto por atividades de proteção quanto de plantio. Por exemplo, se uma floresta ou área úmida com potencial desmatamento for protegida, esta proteção pode desviar a pressão para outro terreno desprotegido e que será prejudicado em seu lugar [IPCCreport, 2007].

6.3.3. Compreensão fragmentada da qualidade dos créditos de carbono

A fragmentação desta compreensão é sugerida pela falta de consenso sobre os critérios que devem ser adotados para sustentar a qualidade dos créditos de carbono. Além das definições destes critérios apresentarem variações, apenas dois deles parecem ter aceitação universal para serem exigidos nas verificações de qualidade [Huber et al, 2024]: a adicionalidade e a permanência.

6.3.4. Diferenças entre perspectivas de tempo de compradores e vendedores

Compradores de créditos precisam de créditos imediatos para cumprir regulamentações ou atingir metas de sustentabilidade, enquanto os projetos que geram créditos geralmente operam a longos prazos. Por exemplo, projetos como reflorestamento ou sequestro de GEEs nos oceanos podem levar de 15 a 30 anos para atingir o potencial máximo de sequestro. Esta questão traz incertezas quanto do valor futuro dos créditos e quanto as metas de curto prazo do Acordo de Paris [Dumitrescu e Ansotegui, 2024]. 

6.3.5. Volatilidade dos preços

A volatilidade dos preços nos mercados de carbono desincentiva os investimentos de longo prazo. Seguem dois exemplos de queda nos preços no âmbito do EU ETS [Dumitrescu e Ansotegui, 2024]:
  • o excesso de oferta de créditos provocado pela crise financeira de 2008, acabou desestimulando investimentos em tecnologias sustentáveis, como energias renováveis ​​e captura de GEEs; e
  • a atual incerteza econômica e política na Europa compromete o papel do mercado de carbono da União Europeia no incentivo a investimentos sustentáveis.

6.3.6. Transparência da precificação

A transparência da precificação ainda é insuficiente nos mercados voluntários. Ao contrário dos mercados regulados, que possui SCEs transparentes, a falta de informação nos mercados voluntários cria inconformidades entre compradores e vendedores. Embora existam dados de referência, eles estão espalhados por registros, corretoras e bancos de dados privados [Sylvera, 2025].

O verdadeiro preço que pagamos é o valor do que perdemos.

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