"O presente é a chave para o passado"
James Hutton

22 de maio de 2018

O Brasil se move para a esquerda, uma área de atritos

Por Marco Gonzalez(Atualização em 14/08/2026)

Brasil, o país mais à direita na América Laina.
(Crédito: NASA).

Na América Latna, atrito é o que não falta à esquerda. Esta condição decorre da movimentação de enormes massas. Lá, devido à intolerante oposição a esse movimento, os choques são violentos.

Não, este não é um texto político, o posicionamento aqui é outro. Quando nos posicionamos de frente para o norte, à nossa esquerda temos o oeste. É para esta esquerda que o Brasil está indo.

1. Onde estamos, de onde viemos, para onde vamos

Sim, o Brasil se move para a esquerda, mas uma contextualização maior é necessária. O território brasileiro ocupa a parte central da Placa Sul Americana (uma placa tectônica). Esta placa tem 43,6 milhões de km² de área e está localizada entre a Cordilheira dos Andes (um cinturão orogênico ativo), à oeste, e a dorsal Meso-atlântica (uma dorsal meso-oceânica), à leste [Shin, 2014].

A Placa Sul Americana é delimitada pela Placa Africana ao leste, pelas Placas Antártica, Scotia e Sandwich ao sul, pelas Placas de Nazca ao oeste e pelas Placas Norte Andina, Caribenha e Norte Americana ao norte. Há ainda nas proximidades outras microplacas (placas com área menor que 1 milhão de km²) [americastectonics, 2009; Kellevezir et al, 2026].

Placa tectônica Sul Americana e vizinhança.
(Imagem traduzida e adaptada de: Alataristarion).

Nós mesmos não veremos o Brasil chegar à Cordilheira dos Andes, mas vamos juntos naquela direção a uma velocidade tão perceptível quanto à do crescimento das nossas unhas. Para lá segue a Placa Sul-Americana em movimento sob compressão que recebe tanto do leste quanto do oeste [Bezerra et al, 2011; USGS_fast, 2026]:
  • a leste, a Dorsal Meso-atlântica se expande a uma velocidade de mais de 3 cm/ano empurrando a placa Sul Americana para oeste; e,
  • a oeste, principalmente a Placa de Nazca se desloca para leste a uma velocidade de mais de 8 cm/ano, opondo-se ao movimento da placa Sul Americana.
A fronteira entre as placas de Nazca e Sul Americana é conhecida como local típico de sismos e vulcanismo. Nesta região, a velocidade relativa do movimento para oeste da placa Sul Americana em relação à Placa de Nazca varia entre 7 e 9 cm/ano. Parte desta velocidade e desta energia é consumida na formação da Cordilheira dos Andes que age como freio desta convergência tectônica [Norabuena et al, 1999; Clark et al, 2008; USGS_nazca, 2010; geolsoc_andes, 2011; Espinoza e Iaffaldano, 2023; Lang, 2023; Wilson e DeMets, 2025].

Cordilheira dos Andes, no lado esquerdo da América do Sul, uma área de atritos litosféricos.
(imagens adaptadas de: Carlos A. Arango; Jorge Morales Piderit).

1.1. A Placa Sul Americana

A Placa Sul Americana se move para o oeste desde o início da abertura do Oceano Atlântico há ≈130 milhões de anos [Gassmöller et al, 2016].

Esquema de forças atuantes para a movimentação da placa Sul Americana.
(Crédito: notasgeo).

O movimento da Placa Sul-Americana continua devido ao impulso do movimento divergente (ID) leste junto à Placa Africana e à tensão do cisalhamento basal (CB) relacionado ao fluxo astenosférico. Por outro lado, opõe-se a tal movimento o atrito decorrente do movimento convergente (AC) oeste junto à Placa de Nazca e a resistência nos Andes (RA) devido à quantidade de massa gerada com a decorrente elevação topográfica [Silver e Russo, 1998; Husson et al, 2012; USGS_divergent, 2025].

1.1.1. No limite leste

A Dorsal Meso-Atlântica separa as Placas Sul Americana e Africana, elevando-se 2 a 3 km acima do fundo do oceano Atlântico. Um vale em sua crista marca o local a partir de onde as duas placas estão se afastando. Esta dorsal se estende por cerca de 16.000 km sinuosamente desde o Oceano Ártico até próximo à Antártida, com atividades vulcânicas e sísmicas em alguns locais. Sua crista é equidistante dos continentes que a ladeiam formando elevações que, por vezes, ultrapassam o nível do mar, criando ilhas ou grupos de ilhas como as dos Açores, Ascensão, Santa Helena e Tristão da Cunha [geolsoc_div, 2012; unesco_6231, 2017; ella_mid, 2024; guidetoiceland_mid, 2026].

Esquema simplificado mostrando as posições da América do Sul e da África há cerca de 135 milhões de anos, à esquerda, e hoje, à direta, com a localização da Dorsal Meso-Atlântica e de unidades geológicas mais antigas da crosta continental, os crátons.
(Imagens traduzidas e adaptadas de: Woudloper; NOAA)

A Placa Africana inclui o continente africano e grandes porções dos oceanos Atlântico e Índico. Com aproximadamente 61,3 milhões de km², é a terceira maior placa tectônica do planeta. Cerca de metade dessa área é continental, onde foram constatadas diversas mudanças ao longo deste tempo, incluindo rifteamento e variações na subsidência de bacias sedimentares, além de vulcanismo episódico. Atualmente, a Placa Africana está se dividindo em duas: a Placa Núbia, a oeste, que contém a maior parte do continente, e a Placa Somali, menor, que contém a ilha de Madagascar e grande parte da costa leste [Gaina et al, 2013; Hermance, 2022; Dillinger, 2025; Irving, 2026].

Uma colisão das Placas Eurasiática e Africana, há 38 milhões de anos, fez com que esta última desacelerasse sua velocidade, aumentasse a tensão do cisalhamento basal (CB, já mencionado) e, consequentemente, também a velocidade da Placa Sul Americana para oeste [Silver et al, 1998].

1.1.2. No limite sul

A Placa Sandwich é uma microplaca de aproximadamente 180.000 km² composta de litosfera oceânica. Tem limite divergente a oeste com a Placa Scotia, através da Dorsal Scotia Leste. A leste sofre a subducção da Placa Sul Americana [Tarling, 2014].

A Placa Scotia está quase inteiramente submersa sob o Mar de Scotia, perto da Antártida, exceto por uma ponta da América do Sul, em seu lado oeste e pelas ilhas da Geórgia do Sul, no canto nordeste [Fendley, 2014].

Ilha Georgia do Sul.
(Créditos: NASA; Sascha Grabow).

Ao sul da Placa Scotia, localiza-se a Microplaca Shetland na forma de um retângulo pequeno, com cerca de 200 km de largura, mas com limites tectônicos muito complexos [Singh, 2014].

A Placa Antártica, a mais meridional, centrada sobre o Polo Sul, engloba 14,2 milhões de km² do continente da Antártida e ainda se estende pela crosta oceânica circundante [Schnitzer, 2014].

1.1.3. No limite oeste

A Placa de Nazca compartilha com a Placa Sul Americana o maior limite convergente do nosso planeta através da Cordilheira dos Andes, numa extensão de 7.000 km [Shin, 2014].

Zonas vulcânicas
(Imagem traduzida de: NASA/GSFC).
Nos últimos 70 milhões de anos elas têm convergido, tendo a Placa de Nazca um movimento relativo variável em direção à Sul Americana. Nos períodos mais rápidos, a sua velocidade foi de 10 cm/ano e nos mais lentos a Placa de Nazca tem se movimentado a 5-5,5 cm/ano [Shin, 2014].

O choque da Placa de Nazca contra a Sul Americana deforma a borda da Placa Sul Americana causando dobramento das rochas, aumentando a espessura vertical da litosfera na zona de colisão e, assim, molda a Cordilheira dos Andes [geolsoc_conv, 2012].

Provavelmente a maior largura da Cordilheira dos Andes no Peru e na Bolívia (quando comparada com a largura no Chile e na Argentina) se deve a uma subducção no norte mais rápida do que no sul
[Shin, 2014].

De qualquer forma, esta convergência ainda hoje acontece fazendo com que a Cordilheira dos Andes abrigue mais de 200 vulcões potencialmente ativos. A Placa de Nazca, em subducção abaixo da Placa Sul Americana, causa dilatação crustal e, através de rochas sedimentares paleozoicas, comprime e forma cinturão de dobras e cavalgamentos. São formados 4 zonas vulcânicas andinas: Norte, Central, Sul e Austral. Esta última próxima ao limite da Placa Sul Americana com a Placa Antártica
[Shin, 2014].

Vulcão Cotopaxi, no Equador, na Zona Vulcânica Norte.
No mapa, a cor verde corresponde às menores elevações da imagem, enquanto bege, laranja e branco representam elevações cada vez maiores.
A cratera tem diâmetro interno de 120 m x 250 m e externo de 800 m x 650 m [NASA_cotopaxi, 2001].
(Créditos das imagens: NASA; jdniloec).

A Placa Norte Andina tem uma tectônica complexa por estar próxima à junção das Placas Sul Americana, Caribenha e de Nazca. Diferentes regimes de estresse prevaleceram resultando na construção da Cordilheira Oriental da Colômbia. A subducção da Placa de Nazca sob a Placa Norte Andina faz com que região, como era de se esperar, seja muito propensa a atividade vulcânica e sísmica [caribbeantectonics, 2014; Afanador et al, 2023; Marconato et al, 2024].

A Placa Altiplano está localizada nas regiões sul do Peru, oeste da Bolívia e extremo norte do Chile, consistindo principalmente os Andes centrais e o Altiplano do Peru e da Bolívia. A Placa de Nazca está em subducção sob a Altiplano, na fronteira desta, provocando também eventos sísmicos [Bird, 2003; Eshagh et al, 2018; Galland e Sassier, 2020; Jarmołowski et al, 2021; O'Malley et al, 2022; Unsworth et al, 2024].

As regiões de orogenias do Peru, do norte do Chile e do noroeste da Argentina ao norte e ao sul da Placa Altiplano, não são consideradas partes rígidas da Placa Sul Americana. São consideradas regiões de subducção quase horizontal da Placa de Nazca (condição bem caracterizada na região das Sierras Pampeanas) [Bird, 2003].

Vulcão Aracar.
Está localizado no noroeste da Argentina próximo à fronteira com o Chile, na região de subducção da Placa de Nazca. Sua cratera tem 1 a 1,5 km de diâmetro e contém um pequeno lago [NASA_aracar, 2008SI_aracar, 2013].
(Créditos: NASA e Kevin Jones).

1.1.4. No limite norte

A Placa do Cocos é uma jovem placa, com cerca de 23 milhões de anos, com 2,9 milhões de km
² [gatech_cocos,2023; Dillinger, 2025].

A Placa Caribenha, com 3,3 milhões de km², localiza-se no mar do Caribe e inclui a ilha de Hispaniola e a América Central [Dillinger, 2025].

A Placa Norte Americana, com cerca de 75,9 milhões de km², é a segunda maior placa tectônica do planeta. Inclui a maior parte da América do Norte e da Islândia. É delimitada por diversas falhas ativas, como o sistema de falhas de San Andreas, onde interage com a Placa do Pacífico, representando riscos significativos de terremotos [Dillinger, 2025].

A Zona de Fraturas Fifteen-Twenty (também conhecida como zona de fraturas Cabo Verde) está localizada próximo à junção das placas Norte Americana, Sul Americana e Africana. Esta zona é uma consequência da evolução da Dorsal Meso-atlântica nesta região e tem uma tectônica complexa [Fujiwara et al, 2003; Smith et al, 2013].

2. Vantagens e desvantagens de uma área livre de atritos

O planeta Terra é um lugar dinâmico e as áreas mais instáveis se localizam nos limites das placas tectônicas. No caso da Placa Sul Americana, a porção que permaneceu estável durante a evolução das bordas norte e, principalmente, oeste, enquanto era aberto o espaço ocupado atualmente pelo Oceano Atlântico, é conhecida como Plataforma Sul Americana. É nela que o nosso país desfruta de um território afastado de vulcões e grandes terremotos [Schobbenhaus e Neves, 2003; Sowerbutts, 2023].

No entanto, o que ocorre nos limites das placas tectônicas é crucial para a formação de depósitos minerais. Lá há atividade vulcânica e hidrotermal e as rochas de profundidade encontram caminhos de ligação com a superfície. Tudo conspira para ser criado um conjunto de condições adequadas à concentração de minerais [Sowerbutts, 2023].

Mapa da América do Sul com a distribuição dos principais depósitos minerais.
(Imagem traduzida e adaptada de: USGS).

A região andina oferece, além de belas paisagens, grandes possibilidades para recursos minerais. O Chile, por exemplo, é o maior produtor mundial de cobre e o segundo de lítio. A mineração dá importante suporte à economia daquele país, sendo responsável por ≈12% do Produto Interno Bruto (PIB) e ≈57% das exportações. No Brasil, principalmente devido ao seu maior território, o setor de mineração chega próximo a 4% do PIB e contribui com 55% do superávit da balança comercial brasileira [trade chile, 2025; jornaldocomercio_pib, 2026; Garcia, 2026].

Mas é preciso sempre lembrar que a instabilidade na borda de uma placa tectônica, como a Placa de Nazca, produz erupções vulcânicas e, como se não fosse suficiente, também causa terremotos [Gorokhovich, 2026; Laigle et al, 2026].

Terremotos entre 1900 e 2016 na área andina da América do Sul.
(Imagem traduzida e adptada de: USGS).

3. Terremotos e vulcões no Brasil

Os terremotos brasileiros, por estarmos na porção central da Placa Sul Americana, são tipicamente do tipo intraplaca, em geral, de pequena intensidade [Branco, 2014].

Enquanto, no Chile, tremores de magnitude 5,0 na escala Richter se repetem quase semanalmente, no Brasil eles acontecem aproximadamente a cada 5 anos e sismos de intensidade 6,0 só são sentidos por aqui a cada 50 anos em média. O terremoto brasileiro mais intenso registrado aconteceu em 31/01/1955, na Serra do Tombador, em Mato Grosso. Teve magnitude 6,2 mas não causou danos por ter ocorrido em região desabitada. Também com registro, o segundo maior, com magnitude 6,1, aconteceu no mar praticamente um mês após, em 28/02/1955, na costa do Espírito Santo. Por outro lado, relatos históricos e estudos sismológicos indicam que o maior sismo brasileiro conhecido teria acontecido em 1690, na margem do rio Amazonas, a ≈45 km da atual Manaus com magnitude estimada de 7 graus [Branco, 2014; Veloso, 2014; Silveira, 2018; Monteiro e Oliveira, 2026].

Os portugueses, quando da descoberta do Brasil, podem não ter sentido tremores ao pisar em terra firme, mas, se tivessem algum conhecimento a respeito, teriam levado um susto ao avistar o Pico do Cabugi, no Rio Grande do Norte. Ele é reconhecido como um neck de 19,7 milhões de anos que registra o magmatismo continental brasileiro. Já na época do descobrimento, claro, estava extinto, mas pode ter sido o primeiro ponto, no extremo nordeste brasileiro, a ter sedo avistado pelos portugueses, antes mesmo do Monte Pascoal, na Bahia [Ferreira e Sial, 1999; Douglas, 2018; Arruda, 2024].


Pico Cabugi, Rio Grande do Norte.
(Crédito: Patrick).

Os portugueses teriam razão em se assustar. Em média, a cada ano, 50 a 70 erupções vulcânicas acontecem no nosso planeta. São contabilizados cerca de 1.500 vulcões atualmente no mundo, sendo que pouco mais de 600 estiveram ativos nos últimos 10.000 anos. Para nossa tranquilidade, apenas 5% dos vulcões não se localizam nas bordas de placas tectônicas. E, para que essas exceções aconteçam, é preciso que o manto terrestre abrigue um ponto quente (hotspot), local onde o magma concentrado consegue subir à superfície através de alguma brecha, como ocorre nas ilhas do Havaí [Branco_vulcoes, 2014; Zolnerkevic, 2014].

O Brasil, ainda bem, possui somente vulcões extintos, mas hospeda um dos maiores e mais antigos da Terra, com idade estimada em 1,85 bilhão de anos. Está localizado na província aurífera do Tapajós, no Pará, entre os rios Tapajós e Jamanxim e faz parte do evento magmático generalizado chamado Uatumã. Apresenta uma caldeira de 22 km e pertence ao grupo dos vulcões constituídos por magma rico em sílica, que geralmente produz complexos vulcânicos de maiores dimensões. Sua erupção foi um evento catastrófico com derrame de lava e cinza que alcançou centenas de metros de espessura, mas, felizmente, tudo isso aconteceu no Paleoproterozoico [memoria.ebc, 2002; Juliani e Fernandes, 2010; Echeverri, 2015; .

Mesmo assim, é preciso que estejamos conscientes de que, pelo menos na América do Sul, a esquerda continua sendo uma área de atritos onde as massas continuam se elevando em conflitos às vezes violentos. E o pior é que o Brasil, que é o país mais à direita da América Latina, continua se movendo para lá. Fica aqui este alerta.

5 comentários:

Unknown disse...

Muito bom!!

Yarru! disse...

Excelente abordagem

Cris disse...

Amo geografia
Geologia
Sismografia
Adoro ler sobre esses assuntos
Assistir
Enfim
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Petróleo Lusófono disse...

Você já leu Ciclos Naturais: Como a Natureza opera a evolução ? Lançado pela Editora Paco em novembro de 2021?

Tayná Moraes disse...

Excelente análise. E bem acessível ao público geral. Obrigada!

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