14 de novembro de 2017

A China em berço esplêndido

Por Marco Gonzalez


Mapa geológico simplificado da China (por China Geological Survey)

A mineração chinesa é milenar, assim como sua civilização, e conta à sua disposição com mais de 200 mil variedades de minerais encontradas em um território com rochas de todas as épocas geológicas em 25 placas tectônicas diferentes. Dos 171 minerais comercializados no mundo, 154 são produzidos na China e, não por acaso, a economia de 31 das principais cidades chinesas, isoladamente, são comparáveis à economia de países. Por exemplo, a maior cidade chinesa, Xangai, tem Produto Interno Bruto (PIB) equivalente aos Países Baixos.

Com este enfoque, analisa-se a importância da mineração como fator de transformação da China na potência mundial que ela é.

Um berço com muitos chineses

O Brasil e a China são comparáveis em termos de dimensões territoriais.


Dimensão
Brasil
China
Área territorial
8,5 milhões de km2
9,3 milhões de km2
Área do mar territorial
3,2 milhões de km2 (fonte)
3 milhões de km2
Fronteiras
15,7 mil km
20 mil km
Litoral
7,3 mil km
32 mil km
Dimensões do Brasil (fonte) e da China (fonte)
Embora a extensão do litoral chinês seja maior, seu mar territorial é menor que o do Brasil por diversos fatores. Entre eles estão os conflitos históricos da China com Filipinas, Brunei, Indonésia, Malásia, Taiwan e Vietnã, com necessidade de arbitragem pela Corte Internacional de Justiça de Haia.

Se, por um lado, as dimensões gigantescas chinesas são comparáveis às brasileiras, o mesmo não acontece quanto ao número de habitantes. Em dados de 2014, éramos 202 milhões de brasileiros, enquanto lá viviam 1,355 bilhão de chineses. A preocupação com tal população exige algumas providências. Por exemplo, a China está na vanguarda da tecnologia de reconhecimento facial, basicamente por motivos de segurança, obrigando cada Chinês a ser identificado com foto a partir dos 16 anos de idade.

Também temendo que a população ativa não conseguisse sustentar o numero cada vez maior de idosos, o governo chinês alterou a política do filho único para o limite máximo de dois filhos. Com esta medida, a taxa de natalidade logo aumentou e nasceram 2.038 chineses por hora durante o ano de 2016. Neste mesmo ano o aumento populacional foi 1,4 milhão maior que a média de 2011-2015. Até o final desta década, estima-se que a China chegue a 1,42 bilhão de habitantes, o que a leva a um dilema, já que o aumento da quantidade de mão-de-obra torna maior também o custo de sustentá-la.

A taxa de pobreza na China caiu de 57%, em 1992, para 11%, em 2012, mas ainda, em 2014, viviam 82 milhões de chineses com menos de 1 dólar por dia. Um terço da riqueza do país está nas mãos de 1% das famílias mais ricas, enquanto um quarto das famílias mais pobres possuem 1% da riqueza da China.

Xangai com esplendor (por Hbieser/Pixabay)


Xangai sem esplendor (por Gwen24/Pixabay)

Um berço com muito minério

A história da mineração na China tem 3.000 anos, mas somente a partir do final da década de 1970, com a abertura econômica e a adoção da chamada Economia Socialista de Mercado, o PIB chinês cresceu. A mineração teve e tem papel importante neste desenvolvimento.

O território chinês situa-se em uma área tectônica com três crátons do Pré-Cambriano (Sino-Coreano, Tarim e Yangtze-Cathaysian) e quatro cinturões dobrados colisionais do Paleozoico (Huanan Caledonides, Ogchean belt, Tan-Lu fault e Honam fault).

As rochas mais antigas (entre 3,72 e 3,65 bilhões de anos) estão situadas na plataforma Sino-Coreana. Há grandes formações de origem magmática com rochas intrusivas ocupando 1,8 milhões de km² do território, além de muitas formações metamórficas devido às atividades tectônicas.

A China possui 155 depósitos minerais com volumes verificados, sendo 10 de minérios relacionados com produção de energia, 5 de metais ferrosos,41 de metais não ferrosos, 8 de metais preciosos e 91 de minérios não metálicos. Pode-se ter uma boa medida da importância do setor mineral chinês através das seguintes informações:
  • As reservas de terras-raras, tungstênio, antimônio, titânio, vanádio, zinco, metais não ferrosos, magnetita, ferro sulfuroso, fluoreto, espato pesado, gesso e grafite são as maiores do planetaAs reservas de terras-raras correspondem a 80% da mundial e a de antimônio, 50% da total do planeta. A China possui reservas de todos os metais não ferrosos descobertos no mundo.
  • Em segundo ou terceiro lugares no ranking mundial das maiores reservas, aparecem as jazidas de estanho, mercúrio, asbesto, talco e molibdênio. 
  • Em quarto lugar neste ranking ficam as reservas de níquel, chumbo, ferro, manganês e platina. 
  • A reserva chinesa de carvão é a maior da Terra, estando localizada essencialmente no norte e no nordeste do país. 
  • Petróleo e gás distribuem-se principalmente no noroeste, no norte e no nordeste, além da plataforma continental do sudeste. Até 2020, a China pretende chegar a 200 milhões de t anuais de petróleo bruto e 360 bilhões de m³ anuais de gás natural.
Outro modo de se medir a importância da mineração da China para o restante do planeta é através da "lista de risco" elaborada pela British Geological Society. Ela contém 41 elementos ou grupos de elementos que oferecem risco ao bom funcionamento de uma economia moderna. A tabela a seguir apresenta os 13 elementos com maior risco relativo.


Elementos ou grupos de elementos
Índice relativo de risco de oferta
Produtor principal
Reserva principal
Terras-raras
9,5
China
China
Antimônio
9,0
China
China
Bismuto
8,8
China
China
Germânio
8,6
China
Vanádio
8,6
China
China
Gálio
8,6
China
Estrôncio
8,3
China
China
Tungstênio
8,1
China
China
Molibdênio
8,1
China
China
Cobalto
8,1
R.D. do Congo
R.D. do Congo
Índio
8,1
China
Arsênio
7,9
China
Magnésio
7,6
China
Rússia
Parte da lista de risco de 2015 da Britsh Geological Society (fonte)

O risco relativo de cada elemento na lista de risco é calculado considerando fatores que podem afetar sua oferta e impactar a economia e o estilo de vida de quem dele necessita. Os fatores incluem principalmente a abundância na crosta terrestre, a localização da reserva, a estabilidade política do local produtor e a quantidade de países onde se concentra a produção.


Principais produtores globais dos elementos de maior risco (fonte)

Na lista de risco, 39 elementos tem um único produtor principal global. O gráfico acima mostra o número de vezes em que um país aparece nestas condições naquela lista.

Verifica-se que a China têm predominância em muitos metais e minerais na lista de risco e aparece como detentora das principais reservas de 12 elementos ou grupos de elementos: terras-raras, antimônio, bismuto, vanádio, estrôncio, tungstênio, molibdênio, bário, carbono (grafite), selênio, estanho e titânio.

Para manter tal predominância, a estratégia de desenvolvimento adotada atualmente pelo partido comunista chinês é favorável ao setor de mineração, pelo menos a médio prazo. Por outro lado, a poluição é um entrave. Um terço das licenças para mineração de minério de ferro foram canceladas como parte do esforço para melhorar a qualidade do ar do país, fazendo aumentar a importação desse recurso. Neste mesmo sentido, a China Association of Circular Economy tem se tornado referência na promoção e apoio a inovações tecnológicas para o aproveitamento de rejeitos e resíduos.


Xangai e a poluição (por Erhard_Renz)

A China e o mundo

Atualmente, a China iguala-se aos EUA em volume de ajuda externa a nações em desenvolvimento, em termos de subsídios ou empréstimos financeiros, com algumas diferenças: a proporção de subsídios chineses é menor que a americana e os empréstimos da China em grande parte visam retorno financeiro.

Quanto à mineração, alguns exemplos podem dar a dimensão da abrangência mundial chinesa. 
  • A maior estatal de petróleo da China, Sinopec, em acordo com os EUA, irá desenvolver um projeto de gás natural de US$ 43 bilhões no Alasca. 
  • Desde 2011, estima-se que a China tenha investido 15 bilhões de euros em Portugal. 
  • No final de 2015, a China comprometeu-se em investir US$ 60 bilhões na África.
  • 90% dos investimentos chineses na América Latina e Caribe visam atividades extrativas (principalmente mineração e petróleo). Entre 2010 e 2016, a China investiu US$ 90 bilhões na região.
A China e o Brasil

Desde 2003, a maior parte dos investimentos chineses de US$ 87 bilhões previstos e/ou liquidados no Brasil são oriundos de empresas de capital público. Neste período, os setores de energia e mineração concentram mais de 85% dos investimentos confirmados (US$ 42,9 bilhões). Nos meses de agosto e setembro de 2017, quatro projetos de investimento chineses se efetivaram, totalizando mais de US$ 3,1 bilhões. Eles incluem duas áreas para exploração petrolífera com o aporte total de US$ 7,72 milhões. 

Muralha da China (por Bernard Goldbach)

Na China, surge um novo bilionário a cada três semanas, de acordo com o chefe de gestão de patrimônio da UBS Securities daquele país. Devíamos perguntar: para onde os chineses nos levam? E, se soubermos responder esta, há outra dúvida: é para lá que queremos ir?

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