24 de setembro de 2018

Na busca da felicidade: o desenvolvimento humano e a mineração

Por Marco Gonzalez


No caminho desde os neandertais até a fundição do aço foi preciso minerar.
(composição de imagens de parte de mural, pintado a óleo em 1920 por Charles R. Knight, e de foto adaptada)

A felicidade pode ser medida através de saúde, conhecimento e conforto? Talvez sim, talvez não. Dependendo de cada um, a felicidade pode ser bem mais que isso, ou bem menos.

Com objetivos mais concretos, saúde, conhecimento e conforto são considerados na composição do índice de desenvolvimento humano (IDH). Ele pode ser usado, entre outras coisas, para questionar escolhas políticas nacionais, sendo possível constatar como países com semelhantes condições de riqueza alcançam distintos níveis de desenvolvimento humano.

Não, este não é um texto político, pelo menos não muito, e certamente não é de auto-ajuda. Nele não há qualquer receita para a busca da felicidade, mas há dados para reflexão que talvez ajudem. Sabe-se que escolhas felizes necessitam de boas informações como as que relacionam desenvolvimento humano e mineração.

Desenvolvimento Humano

O IDH é a média geométrica dos índices normalizados de três principais dimensões do desenvolvimento humano: (i) uma vida longa e saudável, (ii) o conhecimento e (iii) o padrão de vida. A consideração destas três dimensões evita que uma região seja avaliada apenas através do seu crescimento econômico.


Índice de Desenvolvimento Humano de 2017 por país (UNDP - imagem)

A United Nations Development Programa (UNDP) apresentou o IDH de 2017 onde o Reino da Noruega (IDH 0,953), na Europa, e a República do Níger (IDH 0,354), na África Ocidental, são os extremos de um mundo com IDH médio 0,728.

IDH x Mineração

Para relacionar desenvolvimento humano com mineração, este texto utiliza dados de produção e reservas de alguns países, no ano de 2017, referentes às commodities minerais mais negociadas no mundo. Elas são petróleo, ferro, ouro, cobre, alumínio e prata.

Petróleo

A produção mundial de petróleo cresceu apenas 0,6 milhão de bpd (barris por dia) em 2017, abaixo da média pelo segundo ano consecutivo, chegando a 97,9 milhões de bpd. Enquanto isso, a demanda mundial cresceu 1,7 milhão de bpd.

As regiões do Mar Cáspio e do Golfo Pérsico têm grande importância na produção de petróleo. A primeira, uma das mais antigas áreas nesta atividade, inclui Rússia e Cazaquistão. Na segunda, uma das regiões do planeta mais instáveis politicamente, concentram-se relevantes países produtores, como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes e Qatar. O Irã pertence às duas regiões, sendo o único país não-árabe dentre os relacionados na região do Golfo Pérsico. maior produtor de petróleo, entretanto, está do outro lado do Atlântico. Em 2017, os EUA teve um crescimento de 5% em sua produção em relação a 2016.


Principais países produtores de petróleo em 2017 (EIA)

No mapa acima e no gráfico seguinte estão relacionados somente os países que tiveram produção de petróleo maior que um milhão de bpd. A produção somada destes países correspondeu a pouco mais de 87% do total mundial.

O gráfico a seguir (IDH x produção de petróleo) mostra que, dos países relacionados: 
  • 50% apresentaram IDH maior ou igual a 0,8 e
  • somente dois tiveram IDH menor que 0,6. 

IDH x produção de petróleo com os principais países produtores em 2017

Ferro

produção mundial de ferro em 2017 foi de 2,3 bilhões de toneladas, o que significou um acréscimo de 280 milhões de toneladas em relação a 2016. Apesar deste aumento, 54% dos principais países produtores diminuíram a quantidade do ferro produzido. Os produtores de pequeno porte e alto custo continuaram a interromper suas operações. Países da África Ocidental, especificamente Serra Leoa, afetados pelo vírus Ebola, enfrentaram dificuldades na produção devido a quedas no preço do ferro e à escassez da mão-de-obra. 

A mineradora multinacional Vale, foi a maior produtora mundial de minério de ferro em 2017.

mercado global de ferro e aço, em 2017, continuou tendo uma tendência de reequilíbrio após o excesso de minério de ferro da Austrália e do Brasil e de  produtos chineses de aço. O consumo global de aço deverá aumentar de 1,54 bilhão de toneladas em 2017 para 1,55 bilhão de toneladas em 2018.

Principais países produtores de ferro em 2017 (USGS)

No mapa acima e no gráfico seguinte estão relacionados somente os países que produziram mais do que 25 milhões de toneladas de ferro individualmente. A produção somada destes países correspondeu, em 2017, a pouco mais de 97% do total global. Das reservas mundias estimadas em 170 bilhões de toneladas de ferro, mais de 89% pertencem a estes países.

O gráfico a seguir (IDH x produção de petróleo) mostra que, dos países relacionados: 
  • 50% apresentaram IDH maior ou igual a 0,8 e
  • nenhum teve IDH menor que 0,6. 


IDH x produção de ferro com os principais países produtores em 2017

Ouro

As produções da Austrália e do Canadá mais do que compensaram a diminuição da produção da China, que sofreu com regulamentações ambientais, fazendo com que a produção mundial de ouro em 2017 (3.150 toneladas) crescesse aproximadamente 1,3% em relação a 2016.  

Apesar de a produção de 2017 ter sido recorde após nove anos de crescimento lento, em muitos países, especialmente nos mercados em desenvolvimento ou emergentes, a produção de ouro declinou nos últimos anos, ainda que os preços do metal venham aumentando desde 2016.

Nos três primeiros trimestres de 2017, a indústria de joias aumentou seu  consumo ligeiramente e a produção de moedas e barras de ouro tiveram um aumento de 13% em relação ao mesmo período de 2016. Entretanto, os investimentos em fundos baseados em ouro negociados em bolsas foram significativamente menores.

Principais países produtores de ouro em 2017 (USGS)

No mapa acima e no gráfico seguinte estão relacionados somente os países que produziram mais do que 50 toneladas de ouro individualmente em 2017. A produção somada desses países corresponde a pouco mais de 73% do total global. Das reservas mundiais estimadas em 54.000 toneladas, pouco menos de 78% pertencem a estes países. 

O gráfico a seguir (IDH x produção de petróleo) mostra que, dos países relacionados: 
  • quase 36% apresentaram IDH maior ou igual a 0,8 e
  • somente dois tiveram IDH menor que 0,6. 

IDH x produção de ouro com os principais países produtores em 2017

Cobre

O International Copper Study Group projetou, para o cobre refinado em 2017, um consumo de cerca de 24 milhões de toneladas, um pouco superior à produção no mesmo ano. Isto aconteceu devido a interrupções no suprimento de diversas mineradoras, ao teores inferiores do minério e à ausência em geral de novos projetos e de expansões das minas em operação. 

A produção de cobre caiu pelo segundo ano consecutivo no Chile que, entretanto, ainda se manteve como maior produtor. Lá estão seis das dez maiores minas de cobre do mundo, estando a maior delas, a mina Escondida, no deserto do Atacama.

Em 2017 foi quebrada a barreira de US$ 7.000 por tonelada de cobre pela primeira vez em vários anos. O aumento de cerca de 27% no preço do cobre aconteceu em parte devido à menor produção mundial (19,7 bilhões de toneladas) e ao continuado crescimento do consumo chinês. 


Principais países produtores de cobre em 2017 (USGS)

No mapa acima e no gráfico seguinte estão relacionados somente os países que produziram mais do que 600 mil toneladas de ouro individualmente em 2017. A  produção somada destes países correspondeu a pouco mais de 78% do total global. Das reservas mundiais estimadas em 790 milhões de toneladas, aproximadamente 67% pertencem a estes países. 

O gráfico a seguir (IDH x produção de petróleo) mostra que, dos países relacionados: 
  • 40% apresentaram IDH maior ou igual a 0,8 e
  • somente dois tiveram IDH menor que 0,6. 
IDH x produção de cobre com os principais países produtores em 2017

Alumínio

Com os preços com tendência de crescimento ao longo de 2017, a produção mundial de alumínio primário, em comparação a 2016, aumentou 3,4%, alcançando aproximadamente 60 milhões de toneladas. Os estoques mundiais diminuíram de 2,2 milhões de toneladas no final de 2016 para 1,24 milhão no final de 2017.

A China, o maior produtor mundial de alumínio eletrolítico, contribuiu com mais de metade da produção global, embora sua produção tenha crescido apenas 2,2% em 2017. Isto aconteceu em razão de instruções de cortes do governo chinês para resolver problemas de operação com capacidade ilegal ou velha, ociosa e não competitiva.


Principais países produtores de alumínio em 2017 (USGS)

No mapa acima e no gráfico seguinte estão relacionados somente os países que produziram mais do que 700 mil toneladas de alumínio individualmente em 2017. A produção somada destes países correspondeu a pouco menos de 87% do total global. Da capacidade de produção mundial, ao final de 2017, estimada em 76,9 milhões de toneladas, pouco mais de 87% são devidas a estes países. 

O gráfico a seguir (IDH x produção de petróleo) mostra que, dos países relacionados: 
  • 75% apresentaram IDH maior ou igual a 0,8 e
  • nenhum teve IDH menor que 0,6. 
IDH x produção de alumínio com os principais países produtores em 2017

Prata

Em 2017 a produção mundial de prata (25.020 toneladas) diminuiu principalmente em países como Argentina, Austrália, Bolívia, Chile, Peru e EUA. Essa redução nos maiores produtores mundiais foi causada por problemas governamentais com licenciamento, redução de teores e greves de trabalhadores em vários projetos. 

O México, embora também tenha sofrido com greves, foi o maior produtor de prata em 2017. Lá opera Fresnillo, uma das empresas de prata mais produtivas do mundo que extrai prata e ouro em seis minas diferentes naquele país e tem vários outros projetos em diversos estágios de desenvolvimento. 

consumo mundial de prata diminuiu cerca de 5% de 2016 para 2017, incluindo redução significativa na produção de moedas e barras, minimizada pela indústria e pela fabricação de jóias e prataria. Os estoques de prata refinada no final de 2017 continuaram aumentando. 


Principais países produtores de prata em 2017 (USGS)

No mapa acima e no gráfico seguinte estão relacionados somente os países que produziram mais do que 1000 toneladas de prata individualmente em 2017. A  produção somada destes países correspondeu a pouco mais de 85% do total global. Da reserva mundial, em 2017, estimada em 530 mil toneladas, pouco mais de 89% pertence a estes países. 

O gráfico a seguir (IDH x produção de petróleo) mostra que, dos países relacionados: 
  • 60% apresentaram IDH maior ou igual a 0,8 e
  • nenhum teve IDH menor que 0,6. 

IDH x produção de prata com os principais países produtores em 2017

A busca da felicidade

Além de continuar gerando emprego e produzindo seus tradicionais bens e serviços, nos últimos anos, a mineração tem desenvolvido técnicas atualizadas de gerenciamento para minimizar com eficiência muitos impactos negativos. Esta tendência é resultado dos esforços das empresas do setor que visam reduzir os prejuízos ambientais e sociais, procurando tornar mais leve a pegada das atividades mineiras ao longo de seus ciclos de operação.

A propósito, o International Council on Mining & Metals (ICMM), em pesquisa de 2016 com dados de 1995 a 2015 de diversos países, chegou às seguintes conclusões (dentre outras):
  • A vida das pessoas em países dependentes de mineração (que geram mais de 75% de sua receita com exportação de bens do setor mineral, exceto hidrocarbonetos) está melhorando. Várias métricas indicam progressos sociais substanciais nas últimas duas décadas. Hoje, as pessoas naqueles países são geralmente mais saudáveis, mais ricas e mais instruídas do que anteriormente.
  • O progresso sócio-econômico observado entre os países dependentes de mineração é forte, mesmo quando comparado com o progresso de outros países, incluindo os dependentes de hidrocarbonetos (que geram mais de 75% de sua receita com exportação de petróleo, gás e carvão).
Artigo publicado em 2017 no American Journal of Environmental Science and Engineering concluiu que, no Brasil, os municípios com atividades de mineração apresentam Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM - IDH aplicado a municípios) com valores superiores àqueles dos municípios com atividades não mineradoras, especialmente nos dois principais estados com vocação mineral: Pará e Minas Gerais. No Pará, os municípios com atividade mineradora apresentam IDHM superior a 93% dos que não têm presença da mineração. Em Minas Gerais este número é de 91%.

Felizmente a mineração faz parte do nosso dia a dia, mesmo que não notemos. Ela está presente, por exemplo, na realização do sonho da casa própria. Sim, a felicidade pode ser feita de grandes ou de pequenas coisas. Você lembra da "casinha pequenina"? A construção civil também necessita dos produtos da mineração. E mesmo em pequenas grandes coisas, como no caso do "coqueiro do lado", a mineração pode contribuir para a remineralização do solo

Claro, a felicidade também pode ser como a gota de orvalho numa pétala de flor. Neste caso o IDH não vai conseguir medir, a mineração terá dificuldades para ajudar e pode haver conflito com o meio ambiente. É onde entra a sustentabilidade, que deve se sustentar em boas informações.

Escolha bem. As escolhas sábias são as que nos fazem felizes.

Nenhum comentário: