8 de dezembro de 2017

Pior não fica: uma fábula minero-animal

Por Zelaznog Ocram


A mineração (por Khushie Singh) e as raposas (por Rylee Isitt) 

Era uma vez, muito tempo atrás, três raposas que viviam no velho mundo e haviam recebido uma herança. Com a grana, elas migraram para diferentes países do planeta com a desculpa de dar sentido a vida e a esta história. Aquelas três aventureiras tinham um único objetivo na vida: sobreviver agora porque, depois, melhor podia não ficar.

E lá se foram elas...


A primeira raposa foi morar num país chamado Cá-não-dá, onde o que não dava era para ter preguiça, pois o frio, principalmente no inverno, era intenso e uma boa alimentação era indispensável para sobreviver. 

Como era esperta, teve uma ideia. Passou a irritar o ferreiro vizinho a ponto de ele não ter outra saída senão atirar nela um martelo de geólogo. Depois, tudo se resolveria. A estratégia era a seguinte. Por ser sabida, ela havia percebido que uma determinada pedra estava mineralizada com um material prateado e outro de cor azul-cobalto. Ela se posicionaria bem próxima a essa pedra, irritaria o ferreiro a mais não poder e, assim que o martelo fosse atirado, ela fugiria. Se todos tivessem sorte, este seria o momento da pedra lascada, o início de tudo.

As pedras e a raposa (por pixabay)

Neste ponto da história, você já deve ter deduzido que a raposa cá-não-dense queria que o desenvolvimento chegasse logo ao país que a recebeu para poder conviver com fartura no galinheiro. Um galinheiro farto é um galinheiro cheio de galinhas. 

A segunda raposa pegou carona com um vendedor de venezianas e foi parar num país chamado Em-se-cavando-tudo-dá. Ele era conhecido lá como Marco do Macarrão e havia ido buscar pimenta. A caroneira espichou os olhinhos de satisfação porque viu muito minério a ser cavado e um óleo preto jorrando da terra. Dispensou a carona da volta e acompanhou a evolução do país. Constatou que em se cavando tudo dava mesmo. Mas notou que, mesmo assim, frequentemente faltava comida e sobrava fralda. Por isso, o governo acabou abrindo o país para o mercado internacional e trocou o nome daquela grande nação para Meidinxina.

Saiba você, entretanto, que naqueles tempos nem todos os países do mundo tinham a vida dura do Cá-não-dá e da Meidinxina. Havia países, como aquele onde o escrivão Pero Vai e Anda, logo que chegou na inauguração, colocou os olhos e disse: 

- Já sei como vai se chamar isto aqui: Em-se-plantando-tudo-dá!


Momento da inauguração de Braseiro
(Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500 por Oscar Pereira da Silva)

A terceira raposa, muito instruída em história, sabendo disso, migrou para Braseiro. Sim, os nativos da região, como o ensino básico era fraco e tinham dificuldade de soletrar, para não gaguejar deram ao Em-se-plantando-tudo-dá o apelido de Braseiro. Inspiraram-se no calor, principalmente no verão e nas regiões menos castelhanas. O povo era gentil e bastava uma plantaçãozinha para se ter o que comer. Os braseireiros sempre viram que ali dava para ter preguiça, mas não pensaram duas vezes quando viram que o óleo preto do Pré-Ságio não podia ser dos outros: criaram a Óleobras. Era o país do futuro, onde a banana era vendida a preço de nióbvio, uma comercialização muito controversa que gerou a Questão do Óbvio. No futuro acabaram vendo que não era nada óbvio.

Antes de continuar, é preciso explicar que uma cigarra vai entrar nesta história por já ter tido experiência em outra fábula. Além disso, como cigarras e formigas falavam o mesmo idioma naqueles tempos do fabulista La Fonte, parece coerente que cigarras e raposas também tivessem facilidade de comunicação. Outra justificativa é a capacidade de voo que as cigarras têm e que é bem necessária aqui.

Voltando à história, os anos se passaram e, depois de diversos ciclos econômicos, a cigarra que vivia cantando, programou fazer um tour pelo mundo. Como não podia e não queria pagar estadia nem alimentação, foi visitar as raposas desta história, que, por conveniência deste autor, eram suas velhas conhecidas desde quando todas viviam no velho mundo. 

Como parece natural, a cigarra foi visitar primeiramente a primeira raposa. Ao chegar em Cá-não-dá, soube que a raposa cá-não-dense havia tido sucesso em seu plano: escapara do martelo e havia aplicado sua herança na compra de galinheiros e em pedrinhas azul-cobalto. Hoje ela vive feliz rodeada de galinhas e, com o advento do carro elétrico e do telefone celular, sobe cada vez mais o valor dos materiais lascados da cor azul-cobalto. Depois de passear pelas cataratas, feliz, a cigarra deixou o país do esporte dos encontrões no gelo.


A raposa meidinxinesa quase irreconhecível

Na sequência, a cigarra, como havia programado, chegou à Meidinxina. Encontrou lá a raposa meidinxinesa cavando e custou a reconhecer a amiga. Naquele país dos olhinhos puxados era proibido abrir os olhinhos e a raposa cumpria esta ordem cegamente. Embora cavasse muito, a raposa não ficou rica, já que tudo que ganhava ia para o governo. Além disso, toda a sua parte da herança havia sido investida nas escavações. Para arejar a cabeça na busca da paz celestial, a cigarra visitou os templos com Fúcio, o guia, e dirigiu-se ao terceiro destino de sua viagem.

A cigarra atravessou mares e ares e chegou a Braseiro, para onde a terceira raposa havia migrado. Dando uma gorjeta aqui e outra ali, conseguiu encontrar a amiga. Soube, então, que, esta era a terra do jeitinho, do atraso protocolar e da seleção (apesar dos 7 a 1, a seleção era a melhor do mundo e nem era preciso dizer o nome do esporte). A cigarra soube que a raposa braseireira havia se dedicado ao Setor Mineral, mas não havia tido muito sucesso. Sobravam justificativas. Era a terra da Reserva Renga, que, apesar de renga, ia e voltava. Para completar, o Parlatório das Leis havia esquecido de votar o marco regulatório do setor. Quando o dinheiro da raposa chegou ao fim, ela decidiu plantar mandioca e vivia tomando leite de coco à sombra das palmeiras. 


Mandioca, o sustento da raposa braseireira (do livro de Albert Eckhout)

Como vivia de cantar e acreditava que pior não ia ficar, a cigarra, por ali também foi ficando.

Moral da história:
Nas fábulas, seja a terra pobre ou rica, mesmo em se gastando, pior não fica.

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