"O presente é a chave para o passado"
James Hutton

6 de setembro de 2019

Sol e Terra: um relacionamento de vida e morte - Parte I

Por Marco Gonzalez(Atualização em 17/08/2026)

O Sol com a ejeção de massa coronal de 31/08/2012 em foto captura pelo Solar Dynamics Observatory, instalado em satélite do programa "Living With a Star" da Nasa. A Terra, que talvez tenha passado desapercebida, encontra-se no canto inferior esquerdo da imagem, em montagem com tamanho da Terra e do Sol em escala, mas, para nosso planeta aparecer na foto, a uma distância do Sol aproximadamente 320 vezes menor que a real.
(Imagem adaptada de: nasa).

O relacionamento entre o Sol e a Terra é muito antigo. Conhecendo-se cada um dos dois e o que se passa entre eles, constata-se que pode ser um caso de vida e morte. Ou não?

1. Introdução

O relacionamento entre o Sol e a Terra começou há ≈4,6 bilhões de anos quando o Sistema Solar nasceu do colapso da Nebulosa Solar. Quase todos os fragmentos desta nebulosa foram arrastados para o seu centro formando o Sol e o material que restou foi usado para formar principalmente os planetas, como a Terra [nasa_solar_system, 2026].

Tendo sido formados da mesma nuvem de poeira e gás, Sol e Terra são constituídos por praticamente os mesmos componentes, com uma pequena e importante diferença: a Terra tem menor quantidade de elementos voláteis que evaporam facilmente, mesmo a temperaturas mais baixas. De qualquer forma, parece ter sido um bom começo com bons indícios de um relacionamento duradouro [Norris e Wood, 2017; Braukmüller, 2019; Howells, 2024; Calvo et al, 2026].

As aparências parecem sugerir que Sol e Terra têm uma relação harmoniosa, pois a energia que vem do Sol aquece a Terra, impedindo-a de congelar. Nossa atmosfera retém a energia solar na forma de calor e são mantidas temperaturas razoavelmente confortáveis em boa parte do planeta. São as conexões e interações entre o Sol e a Terra que determinam no nosso planeta as estações climáticas, além das correntes oceânicas, dos cinturões de radiação e das auroras, [nasa_sun, 2026; ucar_energy, 2026] porém...

... até recentemente, acreditava-se que o Sol nos enviava apenas calor e luz e isto nos confortava, entretanto, aos poucos outras radiações e materiais corpusculares enviados pelo Sol foram sendo descobertos [Neale et al, 2023; nasa_sunburn, 2026]. Será que estas descobertas justificariam acreditar em um relacionamento de vida e morte entre o Sol e a Terra?

2. O Sol

Esta bola de gases incandescentes, cuja gravidade mantém o Sistema Solar unido, inclui em sua órbita desde grandes planetas até pequenas partículas de detritos. O Sol é composto, em volume, por 91% de hidrogênio e 8,9% de hélio e, em massa, por 70,6% de hidrogênio e 27,4% de hélio. Com raio de 695.508 km, tem 332.946 vezes a massa da Terra e 1,3 milhão de vezes seu volume [netlify_sun, 2026; nasa_sun, 2026].

O Sol orbita o centro da Via Láctea e, com velocidade média de 720.000 km/h, leva ≈230 milhões de anos para dar uma volta completa nesta órbita. Carrega consigo seus planetas, além de outros objetos do espaço que estão em seu domínio de gravidade. Completa uma volta ao redor de si mesmo em 25 dias terrestres na altura da linha do equador solar e em 36 dias terrestres na região dos polos [nasa_sun_facts, 2025; nasa_sun, 2026].

3. A Terra

A Terra é o único lugar no Sistema Solar com água líquida na superfície e o único que conhecemos no Universo, até agora, que é habitável por seres vivos [nasa_earth_facts, 2025].

A Terra, com um raio de 6.371 km, completa uma rotação em torno de si a cada 23,9 horas e realiza órbita completa ao redor do Sol a cada 365,25 dias. Seu eixo de rotação tem uma inclinação de 23,4 graus em relação ao plano da sua órbita, fazendo com que tenhamos o ciclo anual de estações. Neste ciclo, cada um dos hemisférios fica voltado em direção ao Sol em parte do ano recebendo mais calor. Seu único satélite natural, a Lua, girando em sua órbita, estabiliza a oscilação da Terra e faz com que o clima apresente menos variações ao longo do tempo [Pogge, 2007; lpi_usra_moon, 2022; nasa_earth_facts, 2025; weather_solstice, 2025; Manaskar et al, 2026].

Afélio, periélio, equinócio e a órbita da Terra (em azul) em volta do Sol (em amarelo) e as estações climáticas.
(Imagem traduzida e adaptada de: Caliver).

As estações climáticas se alternam na Terra devido à inclinação do seu eixo de rotação, que afeta a insolação [Chiang e Broccoli, 2023].

4. Estruturas

4.1. Estrutura do Sol

O Sol é subdividido em seis regiões, do interior para o exterior:
  • Núcleo – camada mais interna que deve se estender do centro do Sol até ≈20% do raio solar. As temperaturas e pressões são tão elevadas que átomos de hidrogênio se combinam em átomos de hélio, numa reação que emite luz e calor. A densidade do núcleo é 150 vezes maior que a da água, as temperaturas devem chegar a 15.000.000° C e a pressão equivale a 340 bilhões de vezes a pressão atmosférica da Terra ao nível do mar [Hamilton, 1997; Cain, 2016].
  • Zona radioativa – zona que inicia na borda do núcleo do Sol e se estende até ≈70% do seu raio. Seu conteúdo é quente e denso o suficiente de modo que, como não há convecção térmica, a radiação térmica transfere o calor do núcleo para o exterior [Cain, 2016; Edubirdie, 2021; lco_solar, 2026].
  • Zona convectiva – zona onde as propriedades do plasma fazem com que a energia seja transmitida através de convecção em vez de radiação [Edubirdie, 2021].
  • Fotosfera – camada gasosa com 500 km de espessura, com temperatura de ≈5.500ºC, suficiente para ferver diamante e grafite [nasa_sun_facts, 2025].
  • Cromosfera – camada irregular acima da fotosfera, onde a temperatura sobe de 6.000 °C para ≈20.000 °C [Hathaway_a, 2025].
  • Coroa (Corona) – atmosfera externa do Sol. Ela é visível durante eclipses solares totais como uma coroa branco-perolada que circunda o Sol. Exibe uma variedade de estruturas como filamentos, plumas e arcos. Os arcos são formados por fluxos de gás quente canalizados ao longo de linhas de força magnética. Arcos menores surgem quando campos magnéticos emergem do interior do Sol emitindo raios-X intensos. Esta atividade cresce quando as manchas solares são máximas. Da coroa solar às vezes se projetam transientes coronais [ntrs_nasa, 2013; Hathaway_b, 2025].

Imagem esquemática mostrando a estrutura do Sol.
(Imagem traduzida e adaptada de: nasa)

A força de gravidade do Sol o mantém sob enormes pressões e temperaturas, principalmente em seu núcleo. Lá, o calor chega a 15.000.000ºC, temperatura suficiente para sustentar fusão termonuclear, liberando energia na forma de luz e calor [Cain, 2009; Kennewell e McDonald, 2012; Barbarino, 2023; Hathaway_interior, 2025].

Para sair do núcleo, atravessar a zona radioativa e chegar à zona convectiva, a energia solar leva ≈170.000 anos seguindo seu destino com uma temperatura que cai gradualmente de 15.000.000°C até 2.000.000ºC. Na zona convectiva grandes bolhas de plasma quente se movem para fora do Sol. É liberada uma gigantesca quantidade de energia e, no caminho desta energia, está a Terra [Dhar, 2014; nasa_sun_facts, 2025].

4.2. Estrutura da Terra

Nosso planeta é subdividido em 5 regiões do interior para o exterior:
  • núcleo interno – parte central da Terra, constituída por ferro e níquel, com raio de 1.221 km e temperatura de 5.400ºC [nasa_earth_facts, 2025].
  • núcleo externo – camada externa do núcleo constituída por ferro e níquel líquidos, com 2.300 km de espessura [nasa_earth_facts, 2025].
  • manto inferior – camada com densidade de ≈4,7 localizada abaixo de 1000 km de profundidade. Apesar das altas temperaturas (entre 1.000 e 3000°C, aumentando com a profundidade), mantém-se em estado sólido em função das altas pressões [SIGEP_manto, 2018].
  • manto superior – camada com densidade de ≈3,4 localizada entre as profundidades da descontinuidade de Mohorovicic e 400 km. É o principal fornecedor de magma para a formação da crosta. Há uma zona de transição entre o manto superior e o manto inferior entre 400 e 1000 km com comportamento variável de transmissão de ondas sísmicas perpendiculares. Placas tectônicas em subducção atingem um pouco além do limite entre a astenosfera e a mesosfera, antes do manto inferior, embora placas tectônicas antigas e frias, como a placa de Farallon, tenham ultrapassado este limite [Meer et al, 2018; SIGEP_manto, 2018].
  • crosta – camada mais externa com ≈30 km de espessura média nos continentes e ≈5 km sob os oceanos, que cobrem quase 70% da superfície da Terra. É a parte superior da litosfera constituída, essencialmente, por rochas magmáticas e por rochas delas decorrentes, sedimentares e metamórficas [SIGEP_crosta, 2018; nasa_earth_facts, 2025].

Imagem esquemática mostrando a estrutura da Terra.
(Imagem adaptada de: CharlesC)

5. Atmosferas

O Sol, da fotosfera para o exterior, e a Terra, logo acima da superfície do planeta, são cobertos por suas respectivas atmosferas [nasa_atmosphere, 2024; nasa_sun_facts, 2025]

5.1. Atmosfera do Sol


A tênue cromosfera e a coroa formam a fina atmosfera solar. A temperatura desta região, que havia diminuído na fotosfera, aumenta com a altitude, chegando novamente a 2.000.000ºC. É nesta atmosfera que ocorrem as erupções e, logo abaixo dela, os ciclos de manchas solares. As erupções são de difícil visualização contra a brilhante fotosfera, a não ser nos momentos de eclipse solar total [Dobrijevic, 2023; nasa_eclipse, 2024; Jones, 2025; nasa_sun_facts, 2025; eso_sun, 2026].

O Sol com uma erupção (à esquerda) em foto capturada em 19/12/1973. Estas é uma das protuberâncias solares mais espetaculares já registradas, estendendo-se por mais de 588.000 km pela superfície solar.
(Crédito: nasa).

A radiação da fotosfera chega à Terra rapidamente, em ≈8 minutos [annex_flares, 2026; spacedaily_8, 2026], mantendo "aceso" o relacionamento entre ela e o Sol...

5.2. Atmosfera da Terra

... e quando tal radiação chega ao nosso planeta, encontra-o envolvido por uma atmosfera constituída por 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e 1% de outros gases. A atmosfera da Terra é constituída pelas seguintes seis camadas de baixo para cima [nasa_atmosphere, 2013; noaa.gov.atmosphere, 2024; nasa_earth_facts, 2025; ucar_atmosphere, 2026]:
  • Troposfera – camada mais úmida, engloba 75 a 80% da atmosfera. Suas temperaturas (assim como a pressão e a densidade do ar) diminuem com a altitude. Pode chegar a 20 km de altura perto do equador e a 7 km sobre os polos no inverno. É mais baixa no inverno e mais alta no verão [ucar_troposphere, 2026].
  • Estratosfera – camada muito seca, com poucas nuvens e com temperaturas maiores no topo, fazendo com que seu ar seja pouco turbulento. Alcança até 50 km de altura [ucar_stratosphere, 2026].
  • Mesosfera – camada com as temperaturas mais baixas da atmosfera. Elas diminuem com a altitude, podendo alcançar ≈90ºC. Pode chegar até 85 km de altura [ucar_mesosphere, 2026].
  • Ionosfera – constitui uma série de regiões com número relativamente grande de átomos e moléculas eletricamente carregados, cujas cargas variam durante o dia. Sobrepõem-se à parte superior da mesosfera e à parte inferior da termosfera [ucar_ionosphere, 2026].
  • Termosfera – camada com densidade do ar muito baixa. Suas temperaturas aumentam com a altitude a partir da base até se estabilizarem no topo. Elas se elevam com o aumento da atividade solar, variando entre 500ºC e 2.000ºC, sendo 200ºC mais elevadas durante o dia. Alcança altura máxima entre 500 km e 1000 km [ucar_thermosphere, 2026].
  • Exosfera – camada onde o ar é extremamente rarefeito, assemelhando-se ao vazio do espaço sideral. Por esta razão, alguns cientistas não a consideram como parte da atmosfera. A base desta camada varia de altitude em função da espessura da termosfera que aumenta quando há mais manchas solares, radiação ultravioleta, e raios-X vindos do Sol. Seu limite superior é difuso, já que gradualmente desaparece no espaço (mais ou menos no meio do caminho entre a Terra e a Lua) [ucar_exosphere, 2026].
Esquema das camadas da atmosfera da Terra, abaixo da exosfera, com sprites e as nuvens noctilucente, estratosférica polar, cumulonimbus, estratocúmulos e cirrus.
(Imagem traduzida e adaptada de: socied.ucar.edu).

A Ionosfera favorece a propagação de ondas de rádio até locais distantes da Terra e dificulta a comunicação com satélites. Na termosfera parte dos raios-X e da radiação ultravioleta do Sol é absorvida. Os materiais que entram, devido à falta de convecção vertical, podem permanecer na estratosfera por longo tempo. Alguns acabam favorecendo a criação de buracos na camada de ozônio [Akerele et al, 2024; ucar_thermosphere, 2026; ucar_stratosphere, 2026]

Principalmente na termosfera, acontecem as auroras boreal (as luzes do norte) e austral (as luzes do sul) [ucar_aurora, 2026].
Aurora boreal vista da Estação Espacial Internacional em 07/02/2012.
(Crédito: nasa/jpl).

6. Distanciamento

A Terra dista do Sol ≈147 milhões de km no periélio e ≈152 milhões de km no afélio e, assim como os demais planetas do Sistema Solar, ela está se afastando dele. No início da sua formação, ela estava 67.500 km mais próxima. O afastamento da Terra (≈1,5 cm/ano) acontece pela diminuição da força gravitacional do Sol principalmente devido a sua perda de ≈4,7 milhões de t/s de matéria. Ao longo de sua vida, ele já perdeu 0,03% de sua massa original [Siegel, 2020; astropixels, 2021; Lea, 2023; Siegel, 2024; nasa_earth_facts, 2025; Carter, 2026].

7. Magnetosferas

O campo magnético da heliosfera é o meio pelo qual o Sol interage com as magnetosferas planetárias. Este campo assume, ao girar, a forma de uma Espiral de Parker [Owens e Forsyth, 2013; Peterson et al, 2019]

Além da Terra, somente outros 5 planetas do Sistema Solar possuem magnetosferas, Mercúrio, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, cada uma tão diferente da outra quanto os próprios planetas. A mais poderosa, entre todos os planetas rochosos, é a magnetosfera terrestre. É um escudo para qualquer partícula solar que alcança nosso planeta [ntrs_nasa, 2013; Knapp, 2023; nasa_magnetosphere, 2023].

Sabemos que o campo magnético ao redor da Terra é gerado por correntes elétricas que fluem no núcleo externo terrestre. Atualmente, esse processo de convecção é mantido à medida que o ferro líquido se cristaliza no núcleo interno. No entanto, a relação histórica e dinâmica entre o núcleo externo e o campo magnético da Terra não é totalmente compreendida. Muito do que se sabe é baseado em modelagem hipotética. Felizmente, o campo magnético terrestre parece existir há muito tempo, operando por outros mecanismos térmicos no passado. Há registros geológicos de sua presença há 3,7 bilhões de anos e indícios de que já existia há 4,2 bilhões de anos. [usgs_core, 2022; Nichols et al, 2024; IPGP_geodynamo, 2025; Mound et al, 2025; Rüegg, 2025; Tarduno et al, 2025; geologypage_core, 2026; noaa_model, 2026; sciencedaily_core, 2026].

É vital para nós, entender bem o que está abaixo dos nossos pés, tanto quanto o que está sobre nossas cabeças. Visto daqui da Terra, o Sol parece uma estrela média bastante estável. Quando observado do espaço, ele revela fenômenos preocupantes e, estudado mais de perto, percebe-se que o Sol é um lugar de violentos distúrbios. Tal comportamento poderia abalar seu relacionamento com a Terra?


Um comentário:

  1. Sou fascinado com está relação de vida e morte entre a Terra e Sol...Portanto, este brilhante artigo escrito pelo Marco me é muito instigante e traz à luz dados importantes e interessantes. Inclusive complementa um documentário interessantíssimo, o seriado "One Strange Rock" (NatGeo), que recomendo. Parabéns, Marco

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