"O presente é a chave para o passado"
James Hutton

24 de março de 2018

O ciclo da mineração no Brasil colonial

Por Marco Gonzalez(Atualização em 10/08/2026)

Açúcar, diamante e ouro.
(Crédito: notasgeo).

O ciclo de mineração no Brasil do século XVIII trouxe transformações profundas a esta colônia portuguesa, com certeza. Aos poucos foram surgindo locais de prospecção afastados do litoral, desenhando um grande polígono de mineração que tinha Minas Gerais na parte central e, em seus limites, Mato Grosso, Goiás e Bahia [mediations_brazil, 2006].

1. A crise do açúcar

Desde meados do século XV, Portugal reinava no comércio mundial do açúcar. Em 1560, passou a fomentar a produção em sua colônia d'além-mar, com isenções de impostos e privilégios de nobreza aos senhores de engenho. Desta forma, o açúcar constituiu uma base econômica para a implantação definitiva do europeu em solo brasileiro. Entretanto, o açúcar atraiu também a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais que acabou invadindo e ocupando uma rica porção territorial do Brasil colonial, as capitanias de Pernambuco, Itamaracá, Paraíba, Sergipe e Rio Grande do Norte. Os holandeses produziram açúcar naquelas regiões de 1630 a 1650, quando foram expulsos [Simonsen, 2005].


Óleo sobre madeira  "De suikerfabriek en de plantage van Engenho Real" ("Paisagem com plantação: o engenho"), de 1660, do pintor neerlandês Frans Janszoon Post (1612-1680).
Observa-se o tripé constituído por engenho, casa grande e capela (na parte mais alta à direita) e, ao fundo, casas dispersas na paisagem, moradias de escravos e de lavradores de cana radicados próximos aos engenhos. São representados também detalhes da vida de um engenho real, como a casa de moenda, a casa de purgar (ambas na parte mais baixa à direita) e batimento dos pães de açúcar ao ar livre [Silva, 2016].
(Crédito da imagem: Carla Oliveira).

Os holandeses, após serem expulsos do Brasil, passaram a produzir açúcar em suas colônias nas Antilhas e logo conquistaram grandes mercados consumidores com açúcar mais barato e de melhor qualidade que o brasileiro. Esta concorrência causou uma crise na produção por aqui [Ramos_crise, 2025].

Com o declínio da economia açucareira, os pequenos agricultores de cana do nordeste viram escassear os caminhos para subir a níveis socioeconômicos mais elevados. Assim, a Coroa portuguesa perdeu o apoio desse segmento potencialmente poderoso da população que ficou atraído pelas notícias de recentes descobertas de campos de ouro mais ao sul no país [Hudson, 1997].

2. A corrida do ouro

Com os objetivos principais de aprisionar índios, recuperar escravos foragidos e buscar pedras e metais preciosos, os bandeirantes paulistas, nos séculos XVII e XVIII, expandiram territorialmente o centro-sul do Brasil. Eles ultrapassaram o Tratado de Tordesilhas e, em meados do século XVII, encontraram várias minas de ouro em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso [Ramos_expansão, 2025].

Por décadas, pequenos depósitos de ouro de aluvião foram explorados sem alarde para não despertar a ganância das autoridades portuguesas. Os depósitos foram descobertos provavelmente entre 1693 e 1695 na região que constitui o que hoje é Minas Gerais, entre a Serra da Mantiqueira e as cabeceiras do rio São Francisco. Mas a tranquilidade não duraria para sempre [Hudson, 1997].

Espalharam-se notícias relatando ricos depósitos, com rios, riachos e ribeirinhos brilhando em ouro. Logo, acampamentos se transformaram em cidades e nasceram Ouro Preto, Mariana e Sabará. Os paulistas, de início, viram surgir concorrentes do nordeste, mas as notícias chegaram também a Portugal e, de 1708 a 1710, o Vale do São Francisco se transformou em uma região sem lei poluída pela escória do mundo português. Os paulistas, oriundos dos bandeirantes, considerando-se proprietários das minas, entraram em conflito com os estrangeiros, chamados emboabas. O conflito deu motivo para a Coroa portuguesa implantar o controle real e a Guerra dos Emboabas foi encerrada em 1709 [Hudson, 1997]. 

Como consequência, muitos mineradores paulistas se transferiram para Goiás e Mato Grosso onde novos depósitos de ouro foram descobertos. Também nessa época muitos escravos africanos fugiram formando esconderijos chamados quilombos, sempre perseguidos por capitães do mato [Hudson, 1997]. 

3. A extração do ouro

Quadro "Lavage du Mineral d'Or" ("Lavagem de Minerais de Ouro"), de 1820/5, do pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), representando mineração de ouro próximo ao Morro de Itacolomi.
O auge da mineração no Brasil colonial aconteceu entre os anos 1750 e 1770, com extração de ouro e diamante em Minas Gerais e também em Goiás, Mato Grosso e Bahia [Andrade, 2010; Lopes, 2019; DCML_mineracao, 2021; Rocha et al, 2024].

A extração do ouro acontecia por métodos de lavra ou faiscação. A lavra era realizada por empresas que utilizavam ferramentas e equipamentos especializados em grandes jazidas, com mão-de-obra escrava. A faiscação era caracterizada pelo garimpo do homem livre e de poucos recursos, principalmente em regiões ribeirinhas franqueadas a todos os interessados [Rezende, 2013Reis, 2025].

O ouro podia ser encontrado em aluviões ou também nas encostas de montanhas misturado entre cascalho e terra ou ainda podia ocorrer no subsolo [Rezende, 2013; Ramos_extração, 2025].

O ouro em aluviões, presente nas margens de rios, córregos e riachos, era garimpado com bateias, sendo o trabalho pesado executado por escravos africanos. Para que algum lucro fosse obtido, eram necessários muitos garimpeiros e muito tempo disponível [Rezende, 2013].

O ouro das encostas de montanhas era extraído através de uma técnica chamada grupiara. Nas minas subterrâneas os custos e os riscos de desabamento eram elevados e a mão-de-obra e os equipamentos tinham que ser especializados [Rezende, 2013Ramos_extração, 2025].

4. Os diamantes

Durante o século XVII, ocorreram as primeiras descobertas de diamantes na região do Arraial do Tijuco, atual cidade de Diamantina, em Minas Gerais. Mas somente em 1729 chegaram à Coroa notícias oficiais de descobertas na região do Serro do Frio, também em Minas Gerais. Muitas pessoas de diversas regiões, inclusive de outras partes da América e de Portugal, deslocaram-se para o local [Ferreira, 2011explorandoahistoriadosdiamantes, 2017; cnpq_diamantes, 2025]. 


Quadro "Les laveurs de diamants", do século XIX, de artista francês anônimo, representando escravos lavando diamantes em Minas Gerais.

A intensidade da extração saturou o mercado internacional com decorrente queda de preço. Para diminuir o entusiasmo, a Coroa portuguesa elevou a taxa de capitação por pessoa e, não sendo suficiente, a partir de 1734, proibiu a extração. Para reforçar o controle, foi criada a Intendência dos Diamantes. Em 1739 as lavras foram reabertas com contratos pré-determinados por quatro anos. Este sistema foi substituído pela criação, em 1771, da Real Extração Diamantina, possibilitando total controle da mineração à Coroa [Ferreira, 2011].

5. O controle da Coroa portuguesa

O ciclo de mineração, no século XVIII, que coincidiu com o declínio do açúcar, propiciou novas fontes de riqueza para a economia da colônia, além de ter estimulado a indústria do gado. Entretanto, a mineração na época nunca substituiu totalmente a agricultura de exportação, tendo o café, posteriormente, tomado o seu lugar [Hudson, 1997].

Exportações anuais brasileiras de açúcar, minério (principalmente ouro) e outros produtos nos anos 1650, 1700, 1750 e 1800.

A descoberta do minério brasileiro favoreceu a economia portuguesa que via a queda do valor dos seus produtos coloniais no século XVII. A Coroa portuguesa, dentre os impostos mais comuns, cobrava o quinto, a capitação, as tarifas de importação e exportação e os impostos sobre transmissão de propriedade. Em 1713, além do quinto, os mineradores tiveram que pagar a finta anual de trinta arrobas, reduzida para vinte e cinco em 1718 [Hudson, 1997; Menezes, 2011].

Em 1720, foram criadas as Casas de Fundição para impedir a circulação de ouro em pó na colônia e no mesmo ano aconteceu a Revolta de Vila Rica. Cerca de 2.000 revoltosos conquistam a cidade de Vila Rica comandados pelo português residente de Vila Rica Filipe dos Santos Freire (1678-1720). Os lideres foram presos e Filipe condenado à forca [Ramos_revolta, 2005].

Quadro "Julgamento de Filipe dos Santos", de ≈1923, do pintor, desenhista, ilustrador, escritor e professor niteroiense Antônio Diogo da Silva Parreiras (1860-1937).

Com o declínio da produção de ouro por volta de 1750, os cofres da Coroa portuguesa começaram a esvaziar. Então, na década de 1770, foi intensificada a cobrança dos impostos com a derrama, para compensar a diferença de receita. Esta foi a motivação para o surgimento dos inconfidentes mineiros [Hudson, 1997].

A Inconfidência Mineira, em 1789, envolveu várias pessoas com diversos problemas comuns, mas o maior deles era a dificuldade financeira causada pelas políticas da Coroa portuguesa. Entre suas reivindicações estava incluída a eliminação das restrições à mineração [Hudson, 1997].

Quadro "Jornada dos Mártires", de 1928, de Antônio Parreiras, representando inconfidentes presos.

No século XVIII, a discussão sobre a tributação, o crescimento do poder do Estado, a fiscalização, o poder de polícia e a burocracia decorrente foram fatores essenciais para construir, da forma que foi possível, o processo civilizatório brasileiro [Menezes, 2011].

6. Consequências do ciclo da mineração

O Brasil Colonial teve intenso comércio de minério, só de Minas Gerais foram enviadas para Portugal ≈535 toneladas de ouro entre 1695 e 1817. Outros 150 mil quilos de ouro teriam sido contrabandeados no mesmo período [Gomes, 2017].

O ciclo da mineração no Brasil colonial foi responsável por profundas mudanças na época. A população cresceu de 300 mil para 3 milhões de pessoas. Vieram para o Brasil de 1700 a 1800 entre 500 mil e 800 mil portugueses e foi intensificado o comércio interno de escravos. Os eixos social e econômico foram transferidos do litoral para o interior e houve a mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro, mais próxima à região mineradora. Cresceram as oportunidades no mercado interno e a sociedade se tornou mais flexível, em contraste com a sociedade açucareira [Gomes, 2017planejativo, 2023; Ramos, 2026].

Em 1703, Portugal assinou o Tratado de Methuen com a Inglaterra para lhe dar preferência na compra da lã inglesa em troca de tarifa favorável aos vinhos portugueses. Este tratado prejudicou o movimento de industrialização das colônias e fez chegar o ouro brasileiro diretamente à Inglaterra, principalmente porque o auge da mineração no Brasil colonial, entre os anos 1750 e 1770, coincidiu com o período da industrialização inglesa. Assim, a forte influência econômica da Inglaterra sobre Portugal fez com que grande parte das divisas portuguesas fossem pagas com ouro brasileiro, favorecendo o pioneirismo inglês na Revolução Industrial [Hudson, 1997; saidjunior_2006; notasgeo_ri, 2018Pinho, 2023Ramos_extração, 2025].

Mesmo com o envio da riqueza brasileira ao exterior, o que restou por aqui viabilizou a construção de obras públicas urbanas, como fontes, pontes, edifícios e igrejas, além de apoiar fundações de caridade, como hospitais. Nas últimas décadas do século XVIII, as cidades de Minas Gerais viram surgir igrejas de estilos barroco e rococó, casas, lojas e grandes prédios públicos [Hudson, 1997].

Dois momentos das fronteiras brasileiras no período colonial.
(Imagem adaptada de: Milenioscuro, 1572 / 1817).

A corrida do ouro contribuiu para a expansão do território brasileiro, incorporando grandes áreas originalmente espanholas. Também foi importante para gerar demandas de alimentos e animais para transporte. Criou a necessidade de expandir atividades agrícolas até os locais próximos à mineração. No período, o centro de gravidade econômico e administrativo brasileiro deslocou-se para a região Sudeste [Hudson, 1997].

A transição do período colonial para o período imperial ocorreu entre 1808 e 1822. Foi impulsionada com a chegada ao Rio de Janeiro da Família Real portuguesa que fugia de Napoleão. A transferência do então rei de Portugal Dom João VI (1767-1826) abriu o Brasil aos olhos dos pesquisadores europeus. Aconteceram expedições e missões de cientistas como o mineralogista e naturalista britânico John Mawe (1764–1829), o médico, geólogo, botânico e desenhista austríaco Johann Baptist Emanuel Pohl (1782-1834), o botânico e naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779–1853), o naturalista alemão Johann Baptist Spix (1781-1826), o médico, naturalista, explorador e diplomata russo, barão Georg Heinrich von Langsdorff (1774-1852) e tantos outros. Destaca-se o geógrafo, geólogo e metalurgista Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777-1855) que exerceu no Brasil a função de Diretor de Minas, entre 1802 e 1810. Nesta transição, o Brasil virou sede do reino, abriu os portos e se elevou a Reino Unido em 1815, distanciando-se de sua condição de colônia antes mesmo da independência política em 1822 [Carvalho, 2014Calaes e Oliveira, 2022Mansur, 2020].


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