"O presente é a chave para o passado"
James Hutton

29 de janeiro de 2026

Uma história climática da Terra - Parte 6 - 20000 aC ao recente

Por Marco Gonzalez

Contornos de mãos humanas gravados em estêncil na caverna Cueva de las Manos, no Cânion do Rio Pinturas, em Santa Cruz, na Patagônia da Argentina.
Fazem parte de um conjunto excepcional de arte rupestre executada entre os anos ~8000 aC e ~7000 aC. São encontradas junto a representações de animais que viviam na região, além de cenas de caça. Seus autores foram nossos ancestrais, os caçadores-coletores que povoaram a Patagônia desde o ano ~10000 aC [UNESCO, 2018].
Estes nossos ancestrais, que fazem parte da história climática da Terra, estavam lá nestes tempos, no inicio do Holoceno, porque o aumento das temperaturas trouxe mais chuva para grande parte da Patagônia, a leste dos Andes, e o aumento da ocupação humana provavelmente aconteceu em busca de disponibilidade de água [Brook et al, 2013].
(Crédito da imagem: Gimenez).

Uma história climática da Terra desde 20000 aC até o recente dá uma visão geral do clima e de suas interações com a geologia e a biologia neste espaço de tempo. Nesta etapa é contada a maior parte da história humana.

6.1. Introdução

O Quaternário, com profunda mudança no sistema climático da Terra, é caracterizado por glaciações [Gibbard e Head, 2009] e variações da intensidade cíclica das camadas de gelo continentais em parte impulsionadas por mudanças regulares nos componentes dos parâmetros orbitais da Terra [Candy, 2023]. No final do quaternário (ainda no final do Pleistoceno), as temperaturas eram mais baixas até acontecer um último interglacial relativamente estável e mais quente (no Holoceno) que favoreceu o florescimento das civilizações humanas [Vancura, 2024].

Eventos climáticos, geológicos e biológicos do final do Quaternário a partir do ano 20000 aC.
Avanços das civilizações humanas a...j: descrições na tabela que pode ser visualizada a seguir.
População do Homo sapiens: 4 milhões (no ano 10000 aC), 190 milhões (no ano 0) e 6 bilhões (no ano 2000) [Roser e Ritchie, 2023].
Ciclos e transições:
Glacial = Último Ciclo Glacial [Hughes et al, 2013],
Transição = Último Término Glacial, [Vandergokes e Fizsimons, 2003Hoek, 2008Paillard, 2011] e
Interglacial = atual ciclo interglacial, [IPCC, 2007Summerhayes, 2015; IPCC, 2021NOAA, 2021; Marks, 2025].
Nível do mar global [Rohde, 2019].
Eventos climáticos relevantes:
Último Máximo Glacial [Maslin, 2011Hughes e Gibbard, 2014],
Bølling-Allerød [Hoek, 2008Naughton et al, 2023],
Dryas Recente [Hoek, 2008NOAA, 2021SNM, 2023],
Ótimo Climático do Holoceno [Jansen et al, 2007Vancura, 2024; EBSCO, 2024],
Período Frio da Idade das Trevas [Helama et al, 2017],
Período Quente Medieval [Fairbridge, 2011Rafferty, 2014Saltré e Bradshaw, 2025] e
Pequena Idade do Gelo  [Mann et al, 2009Jackson e Rafferty, 2025].
Ambiente climático:
Curvas da luminosidade do Sol [Ramstein et al, 2019], do ciclo dia-noite [Arbab, 2003], da temperatura [xkcdShakun et al, 2012Marcott et al, 2013Annan & Hargreaves, 2013; referência 1961-1990] e das concentrações de O₂ [baseada em Royer, 2014] e CO [Hannon, 2021; DeWikiMan] atmosféricos abstraindo incertezas, pretendendo dar uma ideia aproximada das variações dos valores médios globais.

Tabela de avanços das civilizações humanas no Cenozoico

6.2. Uma história climática de 20000 aC ao recente

Esta parte da história é subdividida em:
    1. Final do Pleistoceno superior (duração de ~10300 anos), 
      • de meados do Pleistoceno superior (em 20000 aC)
      • até o início do Holoceno (em ~9700 aC); e
    2. Holoceno (duração de ~11700 anos e em curso),
      • do seu início (em ~9700 aC)
      • até os tempos presentes.
Em certos momentos, esta história recua no tempo para momentos anteriores a 20000 aC com o objetivo de viabilizar a descrição e o entendimento de alguns eventos que iniciaram antes deste limite. Estratégia similar (de recuo para momentos anteriores a 9700 aC) é aplicada aos eventos do Holoceno que iniciaram antes da transição com o Pleistoceno.

6.2.1. Final do Pleistoceno superior

De 20000 aC a ~9700 aC

Luminosidade do Solmuito próxima da atual
Duração do ciclo dia-noitepraticamente 24 horas
Temperaturade 9,7 a 13,1°C
Concentração de O na atmosferade 21 a 21,2%
Quantidade de CO₂ na atmosferade 185 a 265 ppm


6.2.1.1. Último Máximo Glacial
 
Esta parte da história climática da Terra inicia durante o Último Máximo Glacial (UMG), que corresponde ao máximo volume global de gelo que ocorreu durante o Último Ciclo Glacial [Hughes et al, 2013]. Quase todas as camadas de gelo do UMG estavam presentes entre os anos ~24500 aC e ~18000-17000 aC [Clark et al, 2009].

As temperaturas mais frias do ar e da superfície do mar, além de ventos mais intensos, na Antártida, fizeram com que o gelo marinho de inverno cobrisse pouco menos que o dobro da superfície que é coberta pelo gelo nos invernos atuais. A área permanentemente com gelo afetou fortemente o clima do Hemisfério Sul. No Hemisfério Norte, a cobertura de gelo marinho de inverno foi bastante expandida, enquanto a cobertura de verão era comparável à atual [Crosta, 2011].

Diferença da temperatura do ar na superfície da Terra no UMG.
Considera a média anual (calculada por abordagem bayesiana) entre ~21000 aC e ~17000 aC, durante o UMG, em relação à temperatura pré-Industrial. Os dados proxy são representados por pontos coloridos [Annan et al, 2022]A temperatura pré-industrial é avaliada em 13,7ºC [Lindsey e Dahlman, 2025].
(Adaptado de Annan et al, 2022).

Alguns dados sobre a circulação atmosférica durante o UMG incluem [Rind, 2011]:
  • formaram-se sistemas frios de alta pressão sobre as camadas de gelo, especialmente sobre a América do Norte durante o inverno, e foram geradas tempestades em uma área mais ampla do que a atual;
  • provavelmente a corrente de jato polar (da circulação atmosférica) se deslocou para o sul sobre a América do Norte e o Atlântico Norte (e talvez em outras regiões) durante o inverno;
  • provavelmente houve redução da ressurgência da célula de Hadley sobre a Ásia em julho; e
  • provavelmente os furacões foram mais fracos ou inexistentes.

Biomas da Terra no UMG em ~18000 aC.
(Crédito: SEWilco / Baseado em Ray e Adans, 2001).

Um dos principais efeitos do UMG foi sentido no bioma da Terra. No seu início existia uma vegetação regional menos densa, dominada por florestas de pinheiros, florestas latifoliadas perenes e caducas e florestas de cicuta montanhosa e de abeto /picea. O final do UMG presenciou uma expansão de pastagens, áreas úmidas e florestas de abeto/picea de montanha, havendo uma redução das florestas latifoliadas perenes e caducas. Durante a última deglaciação, a vegetação regional densa era dominada por florestas caducas de carvalhos e amieiros [Wang et al, 2024].

Em comparação com os biomas atuais da Terra, o UMG apresentava as seguintes características [Ray e Adams, 2001]:
  • América do Norte e Central: a característica dominante era a presença de uma vasta camada de gelo cobrindo o Canadá. As florestas predominavam no leste dos EUA, mas eram mais abertas e continham árvores adaptadas a climas mais frios.
  • América do Sul: era ligeiramente mais fria e geralmente mais seca do que atualmente. Aparentemente, a área da floresta amazônica foi substancialmente reduzida (embora ainda existam grandes incertezas). A Mata Atlântica brasileira também foi bastante diminuída. Algumas áreas desérticas e semidesérticas se formaram onde hoje são campos e áreas de vegetação rasteira.
  • África (inclui Madagascar, Arábia e Levante): era ligeiramente mais fria, mas muito mais seca do que atualmente. O Deserto do Saara e o Deserto da Namíbia estavam ambos expandidos e, na África equatorial, havia relativamente pouca cobertura florestal.
  • Europa (inclui a área a leste até os Montes Urais e também a Ásia Menor): as camadas de gelo cobriam o norte da Europa e a Escandinávia. A maior parte do restante do norte da Europa assemelhava-se a um semi-deserto, com uma mistura de elementos de tundra e pradaria (estepe-tundra). No sul da Europa, a vegetação se assemelhava a uma estepe semi-desértica, com bolsões dispersos de árvores em áreas úmidas.
  • Eurásia (inclui o norte da Eurásia, principalmente a Rússia a leste dos Montes Urais, o sul e o leste da Ásia, o Oriente Médio e do deserto da Ásia Central para o sul e leste até Malásia/Indonésia): grande parte da Sibéria e da Ásia Central era desértica, mas com algumas grandes áreas de estepe-tundra (semelhante a um semi-deserto na maioria das regiões). A China tinha relativamente pouca cobertura arbórea: a vegetação se assemelhava à estepe seca no norte, com áreas dispersas de árvores nas terras altas do sul (em uma paisagem de planície predominantemente composta por pastagens). O Japão tinha cobertura florestal aberta. No sudeste asiático, havia muito mais pastagens abertas e florestas secas do que atualmente.
  • Australásia (inclui Austrália, Nova Guiné e Nova Zelândia): uma vasta zona desértica extrema dominava a parte central do continente australiano. Todas as áreas parecem ter sido mais secas e frias do que atualmente. A cobertura florestal era muito reduzida. Na Nova Zelândia, uma grande calota polar dominava a Ilha Sul, com campos abertos no Norte.

Biomas atuais da Terra, segundo o World Wildlife Fund.
(Baseado em Terpsichores)

Outro importante efeito do UMG decorre das condições posteriores secas e frias que ocorreram até ~13000 aC. A evolução climática destas condições provocou alterações na insolação de verão do Hemisfério Norte e estas afetaram a região das monções na Ásia Central. Isto aconteceu porque esta região representa uma zona de transição entre três sistemas de circulação: a Monção de Verão da Índia, a Monção de Verão do Leste Asiático e os Ventos de Oeste [Wang et al, 2010].

Localização dos principais sistemas atuais de circulação atmosféricas, incluindo ventos de oeste, monção de verão indiana e monção de verão do leste asiático.

6.2.1.2. Última Transição Glacial-Interglacial

Esta transição, também chamada de Último Término Glacial [Vandergokes e Fizsimons, 2003] ou Glacial Tardio Weichseliano, ocorrida entre os anos ~11000 aC e ~8000 aC [Hoek, 2008] (ou mais amplamente entre os anos ~18000 aC e ~6000 aC), está associada a muitas alterações climáticas importantes, como [Paillard, 2011]:
  • aquecimentos e resfriamentos abruptos, associados a mudanças na circulação oceânica, característicos da transição;
  • algum aquecimento generalizado registrado em núcleos marinhos tropicais ou do sul antes de qualquer redução significativa das camadas de gelo do norte; e
  • o aumento da concentração de CO₂ atmosférico de níveis glaciais (~180-200 ppm) para níveis interglaciais (~260-280 ppm) milhares de anos antes da diminuição do volume de gelo continental.
Todas estas alterações são facilmente explicadas no contexto da teoria de Milankovitch, mas ainda falta entender quais feedbacks de amplificação estão envolvidos. Acredita-se que a força de insolação tenha atuado apenas como fator de influência externa favorável [Paillard, 2011].

Monte Kathadin, o ponto mais elevado do estado de Maine, na costa leste dos EUA.
Katahdin é um maciço de granito acidentado e íngreme que marca o extremo norte da Trilha dos Apalaches [Whitman, 2023]. Faz parte de um batólito granítico da Orogenia Acadiana associado aos Apalaches. O leito rochoso da região foi erodido pelo avanço das geleiras deixando à vista os detritos transportados [NRP/NPS, 2022]. Depósitos glaciais (incluindo blocos erráticos) espalhados pelas encostas de Kathadin revelam indícios de como o clima da região do Atlântico Norte respondeu ao aquecimento abrupto da última transição glacial-interglacial [Miles, 2022]. 
(Crédito da imagem: Hadrianopolis).

Esta transição se constituiu em um período de rápidas mudanças climáticas que definiram a passagem do frio glacial para o quente Holoceno [Hoek, 2008]. Durante esta última deglaciação, da elevação total de 120-130 m do nível global do mar, 10-20 m seriam atribuídos a um evento singular e catastrófico de elevação conhecido como Pulso 1A de degelo, ocorrido em ~12600 aC, que teve uma duração de no máximo 500 anos [Coonin et al, 2025].

6.2.1.3. Eventos Dansgaard-Oeschger e Heinrich

Ao longo do final da era glacial e da transição com o Holoceno, os eventos climáticos com alterações rápidas no Oceano Atlântico Norte, conhecidos como Dansgaard-Oeschger [Izumi et al, 2023] e Heinrich [Ziemen et al, 2019], ocorreram respectivamente até os anos ~8000 aC e ~14000 aC [Morgan, 2011].

Antes que as condições mais quentes do Holoceno levassem ao atual padrão estável de circulação oceânica interglacial, os últimos eventos Dansgaard-Oeschger foram [Morgan, 2011]: 
  • interestadiais, como o Bølling-Allerød (entre os anos ~12600 aC e ~10900 aC [Naughton et al, 2023]) e o início da Reversão do Frio Antártico, no ano ~12000 aC, e também
  • estadiais, como o Dryas Recente, entre os anos ~10700 aC e ~9600 aC.
Um exemplo é o noroeste da Europa, onde a Última Transição Glacial-Interglacial é subdividida em uma série de fases interestadiais e estadiais, incluindo, respectivamente, o Bølling-Allerød e o Dryas Recente [Hoek, 2008].

Flor silvestre "erva-benta-das-montanhas" (Dryas octopetala), no Parque Nacional de Rondane, Noruega em 2013.
Em 1912, o termo "Younger Dryas" ("Dryas Recente") foi cunhado pelo geólogo e botânico dinamarquês Nikolaj Hartz (1867-1937), associando este evento climático frio a um leito argiloso lacustre, na Dinamarca, contendo macrofósseis de uma flora ártica, que incluia a Dryas octopetala. Esta flor é atualmente comum no arquipélago norueguês Svalbard e nas montanhas escandinavas [Mangerud, 2021].
(Crédito da imagem: Jörg Hempel).

O Bølling-Allerød está associado a um clima quente e úmido [Wang et al, 2010] e encerrou a tendência de resfriamento lento do Hemisfério Norte que ocorria desde o ano ~18000 aC, particularmente ao redor do Oceano Atlântico Norte [Morgan, 2011].

O Dryas Recente na América do Norte pode ter sido causado por um redirecionamento de água doce ao oceano. A desaceleração da circulação termohalina e alterações climáticas em todo o mundo teriam sido causadas por uma rota mais ao norte da água de degelo, tendo impacto maior na salinidade e na densidade da superfície do Atlântico Norte. Eventualmente, a circulação termohalina se fortaleceu novamente e o clima se recuperou à medida que o fluxo da água de degelo diminuiu [NOAA, 2021].

Circulação termohalina global atual.
A circulação termohalina evoluiu desde a última transição gacial-interglacial [Liu, 2023].
(Crédito: Brisbane).

No final do Dryas Recente, ocorreu o Pulso 1B de degelo, que, entretanto, não foi suficiente para provocar o afundamento da Grande Barreira de Corais e marcou o crescimento de corais rasos antes e após sua ocorrência [Webster et al, 2025]. Após o Dryas Recente, o clima da Terra começou a mudar de glacial frio para interglacial mais quente. As temperaturas no Hemisfério Norte retornaram a condições pré-glaciais. Na Groenlândia, as temperaturas subiram 10°C em uma década. Em muitas partes dos trópicos do Hemisfério Norte, as condições também se tornaram mais secas [NOAA, 2021].

Os eventos Heinrich, no Último Ciclo Glacial, interromperam de forma abrupta oscilações milenares do intervalo glacial no Atlântico Norte testemunhando interações coerentes entre a atmosfera, os oceanos e a criosfera. Constituíam camadas de detritos transportados pelo gelo que parecem ser derivados da região do Estreito de Hudson. Foram depositadas, cada uma ao longo de 500±250 anos com porcentagens extremamente altas de fragmentos líticos tendo grãos entre 180 μm a 3 mm. Estas camadas são identificadas por intervalos de tempo rotuladas de H1 a H6, da mais jovem à mais antiga [Hemming, 2004]. A H1 teve seu pico no ano ~14800 aC [Easterbrook, 2029].

6.2.1.4. Extinções de grandes mamíferos no final do Pleistoceno

A biota do Pleistoceno era muito semelhante à moderna. Muitos gêneros e até espécies, como as de coníferas, musgos, plantas com flores, insetos, moluscos, pássaros e mamíferos, sobrevivem até hoje [Polly et al, 2011e]. Porém, não foi o caso dos grandes mamíferos devido a causas que incluem doenças e impactos extraterrestres [Seersholm et al, 2020], mas mais provavelmente alterações climáticas (incluindo o Dryas Recente) e, talvez, caça realizada por humanos. As extinções destes animais começaram em ~10900 aC na América do Norte e na América do Sul, mas ocorreram em ~39000 aC na Austrália [SNM, 2023].

Reconstrução do Smilodon fatalis (acima) e da Pantera atrox (abaixo).

Os tigres_dentes_de_sabre (Smilodon fatalis) e os leões-americanos (Panthera atrox) eram dois dos maiores carnívoros terrestres do Pleistoceno da América do Norte. Eles sofreram extinção juntamente com outros grandes animais da megafauna em ~10000 aC. As causas principais incluem mudanças climáticas e competição por presas entre eles e os humanos. Acredita-se que tenha sido pouco provável que grandes carnívoros como estes tenham sido caçados diretamente por humanos até a extinção [DeSantis et al, 2012].

Cerca de 70% das espécies de grandes mamíferos da América do Norte foram extintas no final do Pleistoceno. O papel dos humanos e do clima nestas extinções têm sido foco de muita controvérsia [Guthrie, 2003]. As várias análises que associam às extinções da megafauna a alterações climáticas apresentam duas restrições [Lemoine et al, 2023]:
  • são quase sempre regionais, o que torna menos poderoso os efeitos do clima quando comparados aos efeitos da colonização humana e
  • são incapazes de vincular o desaparecimento da megafauna a um mecanismo climático específico. 
Porcentagem (com limites máximos entre 0% e 78%) de grandes mamíferos (com peso >=10 kg) extintos no final do Quaternário (entre 130000 aC e o ano 1000).
As regiões sombreadas em cinza não fizeram parte desta análise.

Acumulando a perda de vertebrados de grande porte nos últimos 100.000 anos ou mais, o final do Quaternário testemunhou a extinção de ~32% de todos os mamíferos com massa ≥9 kg e ~52% daqueles com ≥45 kg (sem incluir casos posteriores ao ano 1000). O padrão destas extinções não foi uniforme geograficamente. O norte da Eurásia, as Américas e o paleocontinente Sahul (que abrangia Austrália, Tasmânia e Nova Guiné) experimentaram proporcionalmente um número muito maior de extinções da megafauna do que a África e a Ásia tropical [Lemoine et al, 2023].

A renovação faunística do Pleistoceno Superior (incluindo também o Holoceno Inferior) na América do Sul foi caracterizada pela extinção de todos os mamíferos com massa corporal >300 kg e várias espécies menores [Lopes et al, 2020]. Pequenos mamíferos, entretanto, em todos os continentes tiveram uma taxa de sobrevivência muito maior por terem menores exigências de alimentação e de habitat e por produzirem mais filhotes por ninhada com períodos de gestação mais curtos [SNM, 2023].

Reconstrução paleoambiental dos equinos (equídeos), do Pleistoceno da América do Sul.
A função do lábio superior preênsil do Hippidion principale durante a busca por alimento é representada em primeiro plano (e no detalhe), enquanto o Equus neogeus é mostrado ao fundo [Bernardes et al, 2013].
(Créditos da imagem: Bernardes et al).

Na América do Sul, os equinos Hippidion principale e Equus neogeus foram extintos durante o Pleistoceno superior [Bellinzoni et al, 2025]. O H. principale se alimentava preferencialmente de gramíneas e plantas de local arborizado mas com copas abertas, enquanto o E. neogeus era um pastador que se alimentava principalmente de gramíneas em áreas abertas e pastagens [Morosi e Ubilla, 2019].

Dentre os equídeos que dominaram a fauna do Pleistoceno tardio da América do Norte em abundância, distribuição geográfica e variedade de espécies, nenhum sobreviveu até o Holoceno. Porém, não se tem conhecimento de quando aconteceram as extinções regionais dos equídeos. Acredita-se que, antes da extinção, eles sofreram rápido declínio no tamanho corporal, em ~10500 aC, atribuído a alterações no clima e na vegetação [Guthrie, 2003]. Os atuais cavalos nas Américas são todos descendentes daqueles vindos da Europa [Polly et al, 2011e]. 

Nas Américas, também foram extintas grandes aves predadoras que planavam, como a teratorn [Polly et al, 2011e]. Estes membros da família Teratornithidae foram extintos em ~10000 aC [Lazaro, 2021].

Restauração do rinoceronte lanoso (Coelodonta antiquitatis ).
(Crédito: Langlois).

O rinoceronte lanoso foi importante representante da fauna do Pleistoceno na Eurásia. Foi extinto em ~10500 aC principalmente devido à perda de seu habitat de tundra-estepe em virtude de mudanças climáticas. Acredita-se que o impacto humano foi limitado na sua extinção [Hullot et al, 2024].

6.2.1.5. As últimas espécies do gênero Homo

Quando o Homo sapiens começou a se espalhar pela Eurásia entre ~53000 aC e ~48000 aC [O'Connell et al, 2018], ele era contemporâneo das seguintes espécies do seu próprio gênero:
  • Homo neanderthalensis, extinto em ~28000 aC [Stewart, 2007Bilge, 2024];
  • Denisovanos, que têm suas últimas ocorrências encontradas entre ~58000 aC e ~43000 aC na Caverna de Baishiya, no nordeste do Planalto Tibetano [Xia et al, 2024], e em ~28000 aC na Caverna Denisova, nas montanhas de Altai, no sul da Sibéria [Reich et al, 2010] ;
  • Homo luzonensis, com três indivíduos sendo encontrados na Caverna de Callao, na ilha de Luzon, Filipinas, datados entre ~65000 aC e ~48000 aC [Détroit et al, 2019]; e
  • Homo floresiensis, que ocupou a Caverna de Liang Bua, Flores, Indonésia até ~15000 aC [Morwood et al, 2009Reich et al, 2010Than, 2013]. O restos esqueléticos de H. floresiensis, encontrados nesta caverna, têm idade estimada entre ~98000 aC e ~58000 aC [Sutikna et al, 2018].
Nunca foi atribuído um nome de espécie aos Denisovanos por não possuírem holótipo, devido à ausência de restos fósseis de maior porte [Brown et al, 2016]. No entanto, acredita-se que o Homo longi pertence ao grupo dos humanos de Denisova, o que é justificado pela análise de DNA e de proteínas preservados [Bassi, 2025], e também são encontradas características semelhantes para atribuir o Homo juluensis ao mesmo grupo [Bae e Wu, 2024].

Reconstrução facial dos últimos relevantes hominíneos extintos.
(A) Homo neanderthalensis (em exibição no Salão das Origens Humanas do Museu Nacional de História Natural Smithsonian, em Washington, EUA);
(B) Homo longi (oferece um vislumbre de como seria o rosto dos Desnisovanos);
(C) Homo luzonensis (reconstrução em grande parte hipotética); e
(D) Homo floresiensis (B e D foram produzidas por aproximação facial forence).

Os habitats de hominídeos antigos no Pleistoceno foram se adequando a alterações climáticas zonais pronunciadas na principal região de sobreposição entre Denisovanos e Neandertais na Eurásia central. Estas alterações influenciaram a intensidade de cruzamentos entre eles [Ruan et al, 2023].

A adaptação ao frio foi fundamental durante a colonização da Eurásia para as espécies humanas vindas da África. Ocorreram mudanças morfológicas, culturais e, provavelmente, metabólicas que favoreceram a proteção ao frio e a produção de calor corporal pelos humanos. Isto se aplica principalmente à maioria dos Neandertais e, pelo menos, a alguns Denisovanos, que viveram em regiões fortemente afetadas pelo Último Ciclo Glacial [Sazzini et al, 2014].

Óleo sobre tela de 1920 do artista norte-americano Charles Robert Knight (1874-1953) com o título "Neanderthal Flintworkers, Le Moustier Cavern, Dordogne, France" ("Trabalhadores Neandertais de sílex, Caverna Le Moustier, Dordogne, França").
Knight retrata uma cena na caverna de Le Moustier, na França, em ~38000 aC. O Neandertal à esquerda coleta sílex, enquanto aquele localizado ao centro empunha uma lança com ponta de pedra lascada e todos observam alguma caça no rio abaixo. Este é um dos nove grandes murais produzidos para o Salão da Era do Homem, inaugurado no Museu Americano de História Natural no início da década de 1920. Em 1909, ossos de Homo neanderthalensis foram encontrados nesta caverna juntamente com artefatos de pedra. Nos anos em que Knight preparou esta pintura sob a orientação do diretor do museu, o geólogo e paleontólogo norte-americano Henry Fairfield Osborn (1857-1935), os Neandertais eram vistos como selvagens primitivos. Na verdade, eles possuíam linguagem, criavam arte, viviam em grupos sociais complexos e controlavam o fogo [Czerkas, 1982].
(Crédito da imagem: AMNH).

As populações de Neandertais teriam sido gradualmente dizimadas, segundo alguns pesquisadores, justamente por alterações climáticas, que causaram fragmentação de habitats e recursos. Por exemplo, houve contração da área de distribuição dos Neandertais ibéricos durante o evento Heinrich 4 em ~33000 aC. O efeito moderador do clima dos sítios atlânticos fizeram com que as últimas populações de Neandertais ali sobrevivessem [Finlayson, 2008].

Em geral, condições ambientais estáveis ​​favorecem a expansão de nichos e proporcionam maiores oportunidades ecológicas. Porém, não foi o que aconteceu com os Neandertais que, cada vez mais, teriam uma população menor e altamente fragmentada. Sua dinâmica populacional complexa, incluindo o isolamento de longo prazo de alguns grupos, provavelmente foram reflexos de alterações climáticas drásticas com impactos profundos na variabilidade genética e morfológica da linhagem Neandertal [Urciuoli et al, 2025].

Há pesquisadores que acreditam que a extinção dos Neandertais (já com populações pequenas) se deve principalmente a três fatores [Vaesen et al, 2019]:
  • depressão por endogamia, mais prováveis em populações pequenas, aumentando as chances de baixa diversidade genética.
  • efeitos Allee, que, em populações menores, fazem com que as taxas de crescimento diminuam devido a problemas na busca de parceiros, e que se refletem na baixa disponibilidade de ajudantes na caça cooperativa.
  • aleatoriedade anuais de nascimentos, mortes e proporção sexual, que tem maior probabilidade de colocar populações menores em risco de extinção do que em populações maiores.
A Caverna Denisova (em 2008).
É o único sítio arqueológico conhecido por ter sido ocupado por denisovanos, neandertais e Homo sapiens [Jacobs et al, 2025].
(Crédito da imagem: Демин).

Quanto aos denisovanos, ainda não se sabe ao certo porque e como foram extintos [Choi e Geggel, 2025]. O que se sabe é que eles transmitiram substancialmente sua ancestralidade genética às populações humanas atuais que vivem no Sudeste Asiático Insular, na Nova Guiné e na Austrália. Isto sugere que os Denisovanos podem ter estado presentes em toda aquela região na época da chegada lá dos humanos modernos antes de ~48000 aC [Teixeira et al, 2021]. O cruzamento entre eles facilitou aos habitantes do planalto tibetano a adaptação a ambientes de grande altitude, especificamente por um gene que regula a resposta à carência de oxigênio, gene este que está presente no Homo denisova [Zhang et al, 2021].

Caverna de Callao na província de Cagayan, nas Filipinas.
(Credito: Theglennpalacio).
 
Não se sabe quando ocorreu a extinção do Homo luzonensis [Davis et al, 2025]. Esta espécie foi classificada com base em 13 ossos e dentes pertencentes a dois adultos e uma criança encontrados na Caverna de Callao. Tais indivíduos, com alturas estimadas entre 90 e 120 cm, apresentam uma mistura eclética de características encontradas ​em diferentes espécies de hominíneos [Solly, 2019]. Seu registro mostra como é notável a diversidade dessas espécies [Greshko e Wei-Haas, 2020]. 

O Homo luzonensis ficou isolado por 700 mil anos ou mais [Hawks, 2024] com convergências e/ou reversões evolutivas sob os efeitos da evolução insular. Esta natureza endêmica pode explicar sua anatomia distinta [Détroit et al, 2019] lembrando hominíneos antigos e refutando a ideia de que a linhagem humana sempre progrediu da espécie menos para a mais avançada [Greshko e Wei-Haas, 2020].

Caverna Liang Bua, Flores, Indonésia, onde foram descobertos fósseis do Homo floresiensis em 2003.
(Crédito: Rosino).

O Homo floresiensis poderia ser simplesmente um Homo sapiens pigmoide australo-melanesiano com anomalias patológicas [Jacob et al, 2006], mas evidências mandibulares corroboram sua classificação como uma nova espécie do gênero Homo [Westaway et al, 2015]. A pequena estatura e a capacidade craniana de ~420 cm³, que lhe renderam o apelido de "hobbit", são características que poderiam ter sido adquiridas durante o isolamento insular ("efeito ilha") [Neves et al, 2018].

As condições do "efeito ilha" permitem que sejam levantadas algumas hipóteses sobre os ancestrais do H. floresiensis, sendo os menos improváveis [Neves et al, 2018]:
  • o Homo erectus asiático primitivo, que teria contra si a exigência de grande força evolutiva para redução da capacidade craniana, e 
  • o Homo hábilis, que teria a dificuldade de ser aceito por não ter registros fora da África.
Assim como muitas outras espécies humanas antigas, o H. floresiensis foi extinto aproximadamente na mesma época em que o Homo sapiens se espalhava pelo mundo [Davis et al, 2025]. Assim, este teria chegado à Ilha das Flores em ~48000 aC e precipitado o desaparecimento do pequeno "Hobbit" [Kaifu et al, 2024].

O que se sabe com certeza é que o estudo do Quaternário superior do leste da Ásia está passando por mudanças significativas e importantes na paleoantropologia. Há uma tendência de não separar, mas agrupar espécies reconhecendo características comuns. É o caso dos Denisovanos, do Homo longi e do Homo juluensis. Todos do leste asiático, até mesmo o Homo floresiensis e o Homo luzonensis, correm o risco de comporem uma espécie mais ampla talvez encabeçada pelo Homo neanderthalensis [Bae e Wu, 2024].

De qualquer forma, estes ainda são considerados os últimos relevantes representantes do gênero Homo, além do próprio Homo sapiens, o único que sobreviveu a todos eles. Quais seriam as causas deste privilégio? Pode-se especular algumas delas.

6.2.1.6. Vantagens do Homo sapienpara a sua sobrevivência 

Uma vantagem para a sobrevivência do Homo sapiens, que produz impacto social e comportamental, pode estar associada à exposição ao chumbo. Esta exposição ocorreu desde 2 milhões de anos atrás, ao longo da evolução dos primatas e principalmente dos hominídeos. Ela pode interromper o funcionamento de um gene crucial para o desenvolvimento da fala e da linguagem humanas. A vantagem do Homo sapiens é que possui uma variante de uma molécula capaz de induzir resposta imune a este dano. Como o aprimoramento da linguagem é vital para a coesão social e para a própria sobrevivência, esta variante proporcionou vantagem evolutiva importante [Boyau et al, 2025].

Tendências (linha vermelha contínua) na evolução da capacidade craniana de hominídeos.
Cada ponto preto representa um indivíduo através de seu crânio fóssil ou de seus restos esqueléticos.
(A) Nos últimos 10 milhões de anos.
O tamanho do cérebro permaneceu relativamente estável durante o final do Mioceno e o Plioceno com aumento drástico a partir de ~2 milhões de anos atrás (limite destacado pela linha rosa vertical tracejada), coincidindo com a evolução inicial do gênero Homo.
(B) Nos últimos 100.000 anos
O tamanho do cérebro do Homo sapiens permaneceu estável, com uma inflexão negativa em ~1000 aC (limite destacado pela linha rosa vertical tracejada), provavelmente devido à externalização do conhecimento e das vantagens da tomada de decisão em grupo.
(Crédito: DeSilva et al, 2021 / texto / figura).

Outra vantagem é o crescimento do cérebro do Homo sapiens, que tem as seguintes prováveis causas:
  • Aumento na disponibilidade de carne. Enormes rebanhos de ancestrais do búfalo africano ruminante (Syncerus caffer) e a composição bioquímica de seus produtos (carne e banha) teriam sido fundamentais para o crescimento exponencial do cérebro humano no final do Pleistoceno. Além da disponibilidade da carne, o aspecto social da caça (comunicação, linguagem, hierarquia social), valorizada em decorrência da invenção de ferramentas e armas para esta atividade, teria contribuído para um cérebro mais poderoso [Ginneken, 2020].
  • Consumo de carne cozida. O cozimento da carne viabilizou, na alimentação, um ambiente bioquímico dinâmico, com nutrientes e compostos benéficos, que reorganizou as conexões neurais e aumentou a complexidade cognitiva nos hominíneos primitivos. A plasticidade sináptica e o raciocínio abstrato foram promovidos por pressões farmacológicas sutis exercidas pela maior biodisponibilidade de nutrientes [Kurban, 2025].
  • Fermentação externa dos alimentos. Pode ter contribuído para a expanção do cérebro e para a redução do intestino. Ela é responsável por todos os benefícios que os alimentos cozidos oferecem: maior maciez, maior teor calórico, maior biodisponibilidade de nutrientes e proteção contra microrganismos patogênicos. Não requer materiais especiais, apenas local de armazenamento para alimentos, que pode ser uma caverna ou apenas um buraco no chão [Bryant et al, 2023]. 
Outras vantagens ainda incluem:
  • uma infância mais longa, no Homo sapiens (identificada por mandíbulas de crianças), que permite aquisição de habilidades complexas enquanto o cérebro se desenvolve [Dennell e Hurcombe, 2024];
  • uma dieta diversificada, que teria tornado o Homo sapiens muito mais resiliente às mudanças climáticas do que aqueles que dependiam da caça de animais de grande porte, como os Neandertais [Pettitt, 2022]; e
  • a maior diversidade genética, que teria tornado as populações de Homo sapiens menos suscetíveis a doenças e, portanto, com maior probabilidade de sobrevivência [Wild, 2023].
Uma vantagem decorrente das demais vantagens foi o aumento da população (constatado pela maior densidade de sítios arqueológicos testemunhada durante o Pleistoceno Superior), que teria [Bennet e Fu, 2024]:
  • viabilizado a exploração de áreas maiores,
  • atuado como proteção demográfica e
  • permitido diversidade genética com resposta evolutiva mais efetiva (com consequente aumento da população).  
Eventos de adaptação que contribuíram para a sobrevivência e a expansão populacional do Homo sapiens.
Estes eventos são categorizados como migração para novos territórios, adaptação genética (em resposta a mudanças climáticas ou ambientais/de estilo de vida) e inovação. Eles parecem estar menos associados a vantagens individuais ou características superiores (que os indivíduos Homo sapiens possam ter tido sobre seus primos arcaicos) e mais relacionados a ciclos de retroalimentação positiva em nível coletivo. Estes ciclos favoreceram a expansão e o desenvolvimento contínuos das populações de Homo sapiens [Bennett e Fu, 2024].
(Crédito do mapa: Skimel / Baseado em Bennett e Fu, 2024).

6.2.1.7. Primeiras habitações do Homo sapiens

Ferramentas encontrados em caverna no Sri Lanka, datadas de ~46000 aC a ~2000 aC, mostram que os humanos se adaptaram a florestas tropicais. Porém eles se espalharam pelo mundo todo após saírem da África. Ao longo do caminho, o Homo sapiens se adaptou a muitos ambientes desafiadores, desde o frio congelante do Ártico Siberiano até as altas altitudes do Planalto Tibetano [Vernimmen, 2020]. 

Até ~10000 aC, todos os Homo sapiens eram caçadores-coletores, utilizando a mobilidade como estratégia de sobrevivência. Assim, não dependiam da agricultura, mas necessitavam ter acesso a grandes áreas de terra para encontrar alimentos, inviabilizando o estabelecimento de assentamentos permanentes [SGN, 2024].

Embora os primeiros Homo sapiens tenham passado algum tempo em cavernas, não viveram nelas por período prolongado [Taub, 2025]. Há algumas evidências arqueológicas de suas moradias [Hays, 2024]:
  • entre ~30000 aC e ~10000 aC, construídas com pele de animal, com ~40 m², no sul da Rússia; 
  • em ~13000 aC, em escavações com paredes de contenção feitas de ossos de mamute empilhados, na Ucrânia, a sudeste de Kiev;
  • em ~13000 aC, construídas com ossos e presas de mamute, bastante sofisticadas, nas proximidades de vila de Mezhirich, na Ucrânia; e
  • em ~10000 aC, de inverno, com plantas circulares, tapetes de pele de animal, camas e lareiras feitas com ossos e esterco animal na Tchecoslováquia;
Réplica de habitação construída com ossos de mamute baseada no exemplo de Mezhirich, exposta no Museu Nacional de Natureza e Ciência, em Tóquio, no Japão, em 2013.
(Crédito: Momotarou2012).

6.2.1.8. A saída do Homo sapiens da África

A teoria da origem africana postula que o Homo sapiens, a partir da África, migrou para os demais continentes [Ashraf e Galor, 2013; Hallett et al, 2025]. Evidências que apoiam esta teoria são encontradas em estudos de DNA, climáticos e de linguística [Linsley, 2013]. Apesar do amplo consenso em relação a esta teoria, existe considerável incerteza em torno dos modelos específicos de migração no interior do continente africano [Ragsdale et al, 2023].

Resumo das rotas de migração do Homo sapiens desde sua saída da África e principais locais de concentração populacional de Homo neanderthalensis e Homo erectus no Pleistoceno superior. As datas ainda estão em debate.

Acredita-se que há ~200.000 anos, os humanos começaram a migrar para fora da África. Outros movimentos migratórios teriam ocorrido em ~118.000 aC, entre ~78000 aC e ~68000 aC e entre ~18000 aC e ~8000 aC. A migração mais recente teria ocorrido em ~4000 aC [Linsley, 2013].

A teoria da origem africana deve seus primórdios rudimentares ao naturalista, geólogo e biólogo britânico Charles Robert Darwin (1809-1882). Especificamente, esta teoria sustenta que os Homo sapiens sapiens evoluíram na África antes de migrar para fora deste continente. Em oposição, há a Hipótese Multirregional que argumenta que os Homo sapiens sapiens evoluíram em diversos locais ao retor do mundo e não somente no continente africano. As evidências contrárias a esta hipótese são [Shipman, 2003]:
  • linhagens humanas da África Oriental são muito antigas (~170.000 anos atrás) com muita diversidade genética;
  • três crânios humanos, encontrados na Etiópia, são considerados da subespécie Homo sapiens sapiens datados entre ~154.000 e ~160.000 anos atrás, sendo os mais antigos humanos modernos encontrados até agora; e
  • exames de DNA mitocondrial de Neandertais e de europeus modernos revelam discrepâncias genéticas entre eles.

6.2.1.9. Homo sapiens nas Américas no final do Pleistoceno

O Homo sapiens surgiu há mais de 300.000 anos na África e, dali, começou a se espalhar para a Arábia, a Ásia e, posteriormente, para o restante do mundo [Ashworth, 2025]. A maioria das evidências atuais indica que todos os ancestrais dos nativos americanos descendem de uma população ancestral do Leste Asiático, com origem entre ~38000 aC e ~23000 aC. A primeira dispersão em direção às Américas pode ter ocorrido em ~33000 aC, mas não há consenso se a chegada dos humanos no Novo Mundo ocorreu antes ou depois do Último Máximo Glacial [Menéndez, 2024], que pode ter iniciado entre ~25000 aC e ~22000 aC [Hughes e Gibbard, 2014].

Acredita-se que grupos de Homo sapiens saíram da África em direção de climas mais úmidos da Ásia Ocidental, principalmente, em busca de alimento. Esta migração deve ter tido o objetivo de fugir do aumento da aridez do norte do continente africano. Seria este o mesmo propósito de árvores e plantas que, por sua vez, teriam sido seguidas por rebanhos de animais que se alimentavam delas. Por este mesmo caminho teriam se movimentado os humanos antigos [Ashworth, 2025]. 

A migração para as Américas provavelmente ocorreu através de múltiplos caminhos [Ashworth, 2025]. Alguns pesquisadores acreditam que a colonização do Novo Mundo, mesmo durante o Último Máximo Glacial, envolveu uma única população inicial, que teria partido da Ásia em ~28000 aC. Esta população, localizada em algum lugar no norte da China, teria se dividido em dois ramos, durante o Pleistoceno Superior. Um ramo teria se expandindo para o sul em direção à Oceania e o outro, para o norte em direção à Sibéria e às Américas [Menéndez, 2024]. Especula-se ainda que os primeiros humanos que chegaram às Américas poderiam ter vindo, desde a Oceania, através da Antártida [Clark, 2024].

Outros defendem a existência de migrações de diversos grupos em momentos diferentes para fora da África ao longo de centenas de milhares de anos. Muitas destas populações pioneiras, após grandes distâncias percorridas em dezenas de milhares de anos, teriam se extinguindo antes de transmitir seus genes [Ashworth, 2025].

O chamado Modelo de Fluxo Gênico Recorrente aponta para uma redução do nível do mar, entre ~24000 aC e ~16000 aC, expondo a massa continental da Beríngia, que desempenhou um papel crucial na migração humana durante o Pleistoceno. Esta ponte ligando a Ásia às Américas teria facilitado a expansão de populações do Leste Asiático caracterizadas por uma morfologia craniofacial generalizada e heterogênea [Menéndez, 2024].

A partir da Beríngia, duas rotas migratórias principais são consideradas [Menéndez, 2024]:
  • uma pelo Alasca antes do Último Máximo Glacial (UMG), através do chamado Corredor Livre de Gelo enquanto ainda estava aberto, e 
  • outra seguindo uma rota costeira do Pacífico em direção ao sul.
Foi apenas entre os anos ~13000 aC e ~12000 aC que o Corredor Livre de Gelo se tornou uma passagem viável [Clark et al, 2022], ainda que as camadas de gelo Laurentide e Cordilheira tenham começado a recuar em ~15000 aC [Menéndez, 2024]. 

Modelos paleoclimáticos e climáticos sugerem que os períodos de ~22500 aC a ~20000 aC e de ~14400 aC a ~12800 aC foram os mais favoráveis ​​ambientalmente para a migração ao longo da costa. Há também a hipótese de que uma onda migratória tenha seguido este caminho desde a Beríngia em ~16000 aC, completando seus movimentos para o sul em ~13000 aC [Menéndez, 2024].

A rota costeira do Pacífico deve ter envolvido uma série de refúgios ao nível do mar na América do Norte. Esta rota supera a dificuldade do corredor livre de gelo não estar disponível até o início do evento climático Dryas Recente. Este evento é posterior às primeiras evidências de sítios arqueológicos do Pleistoceno Superior na América do Norte e do Sul [Menéndez, 2024].

Locais do Pleistoceno superior citados nesta seção do texto.

Evidências humanas de Santa Elina, no Brasil, que incluem artefatos líticos associados a restos mortais de extinta preguiça-gigante (Glossotherium phoenesis), todos datados de ~23100 aC, fortalecem a noção da chegada de humanos pelo menos durante o Último Máximo Glacial [Pansani et al, 2023].

Na parte superior:
Aparece parte de painel rupestre do Sítio de Santa Elina, com detalhe à direita.
(Créditos: IleticiachavesPaixao 677).
Na parte inferior:
Em A é visto pingente feito de osteoderme de preguiça-gigante modificado antropologicamente encontrada em Santa Elina. Em B é apresentado detalhe do orifício da peça apresentada em A. Em C é destacada uma cicatriz de modificação humana na borda do orifício.
(Crédito: Pansani et al, 2023).

Evidências humanas (antes polêmicas) também são encontradas das cavernas Bluefish, no norte do Yukon, território do Canadá. Lá foram descobertos ossos de cavalo com marcas de corte e outros vestígios de caçadores humanos datados de ~22000 aC [Pringle, 2017].

Marcas de corte em uma mandíbula de cavalo (Equus lambei) da Caverna II de Bluefish.
O espécime (nº J7.8.17) é datado em 17.650 aC (± 130 anos) ou em ~22000 aC em dados calibrados. A superfície óssea está um pouco desgastada e alterada pela corrosão radicular, mas as marcas de corte estão bem preservadas. Elas estão localizadas na face medial (sob o terceiro e o segundo molares) e estão associadas à remoção da língua com um instrumento de pedra.
(Crédito: Bourgeon et al, 2017).

Datações de sementes (de ~21000 aC a ~19000 aC) associadas a pegadas humanas em White Sands, no Novo México, EUA, também apoiam a ideia de que o Último Máximo Glacial não impediu a chegada dos primeiros humanos à América do Norte [Bennett et al, 2021].

Pegadas humanas em White Sands, Novo México, EUA.
(Crédito: US Geological Service).

Monte Verde, no sudoeste da América do Sul, no Chile, apresenta os indícios mais antigos de habitação humana nas Américas [Clark, 2024], além de pegadas humanas, fornos e uma riqueza de artefatos bem preservados datados entre ~16500 aC e ~12500 aC [Dillehay et al, 2015].

Ferramentas de pedra encontradas em Monte Verde.
Imagem superior: duas ferramentas feitas em seixo de serpentinita com bordas lascadas bifacialmente e retocadas. A serpentinita é uma matéria-prima disponível na cordilheira costeira a oeste de Monte Verde.
Imagem inferior: uma ferramenta feita em cunha de basalto mostrando a face frontal, com maior número de facetas (à esquerda), e a face posterior (à direita). Basaltos, andesitos, quartzitos e outras pedras adequadas para construir ferramentas líticas lascadas estavam disponíveis na área de Monte Verde

O abrigo rochoso de Meadowcroft, na Pensilvânia, EUA, com grande variedade de artefatos, inclui fragmentos de ferramentas de pedra, pontas de projéteis, fragmentos de cerâmica e instrumentos de madeira. Os artefatos datam de ~14000 aC e um pedaço de casca de árvore, que poderia ter sido usado como cesto, pode ser de até ~17000 aC [Selkere, 2010].

Sítio arqueológico de Meadowcroft, na Pensilvânia, EUA, descoberto em 1973.
(Crédito: Jbarta).

No município de Clovis, no Novo México, EUA, foram encontrados artefatos de caça associados ao povo Clovis. [Clark, 2024]. Esta cultura data de ~11050 aC a ~10750 aC, durante um período de grandes mudanças ambientais, e desapareceu no início do Dryas Recente [Waters et al, 2020]. Por muito tempo foi considerada a população mais antiga das Américas [Mann, 2013.

O povo Clovis teria chegado à América do Norte pelo corredor livre de gelo desde a Beríngia [Clark et al, 2022] ou, na versão mais recente, teria se movimentado em sentido contrário, desde a América do Sul até a América do Norte [Clark, 2024].

Pontas de pedra lascada da cultura Clovis em exibição no Museu de História Natural de Cleveland, em Cleveland, Ohio, EUA.
As duas à esquerda são de Wisconsin e as demais (da esquerda para a direita) foram encontradas na fronteira Wisconsin/Illinois, em Illinois, em Ohio e na Geórgia [Luntz, 2023James e Terri, 2023].
Estes artefatos abrangem a transição Pleistoceno-Holoceno.
Seguem exemplos de datação nos EUA referente aos locais mencionados acima:
– Wisconsin, alguns artefatos líticos a sudeste deste estado entre ~11530 aC e ~9200 aC [Johnson, 2007];
– Illinois, uma ponta de lança de pedra datada em ~11000 aC [Nash, 2017];
– Ohio, alguns artefatos da cultura Clovis, no Condado de Medina, datados em 10854 aC [Eren et al, 2017]; e
– Geórgia, nas proximidades deste estado, pontas de pedra lascada datadas entre ~9500 aC e ~9000 aC [Anderson et al, 1990].
(Crédito da imagem: Tim Evanson).

Mais de 10.000 pontas de pedra lascada da cultura Clovis foram descobertas espalhadas por ~1.500 locais em grande parte da América do Norte [Mann, 2013]. Acredita-se que o site arqueológico Topper, Carolina do Sul, EUA, foi usado como importante local de fabricação de ferramentas desde pelo menos 11000 aC. Era uma das melhores fontes de sílex da região para fabricar ferramentas [Tibbetts, 2005]. Os artesãos de Topper utilizavam estratégias típicas para produção de ferramentas da cultura Clovis [Smallwood, 2010].
 
No Pleistoceno, algumas outras evidências humanas encontradas nas Américas são as seguintes:
  • O Sítio Arqueológico de Cactus Hill, na Virgínia, EUA, apresenta artefatos e outros vestígios humanos datados de ~18000 aC e ~16000 aC [Johnson, 2020].
  • Escavações em Muaco /Taima-taima, na Venezuela, recuperaram artefatos do complexo El Jobo associado a restos mortais de mastodonte jovem. Galhos de madeira encontrados em Taima-taima datam no mínimo de 11000 aC. [Bryan et al, 1978]. Em Muaco, ossos, que se acredita terem sido quebrados por humanos, foram datados entre ~14000 aC e ~7000 aC [Waters, 1985].
  • No sítio arqueológico Debra L. Fiedkin, no Texas, EUA, artefatos de pedra foram datados entre ~13500 aC e ~11200 aC [Bryn, 2011].
  • No sítio arqueológico Page-Ladson, próximo ao rio Aucilla, na Flórida, EUA, foram encontradas ferramentas de pedra e carcaça de mastodonte, datadas de ~12550 aC [Halligan et al, 2016].
  • Na caverna de Paisley Five Mile Point, no Oregon, EUA, foram encontrados coprólitos antigos, com DNA humano, datados de ~12100 aC [Jennings, 2012].
  • O sítio Arroyo Seco 2, próximo a Tres Arroyos, na Argentina, mostra interação do Homo sapiens com mamíferos do Pleistoceno. Vestígios, que incluem ferramentas líticas, foram datados entre 12064 aC e 11068 aC. Há um número excepcionalmente variado e abundante de sepulturas humanas datadas entre 5805 aC e 2487 aC [Politis et al, 2016].
  • No sítio arqueológico de Manis, no estado de Washington, EUA, foram recuperados restos mortais de mastodonte de ~11800 aC, com suposta ponta de projétil de osso (ainda contestada) incrustada na costela do animal [Waters et al, 2011]
  • O assentamento costeiro em Huaca Prieta, no Peru, teve ocupação humana com caçadores-coletores marítimos, com datações de lascas de seixos simples com bordas aparadas, vários restos ósseos de peixes e leões-marinhos e valvas de moluscos fraturadas. Este material foi datado entre ~11720 aC e ~11260 aC [Dillehay et al, 2012].
  • Em Piedra Museo, em Santa Cruz, Argentina, foram encontrados indícios de ocupações humanas, incluindo conjuntos líticos. Datações da fauna extinta associada a estes indícios indicam datas entre ~10800 aC e ~7200 aC [Tessone et al, 2020].

6.2.2. Holoceno

De ~9700 aC a ~2000

Luminosidade do Solmuito próxima da atual
Duração do ciclo dia-noitepraticamente 24 horas
Temperaturade 13,1 a 14,7°C
Concentração de O na atmosferade 21,2 a 21%
Quantidade de CO₂ na atmosferade 265 a 365 ppm


6.2.2.1. O clima do Holoceno

Iniciado após o Último Ciclo Glacial, o Holoceno corresponde ao atual ciclo interglacial, tendo a crescente e debatida participação de atividades humanas no clima da Terra [IPCC, 2007Summerhayes, 2015; IPCC, 2021NOAA, 2021; Marks, 2025]. Sem a interferência humana, no último milhão de anos, cada ciclo glacial-interglacial tem durado ~100 mil anos [Hogg, 2008]. São longos períodos glaciais seguidos por um curto período interglacial (de ~10 mil a ~15  mil anos) [Berger e Loutre, 2010].

Últimos 450 mil anos com ciclos glacial-interglacial marcados por valores de isótopo radioativo oxigênio-18 do SPECtral MAping Project (SPECMAP [Bassinot, 2009]).

O aquecimento do início do Holoceno trouxe um clima quente e úmido até ~2000 aC, quando esta condição começou a ser amenizada [Wang et al, 2010]. Vivemos um período interglacial onde os inevitáveis ciclos naturais continuam tendo influência e, mais recentemente, com interferência humana [Vancura, 2024].

Mapas da Terra no Último Máximo Glacial (19000 aC) e atualmente.
Após o Último Máximo Glacial, praticamente apenas duas massas de gelo de escala continental restaram na Terra: a da Groenlândia e a da Antártida [Boyall, 2024]. Além disto, o nível do mar subiu 120-130 m durante a última deglaciação [Coonin et al, 2025] devido ao aquecimento do clima [Poore et al, 2011].

Assim, o Holoceno representa o último e atual período interglacial [Kaufman e Broadman, 2023] e sua estabilidade foi fundamental para o desenvolvimento dinâmico da vegetação e o subsequente florescimento das civilizações humanas. Esta estabilidade com padrões sazonais consistentes é atribuída à posição da Terra em sua órbita, à redução da cobertura de gelo e às mudanças na circulação atmosférica [Vancura, 2024]. No entanto, o Holoceno também testemunhou flutuações climáticas notáveis, que impactaram os ecossistemas naturais e as sociedades humanas [Vancura, 2024], como:
  • o Ótimo Climático do Holoceno (OCH), ocorrido entre os anos ~7000 aC e ~3000 aC  [Vancura, 2024]; 
  • o Período Quente Romano (PQR), que aconteceu entre os anos ~300 aC e ~300 [Clauzel et al, 2020];
  • o Período Frio da Idade das Trevas (PFIT), entre os anos ~400 e ~765, sendo que uma fase de resfriamento generalizado, chamada Pequena Idade do Gelo da Antiguidade Tardia, aconteceu em sobreposição ao PFIT a partir do ano 536  [Helama et al, 2017];
  • o Período Quente Medieval (PQM), entre os anos ~750 e ~1350 [Saltré e Bradshaw, 2025]; e
  • a Pequena Idade do Gelo (PIG), entre os anos ~1400 e ~1750 ou ~1850 [Mann et al, 2009; Monroe, 2012].
Durante o OCH houve florescimento de práticas agrícolas e crescimento populacional dos humanos, à medida que condições mais quentes e úmidas propiciavam o aumento da produção de alimentos [Sherwood, 2024]. Um intervalo de 200 anos mais quentes, no OCH, ocorreu em ~4500 aC com a temperatura 0,7ºC mais elevada que a média do século XIX [Kaufmann et al, 2020].

O PQR também é conhecido como Ótimo Climático Romano ou Período Úmido Romano. Neste período, ao contrário do costume dos séculos anteriores, vinhas e oliveiras, na Itália, foram cultivadas mais ao norte [Clauzel et al, 2020]. O PQR foi ~2 °C (na temperatura da superfície do mar) mais quente do que os valores médios dos últimos séculos para as regiões da Sicília e do Mediterrâneo Ocidental. Após, desenvolveu-se uma tendência geral de resfriamento na região [Margaritelli et al, 2020]

Durante o PFIT, as sociedades pré-vikings e vikings no sudeste da Noruega mudaram sua estratégia agrícola em resposta a instabilidade climática. Foi um período frio (dominado pela pecuária) intercalado por intervalos mais temperados, com duração de séculos (dominados por cultivo de cereais e cânhamo) [Bajard et al, 2022]. Indícios paleoclimáticos, na Holanda, sugerem uma queda de temperatura de 1,5°C do PQR para o PFIT [Gouw-Bouman et al, 2019].

O PQM teve temperaturas da superfície do mar no Atlântico Norte mais altas em 5°C ou mais e cobertura de gelo marinho consideravelmente reduzida. Seu intervalo mais quente na Europa foi entre os anos 1150 e 1300 [Fairbridge, 2011]. Foi provavelmente 1–2 °C mais quente do que as condições do início do século XX na Europa [Rafferty, 2025]. Durante o PQM foi constatada expansão agrícola significativa, com mudanças no cultivo de culturas, como a produção de uva nas Ilhas Britânicas. Coincidiu com eventos históricos relevantes, como a colonização viking da Groenlândia e um aumento populacional significativo na Europa [LeBeau, 2024].

Temperatura global entre os anos 750 e 2000 e carbono-14 entre os anos 850 e 1950, abrangendo PQM e PIG.
A curva da temperatura aparece em preto e os valores com incertezas em cinza azulado.
A curva das alterações no registro do isótopo radioativo carbono-14, que são causadas principalmente (mas não exclusivamente) por mudanças na atividade solar, aparece em vermelho.
A atividade solar registrada em anéis de crescimento de árvores, através de valores de carbono-14, pode indicar eventos como o Máximo Medieval e o Mínimo de Maunder, [Russel et al, 2010].
(Adaptado de RCraig09Leland McInnes).

O resfriamento global da PIG [Shindell, 2011] (que alguns pesquisadores ampliam desde 1300 até 1850 [Jackson e Rafferty, 2025]) separou os dois períodos quentes mais recentes, sendo um deles o PQM [Fairbridge, 2011]. Acredita-se que um dos responsáveis pelas condições climáticas mais frias em muitas regiões durante a PIG, do ano 1645 ao ano 1715, teria sido um período de calmaria solar chamado Mínimo de Maunder que ocorreu neste intervalo de tempo contrariando o padrão de ciclos solares a cada 11 anos [Shindell, 2011].

Na PIG, as temperaturas em grande parte da Europa eram com frequência anormalmente baixas, as geleiras alpinas avançaram e os rios europeus congelaram muito mais vezes do que durante a Idade Média ou durante o último século e meio. Climas frios também prevaleceram em diversas outras áreas, especialmente aquelas adjacentes ao Atlântico Norte. No Hemisfério Norte, a temperatura caiu vários décimos de grau com grande variabilidade no tempo de resfriamento [Shindell, 2011].

Pintura a óleo sobre madeira, de 2009, da artista inglesa Rita Geer (1918-2010) com o título "The Frost Fair" ("A Feira do Gelo"), retratando o Rio Tâmisa, na Inglaterra, no inverno de 1683-1684, excepcionalmente rigoroso durante a Pequena Idade do Gelo.
Um trecho do Rio Tâmisa congelou mais de uma dúzia de vezes entre 1600 e 1750. No inverno de 1683-1684, o Tâmisa congelou a uma profundidade de 45 centímetros. No seu leito, foram montadas barracas que abrigavam espetáculos de marionetes, cafés e tabernas, enquanto carruagens corriam para cima e para baixo no gelo [Sims, 2013].
(Crédito da imagem: Greer).

A parte mais fria da PIG nas Américas, entre os anos 1500 e 1600, pode ter sido causada indiretamente pelas epidemias europeias que removeram ~90% da população indígena ao longo do século XVI. O despovoamento com decorrente alteração do uso da terra pode ser uma das causas do declínio do CO₂ atmosférico em 7-10 ppm com consequente redução da temperatura em 0,15ºC [Koch et al, 2019].

Além dos eventos climáticos citados acima, houve no Holoceno os Eventos Bond, que foram numerados em fases de 0 a 8, sendo a 8 no ano ~9100 aC e a 0 no ano ~1500 (este correspondente à PIG). As fases intermediárias teriam ocorrido nos anos ~8300 aC, ~7400 aC, ~6100 aC, ~5500 aC, ~3500 aC, ~2400 aC, ~800 aC e no ano ~600 (este último correspondente à PFIT) [Banerji e Padmalal, 2022].

6.2.2.2. Extinções de grandes mamíferos no início do Holoceno

À medida que acontecia uma tendência de aquecimento, as tundras deram lugar às florestas e os mamíferos de grande porte adaptados ao frio extremo sofreram. Os humanos, antes dependentes daqueles megamamíferos para grande parte de sua alimentação, passaram a caçar animais menores e aumentaram a coleta de materiais vegetais para complementar sua dieta [Bagley, 2013].

Reconstrução comparativa do Mamute lanoso (à esquerda) e do Mastodonte americano (à direita).
(Crédito: Dantheman9758).

Os mamutes lanosos ficaram isolados, até ~8000 aC, com poucos indivíduos na pequena Ilha de Wrangel ao norte do nordeste da Sibéria continental. Persistiram por mais de 200 gerações até que a elevação global do nível do mar no início do Holoceno provocou sua extinção em ~2000 aC [Dehasque et al, 2024]. Há indícios de que teriam persistido no atual Yukon, no Canadá, até ~3000 aC [Duke, 2021].

Os mastodontes americanos foram extintos provavelmente devido a mudanças ecológicas que antecederam o final do Pleistoceno. Foram eliminados localmente em algumas regiões do Canadá (como Yukon) antes do que em outras partes da América do Norte. Todas as populações de mastodontes americanos foram extintas em toda a sua área de distribuição na América do Norte em ~8000 aC [Jass, 2022].

Reconstrução da preguiça-gigante Megatherium americanum.

As preguiças-gigantes no continente norte-americano desapareceram em ~9000 aC, as da América do Sul sobreviveram até ~8500 aC, e algumas nas ilhas das Índias Ocidentais viveram até ~2400 aC. Embora o aquecimento global do início do Holoceno possa ter contribuído para as extinções na América do Norte, pode não ter sido coincidência que em todos os casos elas desapareceram logo após a chegada dos humanos. Como a análise de suas fezes indicam que elas se alimentavam de plantas que sobrevivem até hoje, fica descartada a extinção devido à alterações na vegetação [Manson, 2005].

Reconstrução do Glyptodon asper.
(Crédito: Arent).

Extintos em ~8000 aC, os gliptodontes são mamíferos gigantes pertencentes à ordem Cingulata, que inclui os tatus modernos. Eles habitaram as Américas do Mioceno ao Pleistoceno [Plessis et al, 2018]. Assim como dezenas de outras espécies de mamíferos notáveis, a causa precisa das extinções desta megafauna do Novo Mundo permanece incerta [AMNH, 2016].

Reconstrução do Castoroides ohioensis.
(Crédito: Jaaproosart).

Os castores gigantes Castoroides ohioensis foram os maiores roedores que já viveram na América do Norte. Desapareceram juntamente com muitos de seus contemporâneos da megafauna, sendo extintos em ~8000 aC. Sua incapacidade de roer madeira pode ter contribuído para sua extinção. As mudanças climáticas provavelmente provocaram a perda de seu habitat, além de afetar sua fonte de alimento. Incapaz de modificar seu ambiente aquático, como os castores modernos, eles podem não ter conseguido acompanhar as mudanças na paisagem [Gregory, 2025].

6.2.2.3. Homo sapiens nas Américas no início do Holoceno

Antes do Holoceno, ainda em ~14000 aC, ocorreu provavelmente uma divisão populacional ao sul da Beríngia, resultando em duas linhagens (por afinidades biológicas) constituídas por [Menéndez, 2024]:
  • Nativos Americanos do Norte, representados exclusivamente por indivíduos da América do Norte, e
  • Nativos Americanos do Sul, que se subdividiu, por sua vez, em duas linhagens adicionais:
    • a representada (na América do Norte) pelo indivíduo de Anzick (do povo Clovis) e pela maioria dos sul-americanos do lado atlântico, como os de Lagoa Santa, e
    • a representada (na América do Norte) pelo indivíduo de Spirit Cave e pela maioria dos sul-americanos do Pacífico, como o indivíduo de Los Rieles.
Locais do Holoceno citados nesta seção do texto.

Os ossos do esqueleto de Luzia, encontrados em Lapa Vermelha IV, Lagoa Santa, Minas Gerais, Brasil, constituem o fóssil humano mais antigo das Américas [Gaspar Neto e Santos, 2010]. Os carvões encontrados próximos ao crânio de Luzia indicam uma idade entre 9243 aC e 9710 aC [Fontugne, 2016].

À esquerda, reconstrução da face de luzia com base em seu crânio. À direita, partes do esqueleto encontradas em Lagoa Santa, MG, Brasil.
Pertenciam ao acervo de Antropologia Biológica do Museu Nacional / UFRJ, RJ, Brasil. Após o incêndio de 2018, praticamente todo o crânio e 90% dos fragmentos do esqueleto foram recuperados [Werneck, 2023].
(Créditos das imagens: Dornicke1Dornicke2).

Algumas outras evidências do Holoceno são:
  • No sítio paleoíndio Cueva del Medio, em Última Esperanza, Chile, foram encontrados artefatos de caça indicativos de presença humana entre ~9000 aC e ~8000 aC, conforme datação de pólen e esporos fósseis [Nami e Heusser, 2015];
  • Em Cueva Fell, próxima ao Estreito de Magalhães, no Cone Sul da América do Sul, foram encontrados protéteis do tipo "rabo de peixe". Amostras de carvão vegetal de fornos de ocupações humanas locais dataram entre ~8800 aC e 8400 aC [Waters et al, 2015]
  • Cueva de las Manos, no centro-sul da Patagônia argentina, possui coleção de arte rupestre criada por caçadores-coletores, datando de ~7400 aC [Schneier et al, 2021] ou mais mais seguramente entre ~8000 aC e ~7000 aC [UNESCO, 2018].
Os destaques ficam, no entanto, para os fósseis humanos Luzio e Zuzu, além de Luzia.

Reconstrução dos crânios de Luzia (à esquerda) e Luzio (à direita).
(Adaptados de MoraesEggers et al, 2011).

Luzio foi encontrado no Sambaqui da Capelinha, SP, Brasil, com morfologia craniana semelhante à de Luzia (de Lagoa Santa) [Moióli, 2023]. Corresponde ao esqueleto de indivíduo do sexo masculino, datado de ~8400 aC, sendo considerado a presença humana mais antiga do sudeste do Brasil [Ferraz et al, 2023].

O esqueleto de Zuzu, humano de Toca dos Coqueiros, da Serra da Capivara, Brasil, data de ~7600 aC [Menéndez et al, 2022]. Ele apresenta afinidade morfológica com paleoíndios [Hubbe et al, 2007].

Acredita-se que a alta acidez dos sedimentos destruiu restos faunísticos de Pedra Furada, na região da Serra da Capivara, restando presentes somente em sítios de zonas calcárias [Boëda et al, 2014]. Nestas condições, Pedra furada produziu polêmica sobre artefatos com datações anteriores ao Último Máximo Glacial [Parenti, 2023]. Por exemplo, estruturas de combustão, concentrações de pedras e peças de pedra lascada foram datadas (calibradas) entre 34300 aC e 18500 aC [Lourdeau, 2019]. Estruturas de combustão e outras foram questionadas sobre a possível ocorrência natural (por exemplo, incêndios florestais) [Coutouly, 2021]. As principais objeções, porém, dizem respeito às ferramentas encontradas, que poderiam ser produto da atividade de macacos [Agnolín e Agnolín, 2023] ou resultantes do lascamento natural da rocha [Meltzer et al, 1994], processo natural este que, entretanto, não foi possível reproduzir [Dennell e Hurcombe, 1995]. 

Pedra Furada (na imagem superior), no Parque Nacional da Serra da Capivara, PI, Brasil e pinturas rupestres (imagem inferior) neste sítio.
(Créditos: WarchavchikXavier).

6.2.2.4. A agricultura e os assentamentos urbanos

Apesar de os humanos modernos já estarem bem estabelecidos muito antes, o Holoceno é reconhecido como a "Era do Homem" [Bagley, 2013] porque testemunhou grande desenvolvimento do conhecimento e da tecnologia humana e também a ascensão e a queda de todas as nossas civilizações [Waggoner e Smith, 2011]. Condições climáticas estáveis e favoráveis à vida humana impulsionaram o rápido crescimento da nossa espécie em todo o mundo. O Holoceno registra a maior parte da nossa história escrita e acompanhou nossa transição para a vida urbana moderna [Carrillo, 2021].

Apesar disto, no Holoceno, ocorreram declínios da população humana decorrentes de condições climáticas adversas que fizeram com que as sociedades humanas desenvolvessem uma ampla gama de estratégias para lidar com tais situações frequentemente associadas a fartura e a escassez de alimentos [Roberts, 2023].

Dois grandes precursores da civilização humana urbana, a agricultura sedentária e os assentamentos humanos permanentes, consolidaram-se somente após o início do Holoceno e após o Último Ciclo Glacial, entre os anos ~8000 aC e ~10000 aC, embora o Homo Sapiens tenha surgido há ~300 mil anos atrás [Carrillo, 2021].

Até o advento da agricultura e da urbanização, a população humana era amplamente limitada pelos mesmos fatores que limitam outros organismos vivos, como a disponibilidade de alimento, água e abrigo, as relações evolutivas como a proporção predador/presa ou a ocorrência de doenças. Estas restrições, que proporcionam equilíbrios naturais às populações, passaram a ser contornadas a partir do século I [Bagley, 2013].

A agricultura teve início com processos de adaptação ao ambiente e a organismos úteis aos humanos. As mudanças climáticas globais com derretimento das geleiras provocaram a reorganização dos ecossistemas. Em muitos locais ao redor do mundo ocorreram de forma independente a domesticação de plantas e animais e o desenvolvimento de diversas práticas agrotécnicas [Velimiroic et al, 2021]. A agricultura é uma das principais formas pelas quais a atividade humana conseguiu contornar as condições ambientais [Bagley, 2013]. 

Os primórdios da agricultura remontam ao ano ~10000 aC no Crescente Fértil [Velimiroic et al, 2021], embora sejam registradas datas anteriores para consumo e domesticação de cereais [Liber et al, 2021; Testolin, 2025]. Esta região, no Oriente Médio, abrange os países modernos Iraque, Turquia, Síria, Líbano, Israel, Palestina e, para alguns estudiosos, Egito. O termo foi cunhado e popularizado pelo arqueólogo, egiptólogo e historiador norte-americano James Henry Breasted (1865-1935) que o descreveu assim: "O lar mais antigo dos homens nesta grande arena da Ásia Ocidental é ... uma espécie de franja cultivável do deserto, um crescente fértil com as montanhas de um lado e o deserto do outro" [Lee, 2025].

Crescente Fértil.
Evidências de domesticação animal:
1 = Gado bovino (6500 aC); 2 = Gado ovino (9000 aC); 3 = Gado bovino (8000 aC);
4= Gado suino (8500 aC); 5= Gado ovino (8000 aC); 6 = Gado ovino (9000 aC);
7 = Gado caprino (9000 aC); 8 = Gado caprino (9000 aC); 9 = Gado caprino (7500 aC);
10 = Gado bovino (6500 aC); 11 = Gado caprino (7500 aC).
Evidências de consumo de cereais silvestres e domesticação de cereais**:
a = Trigo duro (*10300 aC); b = Centeio e Trigo-einkorn; c = Trigo-einkorn (*11900 aC);
d = Cevada (*11300 aC e **11500 aC); e = Lentilhas (*11500 aC e **11000 aC);
f = Lentilhas (*23000 aC e 11500 aC); g = Cevada e Trigo duro;
h = Lentilhas e Ervilhas (*11700 aC e  11300 aC); i = Cevada e Trigo duro.
(Baseado em Merikanto; Testolin).

No Crescente Fértil, frequentemente reconhecido como "berço da civilização", a abundância de riquezas foi alimentada pelos cursos de água dos rios Eufrates, Tigre e Nilo em solos ricos regularmente inundados [NGS, 2025]. Durante as estações chuvosas, esses rios inundavam os vales, criando um oásis de solo fértil em uma região arenosa e seca. A presença de água potável criou condições ideais para a agricultura e os assentamentos urbanos [Lee, 2025].

Esta região, devido ao acesso à água, atraiu as primeiras civilizações, incluindo os Sumérios. Houve troca de culturas e ideias e avanços na região, desenvolvendo-se a irrigação, a agricultura em solo fértil, rotas comerciais, a escrita (cuneiforme), a matemática e a religião. Com o tempo, o aumento populacional e a demanda sobre a água esgotaram o solo antes fértil e os conflitos surgiram e foram ampliados pelas diferenças culturais [NGS, 2025].

O Crescente Fértil, de agricultura rica e de comércio intenso ao longo de milhares de anos, foi lar de uma variedade de culturas [NGS, 2025]. Além da Suméria, abrigou muitas civilizações antigas, como a Acádia, a Assíria e a Babilônica, e se transformou em importante ponto de encontro para a troca de bens e ideias. Centenas de milhares de textos em escrita cuneiforme (usada para rastrear bens e serviços, codificar leis e louvar divindades) são a chave para entender a vida no Crescente Fértil [Lee, 2025].

No Oriente Médio, o Crescente Fértil foi o centro de origem da cevada, do trigo e do centeio. Lentilhas e favas foram cultivadas em rotação de culturas, intencionalmente ou acidentalmente, aumentando a fertilidade do solo. A domesticação de cabras e ovelhas, e posteriormente de gado bovino, ocorreu nesta região [Velimiroic et al, 2021].

Por volta de 8000 aC, o cultivo de trigo, cevada e outras plantas havia se disseminado dali por grande parte do mundo indo-europeu [Bagley, 2013]. Milho, batata, feijão, algodão, tomate, tabaco e girassol, além de animais, como lhama e peru, foram domesticados, em ~6000 aC, na região central das Américas. Com a domesticação de milheto, lúpulo, mostarda, soja e arroz e, também, porcos, patos e burros, as primeiras comunidades agrícolas surgiram no ano ~6000 aC na China. No entanto, nenhuma dessas plantações e animais domesticados impactaram tão profundamente a história da humanidade quanto o trigo. A domesticação do trigo, a partir do ano ~8000 aC, fez parte da Revolução Neolítica [Velimiroic et al, 2021]. A domesticação de ovelhas, cabras e gado bovino também começou na mesma época [Bagley, 2013].

Estruturas do assentamento de Çatalhöyük após as primeiras escavações.
Um exemplo da dinâmica da Revolução Neolítica é encontrado neste assentamento, na Turquia. As pessoas eram inicialmente caçadoras-coletoras e cultivavam alguns cereais como atividade secundária, mas passaram a domesticar gado e se transformaram em agricultores em larga escala [Hancock, 2022].
(Crédito da imagem: Omar hoftun)

As adversidades climáticas afetaram mais intensamente os agricultores de subsistência, que dependiam de uma gama relativamente restrita de culturas, do que os caçadores-coletores, que tipicamente exploravam uma ampla variedade de recursos alimentares. Esta desvantagem foi compensada por uma estratégia crucial em períodos de escassez: o armazenamento de alimentos. Esta estratégia, que é inviável na vida nômade de caçadores-coletores, é adotada em cidades também porque pouco alimento é produzido no interior delas. O maior celeiro-armazém do Império Romano, o Horrea Galbae, cobria uma área de mais de 20.000 m² e podia armazenar alimentos suficientes para abastecer a população de um milhão de pessoas por sete anos [Roberts, 2023].

6.2.2.5. A população de Homo sapiens

As preocupações com armazenamento de alimentos cresceram juntamente com o crescimento populacional. Entre o ano ~10000 aC e o ano 1700, o crescimento anual da população de indivíduos da espécie Homo sapiens foi de 0,04% [Roser e Ritchie, 2023], com algumas variações. Uma destas variações aconteceu no ano ~8800 aC, quando houve forte queda na temperatura que durou vários anos e, mesmo sem avanço de geleiras, a caça e os materiais vegetais escassearam. Porém as temperaturas se recuperaram e a população humana passou a aumentar mais rapidamente [Bagley, 2013].

População mundial de indivíduos da espécie Homo sapiens a partir do ano 10000 aC.
(Crédito: Roser e Ritchie).

A agricultura aumentou o número de pessoas que podiam ser sustentadas pelo meio ambiente. Deste modo, sendo os primeiros animais a aumentar a capacidade de suporte do seu próprio habitat, os humanos se multiplicaram globalmente [Bagley, 2013] passando de 190 milhões de indivíduos no início do ano 1 para 990 milhões em 1800 [Roser e Ritchie, 2023]. Esta velocidade de crescimento aumentou com a Revolução Industrial no século XIX. Industrialização, saneamento e medicina causaram o declínio das taxas de mortalidade e o aumento das taxas de natalidade [Bagley, 2013]. O crescimento populacional está intima e diretamente relacionado ao crescimento da ciência e da tecnologia [Dong et al, 2016].

6.2.2.6. Colapsos climáticos de grupos humanos

Apesar do crescimento populacional global do Homo sapiens, são conhecidos, no Holoceno, colapsos ou declínios de populações humanas devido a rigores climáticos, como:
  • o fim do Império Acádio
  • o declínio da Idade do Bronze Tardia no Mediterrâneo Oriental;
  • o abandono dos assentamentos nórdicos na Groenlândia. e
  • o colapso dos Maias.
Área aproximada do império Acádio durante o reinado de Narâm-Sîn (2254-2218 aC).
(Baseado em MerikantoSémhur/Zunkir).

Acredita-se que, em ~2000 aC, o clima teria se tornado mais árido na Mesopotâmia, com a diminuição tanto da precipitação quanto da vazão dos rios Tigre e Eufrates. Durante o inverno, sistemas de baixa pressão provocados por temperaturas mais elevadas no Mar Mediterrâneo, associados aos ventos de oeste, teriam reduzido as chuvas na Mesopotâmia. Estas alterações climáticas impactaram negativamente a vegetação, a agricultura e, assim, a sustentabilidade na região. Aconteceu, então, desestruturação social e colapso do Império Acádio, considerado o primeiro império da Terra. Suspeita-se, ainda, que o manejo inadequado da terra seria também responsável pela escassez de água e alimentos [Cookson et al, 2019].

Ruínas do Grande Templo de Hattusa, capital do Império Hitita.
Entre 1225 aC e 1150 aC, com os impérios babilônico, hitita, minoico e micênico entrando em colapso na Idade do Bronze Tardia, cidades, como Hatusa, na costa grega, que antes eram prósperos centros comerciais, foram abandonadas e seus habitantes se refugiaram no campo [Sheposh, 2023].
(Crédito da imagem: Raddato)

Durante a Idade do Bronze Tardia (IBT), guerras associadas a alterações climáticas teriam provocado declínio político-econômico e migração populacional no Mediterrâneo Oriental e no sudoeste da Ásia [Kaniewski et al, 2013].

As temperaturas da superfície do Mar Mediterrâneo esfriaram rapidamente durante a IBT, limitando o fluxo hídrico para a atmosfera. Consequentemente, houve redução da precipitação sobre a terra [Drake, 2012]. Indicadores paleoambientais revelam anomalia hidrológica entre ~1200 aC e 850 aC. Um exemplo é o da Ilha de Chipre. A partir ~1200 aC, o clima mais seco teria provocado incêndios prejudicando a agricultura e fechado uma enseada no ambiente marinho costeiro, fazendo com que a próspera economia portuária de Chipre entrasse em declínio. A redução das precipitações fez com que agricultores de cereais, que eram dependentes da chuva, buscassem outras regiões, pois inovações agrícolas não estavam disponíveis [Kaniewski et al, 2013].

No Mediterrâneo, durante a IBT, evidências geológicas acrescentam ao cenário outros danos. O aumento da frequência de terremotos e de erupções vulcânicas teriam impactado o ambiente já atingido pela seca. Prejuízos nos sistemas de irrigação essenciais para a agricultura e no transporte de mercadorias agravaram o caos social e econômico. Para piorar, a má gestão de barragens e de fontes de água naturais, o cultivo excessivo, o desmatamento, o pastoreio inadequado e outras práticas não sustentáveis ​​aumentaram a escassez de alimentos e as tensões sociais [Robertson, 2025]. Cidades devastadas pela fome foram abandonadas e o campo, despovoado. Padrões de assentamento e a organização política que caracterizavam a IBT haviam chegado ao fim [Kaniewski et al, 2013].

Ruínas da igreja de Hvalsey, no Assentamento Oriental nórdico localizado nas proximidades da atual cidade de Qaqortoq, na Groenlândia.
Este assentamento sobreviveu até meados (ou pelo menos até a primeira década) do século XV. É o que comprovam os Anais Islandeses de 1408. Eles guardam o registro do casamento em Hvalsey, em 16 de setembro de 1408, de Sigriður Björnsdóttir e Thorsteinn Ólafsson [Ogilvie et al, 2009].
[Crédito da imagem: Number 57].

No caso dos assentamentos nórdicos da Groenlândia, havia a suposição de que o seu abandono se devesse à queda da temperatura, afetando os vikings, que haviam descoberto aquelas terras durante o Período Quente Medieval. Em 1257, um vulcão na ilha indonésia de Lombok entrou em erupção, a mais poderosa dos últimos 7 mil anos. São encontrados vestígios de cinzas em núcleos de gelo perfurados na Antártida e na vasta camada de gelo da Groenlândia. O enxofre ejetado do vulcão para a estratosfera refletiu a energia solar de volta para o espaço, resfriando o clima da Terra [Folger, 2017].

Porém não são encontrados registros de declínio abrupto de temperatura no sul da Groenlândia onde se assentaram os nórdicos. Uma alternativa para a causa do abandono pode ser uma tendência de seca persistente sugerida por indícios paleoclimáticos e reforçada pela coincidência com a alteração na dieta dos nórdicos. Eles passaram no mesmo período a consumir alimentos de fontes marinhas. Um clima mais seco teria reduzido consideravelmente a produção de pasto, essencial para a sobrevivência do gado durante o inverno [Zhag et al, 2022].

Ruínas de Mayapán, uma importante cidade maia no norte da península de Yucatán, no atual México.
A escassez de água foi a causa dos conflitos civis que levaram à queda de Mayapán, a maior capital maia nos séculos XIII e XIV [Russell, 2022].
(Crédito da imagem: Joeldesalvatierra).

O colapso da maioria dos centros maias começou durante os séculos IX e X. As relações entre cidades se deterioraram, as guerras se intensificaram, o comércio entrou em declínio e a taxa de mortalidade aumentou. Secas e desmatamentos são considerados causas principais deste declínio que deixou os maias vulneráveis às pressões da colonização europeia a partir do século XVI [Blakemore, 2022]. Outras causas incluem guerras internas, surtos de doenças e uma perigosa dependência de monocultura [Petterson e Haug, 2005]. Indícios paleoclimáticos, datados entre os anos 871 e 1021, mostram que aconteceram diversas secas, tendo a maior durado 13 anos consecutivos [Collins, 2025]

Na Península de Yucatán e no norte da América do Sul, durante os meses de inverno, a zona de convergência intertropical é deslocada para o sul e condições secas predominam. Com a migração desta zona para o norte, no verão, voltam as chuvas. Os maias tiveram que lidar com este contraste sazonal caracterizado por longas estações de seca a cada ano. Esta situação se agravou em um ambiente onde águas superficiais tendem a dissolver o leito rochoso calcário de Yucatán, deixando pouca água para escoar pela superfície. Era difícil simplesmente localizar os assentamentos ao longo dos raros cursos d'água [Petterson e Haug, 2005]. Quando a Espanha conquistou totalmente os maias, a maioria das cidades mais importantes da civilização já havia sido abandonada [Blakemore, 2022].

Porém, assim como é possível constatar consequências climáticas negativas para populações humanas a relativo curto prazo, sabe-se que o clima não impediu a evolução humana a longo prazo, já que os desafios climáticos também estimulam inovação tecnológica [Roberts, 2023]. Entre estas inovações, surgiram as máquinas a vapor que impulsionaram a Revolução Industrial com mecanização e mudanças sociais [Cartwright, 2023]. Até aqui foi mais ou menos assim.

6.2.2.7. Chegamos ao final da história?

Parece que a história continua ainda que a Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS) tenha rejeitado a proposta de criação de uma nova época, o Antropoceno [Witze, 2024]. Foi considerada insuficiente, como marcador de início desta nova época, a lama de ~10 cm do Lago Crawford, no Canadá. Ela captura o aumento global (iniciado na década de 1950) de queima de combustíveis fósseis, uso de fertilizantes e precipitação radioativa de bombas atômicas. Porém, o conceito de uma época com protagonismo humano veio para ficar [Voosen, 2024]. Para tentar voltar aos ótimos climáticos do passado, não é demais esperar que alcancemos logo a maioridade do zelo pelo clima da Terra.



Uma história climática da Terra

Um comentário:

  1. Fascinante....Ao analisar a evolução humana com os efeitos do clima através dos tempos fica evidente como o clima impactou.na sobrevivência das espécies do ser humano e mesmo na distribuição na Terra. Fico imaginando como seria a morfologia dos continentes com o nível do.mar a menos de 130.metros que o nível atual.( início do holoceno). O mundo era outro.
    Parabéns ao autor, muito bom trabalho.
    Victor Suckau

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