5 de junho de 2018

A Lenda do Retrocesso, numa época em que íamos para a direita

Por Zelaznog Ocram


Representação artística e esquemática do processo regressivo ou progressivo, conforme sua visão de mundo (adaptado de Wikimedia Commons)

Tanto na ciência política, quanto na ciência social ou em qualquer ciência que se preze, as narrativas precisam fazer sentido. No caso da ciência geológica, para que qualquer texto sério tenha pretensão de fazer sentido, deve conter no primeiro parágrafo as seguintes três palavras: "tectônica de placas". Mais, se quiser ser considerado um texto extremamente sério deve contê-las já no título. Bem, logo se vê que este não é um texto extremamente sério. 

Entretanto, este texto além de fazer sentido pretende ir além. Caso não pretendesse, com aquelas três palavras já garantidas no primeiro parágrafo, bastaria agora tratar da lenda do Universo Invertido, que é mais ampla e conhecida. 
Acontece que, além de fazer sentido, este texto pretende ser factível, viável. Então, 
  1. considerando que a lenda do Universo Invertido tomaria o tempo de toda uma vida para ser escrita e outro tanto para ser lida; 
  2. considerando que podemos até tentar aliviar um pouco a mente, mas nem eu nem você pretendemos gastar aquele tempo todo basicamente porque nem o temos livre; e, principalmente, 
  3. considerando que se sabe de antemão que o Universo Invertido, inapelavelmente, não pode ter outro final a não ser o nada (ou o tudo); 
este texto se restringe à sub-lenda que nos cabe: a Lenda do Retrocesso, numa época em que íamos para a direita no Universo Invertido.


A Lenda do Retrocesso

Era uma vez, há muitos e muitos anos (mesmo) contados no tempo geológico, uma Terra Invertida. Ela era coberta por lavas e fraturas, todas concentradas principalmente nas enrugadas bordas de placas tectônicas. Nada para se estranhar.
Observação 10. É conveniente esquecer aquela bobagem de Universo Paralelo da qual você já deve ter ouvido falar, um mundo que coexistiria paralelamente ao nosso. Tudo aquilo é pura ficção. O Universo Invertido, por ser invertido, não é paralelo (no sentido de andar junto). Ele tem a mesma direção que o nosso, porém, é claro, assume uma linha de tempo com sentido invertido. Daí o seu nome. Estudos nesse sentido se apoiam, em parte, na teoria da relatividade de Albert Einstein e nos trabalhos dos astrônomos Edwin Hubble e Milton Humason. O Universo Invertido deve estar bem acolá, no tempo e no espaço, além do "ponto de janus" há cerca de 13,8 bilhões de anos, conforme pesquisa desenvolvida pelos físicos Tim A. Koslowski, Flavio Mercati e David Sloan. E, naturalmente, é mais ou menos por lá, antes do Big Bang, que a Terra Invertida orbitava (com giro invertido, é claro) ao redor do Sol Invertido.
Observação 9. Mesmo apesar de os universos mencionados (Invertido e Paralelo) terem nomes distintos, ainda continuam acontecendo equívocos. Por exemplo, cientistas alegam ter encontrado vestígios de um Universo Paralelo nos confins do nosso. Enganam-se, pois se fosse paralelo não estaria nos confins. Esses vestígios só podem ser do Universo Invertido.
Observação 8. É conveniente ter presentes os fundamentos do Universo Invertido apenas no contexto geológico aplicável à Terra Invertida. Ou seja, felizmente não será preciso discutir, por exemplo, sobre a incorreção da famosa equação de Einstein E = mc². A correta, todos sabemos, é E = ±mc², mas esse tipo de digressão é dispensavel sem prejuízo para o entendimento dos processos regressivos tratados aqui.
Naquele tempo geológico, a placa tectônica Sul Americana, a Invertida, movia-se, todos notavam na época, para a direita em direção ao Continente Africano Invertido.

Na borda à esquerda da placa Sul Americana Invertida, concentrava-se uma área com muitos vulcões invertidos, área esta caracterizada como limite divergente (sim, divergente) daquela placa tectônica.


O que bem poderia ser um Vulcão Invertido em sua fase final de sucção de lava, só que não (por Pixabay)
Observação 7. Um vulcão invertido era uma estrutura geológica, no Universo Invertido, com condutos de aspiração que sugavam a lava extravasada para o interior da Terra Invertida. Essa sucção basicamente ocorria quando (lembre-se, as leis da física eram as mesmas): (i) a densidade da rocha fundida fosse maior que a das rochas sotopostas; (ii) diminuía a pressão da câmara magmática, decorrente da menor proporção de gases dissolvidos no magma; e (iii) agiam as correntes de convecção invertidas. Não se conhece com precisão a razão para que isso ocorresse, mas não se deve descartar a importância, tanto para a campo magnético invertido quanto para as correntes de convecção invertidas, da provável escassez do níquel no núcleo invertido.
Observação 6. Um limite divergente (e não convergente) de placas tectônicas consistia na fronteira entre duas placas onde uma, em dessubducção, ia se afastando da outra ao mesmo tempo que um processo de desmetamorfização ocorria. Nesta segunda placa, caracteristicamente, diversos vulcões invertidos iam fazendo o que sabiam fazer.
Á direita, para onde se movimentava a placa Sul Americana Invertida, situava-se um limite convergente de placas tectônicas.
Observação 5. Um limite convergente (e não divergente) de placas tectônicas consistia na fronteira entre duas placas onde uma se aproximava da outra, fazendo sumir as dorsais oceânicas ou os riftes continentais. Tudo nessa área ia murchando e desaparecendo. No caso do sumiço das dorsais oceânicas, um único continente se formava a partir dos dois que se juntavam.
Em muitos lugares, mas raramente no Brasil Invertido, ouviam-se estrondos e rangidos (todos invertidos) provocados por falhas invertidas.
Observação 4Uma falha invertida, no Universo Invertido, consistia numa sutura, num ligamento da crosta invertida da Terra Invertida, que fazia desaparecer as rupturas características do planeta. Não confundir com falha inversa ou de empurrão, onde o teto se desloca por sobre o muro. Nada a ver.
A notável diferença entre uma falha inversa e uma quase finalizada falha invertida (Falha Inversa por Woudloper)

Ao final desses eventos, tanto no caso dos vulcões invertidos, quanto no das falhas invertidas, sumiam todos os vestígios do ocorrido e, pouco a pouco, a superfície da Terra Invertida ia assumindo um aspecto liso e monótono cada vez mais semelhante ao de uma casca de ovo.

Durante tal fenomenal processo, o grande continente Pangea Invertido se formou e, após, outros supercontinentes também entraram nesta lista da história geológica invertida: Panotia Invertido, Rodinia Invertido, Colúmbia Invertido e por aí vai. 

A superfície da Terra Invertida, cada vez mais livre de lavas e tremores, enfrentava um frio de rachar (esta é uma metáfora invertida) que só aumentava. O fenômeno ficou conhecido como resfriamento global e foi causado, a que tudo indica, pelo recolhimento do calor da Terra Invertida que progressivamente se concentrava em seu núcleo.
Observação 3. Estudos postulam inclusive uma conexão direta entre a crosta e o núcleo. Entretanto, a sofisticação crescente das análises pode sustentar a confiabilidade de conclusões sobre o que aconteceu, digamos, há 600 milhões de anos? Não seria mais fácil recorrer a teorias como a do efeito borboleta? Ou apelar para lendas?
Observação 2. À medida que avançamos para trás (um avanço invertido), a maior certeza consiste em acreditarmos que tudo parece ficar cada vez mais confuso. Os dados vão se impregnando de inconfiabilidade e não há namoro entre paleomagnetismo e arqueomagnetismo que dê conta. Se assim não fosse, a Lenda do Retrocesso seria uma teoria comprovada.
O que nos interessa e faz sentido é que em determinado momento aquela tendência de resfriamento global cessou. É fácil entender o que aconteceu. Sem solos férteis, cuja fertilidade dependia principalmente das ricas cinzas e rochas produzidas pelos vulcões invertidos, as florestas foram desaparecendo. Sem sombras, o Sol Invertido, aquele que brilhava nos longínquos tempos geológicos aquecendo tudo que alcançava, conseguiu cada vez mais fazer chegar seus raios quentes à casca de ovo, ou seja, à superfície da Terra Invertida. 


No aquecimento global, tudo se passava como se assim fosse (adaptado de Pixabay)

Dizem, os que testemunharam o ocorrido, que então o aquecimento global passou a prevalecer e, com ele, um processo de retorno, de volta, de recuo, enfim, de retrocesso, invertendo o que estava invertido. Ou seria isso um progresso? Bem, os supercontinentes foram se sucedendo: Ur, Kenorland, Colúmbia, Rodínia, Panotia, Pangea e, a partir daí, tudo foi acontecendo como imaginamos ou cremos que tenha acontecido com a Terra. E, como se sabe, lá se vai o Brasil para a esquerda.
Observação 1. Posto tudo isso como certo e sabido, a única dúvida que fica é esta: aquele Universo era o invertido ou está tudo invertido neste atual?

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